Imigração: o Norte Global quer os cérebros do Sul
Há cinismo nas políticas antiimigratórias da Europa e EUA. Atraem os muito escolarizados, e expulsam os empobrecidos – o que agrava a crise dos países periféricos. Em 15 anos, por exemplo, Síria perdeu metade de seus médicos
Publicado 25/02/2025 às 17:06
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Por Otaviano Helene, no Jornal da USP
Recentemente, o governo dos EUA resolveu assumir uma postura bem mais agressiva, até mesmo violenta, contra a imigração para aquele país. Esse fato intensificou as discussões sobre a questão migratória, mas, como sempre, desconsiderando os problemas que a migração deixa nos países de origem para aqueles que lá permanecem.
Há casos em que a migração pode ter um papel positivo para os países dos migrantes, como, por exemplo, quando há remessas de recursos financeiros em quantidade significativa, quando está associada à formação de profissionais que retornam a seus países de origem, ou quando cria vínculos interessantes a ambos os países. Mas há muitas situações nas quais o efeito no país de origem dos migrantes é negativo, uma vez que este, frequentemente em crise, perde parte importante de seus trabalhadores mais bem escolarizados. Alguns casos marcantes na história recente ilustram isso.
Antes da guerra iniciada em 2011, a Síria tinha cerca de 40 mil médicos, o que correspondia a uma relação entre o número de médicos e de habitantes bastante aceitável; atualmente, as estimativas indicam valores inferiores a 20 mil médicos, o que coloca aquele país em uma posição crítica segundo os critérios da OMS. Esses profissionais perdidos pela Síria foram para o exterior, havendo, em 2018, cerca de 9 mil médicos formados na Síria nos países da OCDE. A fuga de cérebros é também ilustrada por outros indicadores: cerca de 27% dos migrantes sírios têm formação em nível superior, contra apenas 10% da população daquele país.
A componente educacional do IDH é calculada como uma média entre o nível escolar da população adulta e o nível educacional com que as pessoas deixam a escola. Esse indicador no caso da Síria caiu drástica e rapidamente nos primeiros anos após 2011, quando começou a guerra civil. Essa redução do IDH educacional ocorreu tanto por causa da emigração de pessoas bem escolarizadas como pela desestruturação do sistema educacional, inclusive por causa da migração de professores.
Embora a Síria seja um caso marcante e recente, o mesmo ocorreu com outros países. A Líbia é um exemplo. A intervenção internacional, comandada inicialmente pelos EUA e posteriormente pela Otan, aumentou o número de migrantes, sendo cerca de 30% deles com formação em nível superior. Essa mesma proporção de pessoas escolarizadas entre os migrantes ocorreu no caso do Iraque. O Afeganistão é outro país a sofrer com a perda de pessoas bem escolarizadas: cerca de 10% dos seus migrantes têm nível superior completo, proporção muito maior do que a observada na população daquele país.
O Haiti é mais um exemplo. Um em cada cinco adultos haitianos que migraram para os EUA tem ensino superior completo, 60% têm pelo menos o ensino médio e apenas 20% têm menos do que este último grau educacional. Esse padrão de escolarização é muito superior àquele dos adultos haitianos. Essas pessoas farão muita falta em seu país de origem.
O perfil educacional dos migrantes adultos que chegam ao Brasil também ilustra a perda de profissionais nos países de origem: cerca da terça parte deles tem ensino superior completo e um décimo destes, pós-graduação. Essas proporções são superiores à realidade dos adultos brasileiros e muito superiores àquelas dos países dos quais saíram.
Os migrantes acabam por criar vínculos nos países que escolheram e muitos não voltam, perenizando a perda. Se a migração tiver sido provocada por crises, menores ainda serão as chances de retorno. O novo governo sírio parece tentar, segundo notícias recentes, atrair de volta os profissionais que aquele país perdeu. Difícil imaginar que isso ocorrerá, pois esses e essas migrantes são pessoas que deixaram um país laico em crise e foram morar em outros países laicos; voltarão para um país governado por grupos de base teocrática e ainda em crise, embora uma crise de outra espécie?
O governo dos EUA, bem como de alguns países europeus, como o italiano, por exemplo, é muito duro com os migrantes, mas apenas com aqueles que não são altamente escolarizados. Nos mesmos EUA há leis que favorecem a migração de pessoas bem escolarizadas: migrantes com formação médica e que aceitem trabalhar por, no mínimo, cinco anos em regiões definidas pelo governo conseguem o documento definitivo de residência. O poder de atração de migrantes bem escolarizados faz com que cerca de um quinto dos médicos nos EUA tenham se graduado em países estrangeiros (estatística que não inclui os profissionais formados no Canadá).
Tal política migratória que atrai pessoas bem escolarizadas é aplicada não apenas pelos EUA, mas, também, por vários outros países ricos. Por exemplo, cerca de 10% a 15% dos médicos franceses são formados em países africanos, especialmente Marrocos, Argélia e Tunísia, situação não diferente da de outros países europeus.
Os EUA, ao mesmo tempo em que recebem bem e até atraem os migrantes bem escolarizados, também têm políticas voltadas à atração de pessoas ricas: investir cerca de US$ 1 milhão no país facilita enormemente a obtenção do título de permanência definitivo.
A fuga de cérebros é, nos países em crise, muitas vezes maior do que aquela com a qual estamos acostumados aqui no Brasil. E com os cérebros, vão também os recursos: estima-se que a migração de pessoas altamente escolarizadas de países africanos corresponda à transferência de US$ 2 bilhões por ano para Austrália, Reino Unido, EUA e Canadá.
Há muito cinismo e hipocrisia nas políticas de migração adotadas pelos países ricos. Essas políticas agravam as crises nos países de origem dos migrantes, crise essa provocada frequentemente por políticas de desestabilização fomentada ou praticada por aqueles países para os quais fogem suas vítimas. É cruel provocar crises, expulsar os migrantes mais pobres e receber bem e reter apenas os bem escolarizados ou os mais ricos. Tal política dificulta enormemente a recuperação dos países em crise e o desenvolvimento dos países mais pobres.