Os bastidores da Teoria Crítica
Uma viagem inédita aos arquivos originais da Escola de Frankfurt revela os rascunhos, cartas e anotações dos pensadores que forjaram este movimento intelectual – mostrando o processo criativo por trás das grandes teorias. Leia um trecho e concorra a um exemplar
Publicado 29/01/2026 às 10:56

Sentados, da esquerda para a direita: Karl August Wittfogel, Rose Wittfogel (1889–), desconhecido, Christiane Sorge, Karl Korsch, Hedda Korsch, Käthe Weil, Margarete Lissauer (1876–1932), Béla Fogarasi, Gertrud Alexander / de pé, da esquerda para a direita.: Hede Massing, Friedrich Pollock, Eduard Ludwig Alexander, Konstantin Zetkin, Georg Lukács, Julian Gumperz, Richard Sorge, Karl Alexander (child), Felix Weil, desconhecido | Fonte: Wikimedia Commons
A força de uma corrente de pensamento também se mede pela vitalidade de seus arquivos e pela capacidade de renovar o diálogo com novas gerações. Nesse sentido,
Podemos medir a força de uma corrente de pensamento pela vitalidade de seus arquivos e pela capacidade de influenciar e renovar o diálogo com as novas gerações.

É o que demonstra a obra Os Arquivos da Teoria Crítica, organizada por Isabelle Aubert (Universidade de Paris 1) e pelo brasileiro Marcos Nobre (Unicamp/Cebrap).
Publicado pela Edições Sesc São Paulo, o livro oferece uma perspectiva renovada e fascinante sobre os documentos que deram corpo à tradição intelectual da Escola de Frankfurt. A coletânea de ensaios se propõe a ser um projeto amplo que articula filosofia, história intelectual e política – assim como os participantes da escola alemã.
Outras Palavras e Edições Sesc São Paulo irão sortear um exemplar de Os Arquivos da Teoria Crítica, org. por Isabelle Aubert e Marcos Nobre, entre quem apoia nosso jornalismo de profundidade e de perspectiva pós-capitalista. O sorteio estará aberto para inscrições até a segunda-feira do dia 9/2, às 14h. Os membros da rede Outros Quinhentos receberão o formulário de participação via e-mail no boletim enviado para quem contribui. Cadastre-se em nosso Apoia.se para ter acesso!
No desenrolar de cada página, o leitor é conduzido pelos espólios de gigantes como Walter Benjamin, Theodor Adorno, Max Horkheimer, Herbert Marcuse e Jürgen Habermas, descobrindo os rascunhos, as correspondências e os processos criativos por trás de conceitos que moldaram a crítica social no século XX e ainda ecoam fortemente hoje.
Um dos grandes diferenciais da edição brasileira é a ativa e destacada participação nacional. A obra não se limita a traduzir estudos estrangeiros; ela integra pesquisadores brasileiros com colegas da França, Alemanha, Suíça e Estados Unidos.
Tal colaboração resulta em reflexões que conectam a rica tradição da Teoria Crítica aos urgentes debates contemporâneos sobre democracia, autoritarismo, educação e justiça social na realidade latino-americana.
Com mais de 350 páginas, a publicação reúne ensaios, entrevistas (como uma valiosa conversa com Ursula Marx, responsável pelo Arquivo Walter Benjamin em Berlim) e análises detalhadas.
O livro celebra, ainda, o centenário do Instituto de Pesquisa Social (fundado em 1923), revisitando sua trajetória desde a fundação, passando pelo exílio durante o nazismo, até sua consolidação como um dos principais centros de pensamento crítico global.
Publicação perfeita a todos que queiram entender as bases do pensamento crítico moderno e sua relevância para os desafios atuais.
Leia, logo abaixo, um trecho da introdução que aborda não apenas uma prévia dos textos por vir, como também faz uma reflexão acerca da importância e dificuldades do trabalho de arquivistas. Boa leitura!
Fundado em 1923, o Institut für Sozialforschung [Instituto de Pesquisa Social] [1] foi inaugurado oficialmente em 22 de junho de 1924, na cidade de Frankfurt am Main, Alemanha, por iniciativa de Félix Weil. O instituto reuniu pesquisadores de diferentes domínios do conhecimento, incluindo filosofia, economia, ciências sociais, direito e história, com o objetivo de desenvolver pesquisas acadêmicas sobre o marxismo. Embora o Instituto de Pesquisa em Ciências Sociais de Colônia e o Instituto da Economia Mundial de Kiel já produzissem pesquisa social naquela época [2], o Instituto de Pesquisa Social era único por sua orientação marxista. Em seu famoso ensaio de 1937, “Teoria tradicional e Teoria Crítica”, Max Horkheimer, que sucedeu Carl Grünberg na direção do Instituto, deu um nome a essa filosofia social muito específica que tomou como modelo a crítica de Marx à economia política: Teoria Crítica da Sociedade [3]. “Teoria Crítica” refere-se tanto ao “marxismo” em sentido amplo como a uma vertente específica dentro do marxismo – a do grupo reunido em torno do Instituto [4]. Como filosofia dialética e teoria oposicionista e materialista, a Teoria Crítica analisa os processos da vida social com vista à libertação do ser humano de todas as formas de dominação. Seu método confronta os dados das ciências especializadas com uma filosofia alimentada por Marx, pelo idealismo alemão de Kant e Hegel e pela psicanálise de Freud [5].
Esse grupo de intelectuais alemães ficou conhecido em alguns círculos como “Escola de Frankfurt”, um rótulo tardio que os membros do Instituto aceitaram progressivamente, embora tivessem formações acadêmicas diversas e publicassem trabalhos pessoais e originais. Walter Benjamin (que sequer chegou a saber desse rótulo, já que faleceu em 1940), Herbert Marcuse e Theodor Adorno ficaram conhecidos primeiro por seus próprios trabalhos, e só mais tarde como membros da Escola de Frankfurt. Como lembra Martin Jay, “a noção de uma escola específica não se desenvolveu senão depois de o Instituto ter sido forçado a deixar Frankfurt (o termo mesmo não foi usado até que o Instituto retornasse à Alemanha, em 1950)” (Jay, 1973, p. XXIX, nota) [6].
Por ocasião do centésimo aniversário da fundação do Instituto de Pesquisa Social, este volume [7] pretende lançar luz sobre a atividade intelectual de alguns teóricos críticos, investigando seus arquivos. A existência de arquivos contendo manuscritos, gravações e outros documentos de autores como Max Horkheimer, Friedrich Pollock e Leo Löwenthal é conhecida em relativamente poucos círculos, mesmo dentro da academia. Seu potencial para avançar na compreensão das obras e da época desses autores é ainda menos conhecido.
No entanto, a própria história do Instituto – que se mudou várias vezes à medida que seus membros fugiam do regime nazista, sendo sempre reconstituído nos novos locais – já mostra que, sem esses arquivos, é impossível compreender plenamente o trabalho desses investigadores. Os vários lugares em que viveram os teóricos críticos no exílio eram repositórios de manuscritos, cartas e documentos de trabalho. Vale a pena recordar as diversas sedes do Instituto: em Frankfurt, de 1923 a 1933, e de 1951 até hoje; simultaneamente em Genebra, Nova York e, parcialmente, em Los Angeles, de 1933 a agosto de 1950. A revista do Instituto, a Zeitschrift für Sozialforschung [Revista de Pesquisa Social], depois de ser publicada durante um ano pela editora Hirschfeld, em Leipzig, foi publicada pela editora Félix Alcan, em Paris, de 1933 a 1939, e em seguida pelo Institute of
Social Research, em Nova York, até 1941-1942. O exílio também afetou trajetórias
individuais, o que explica, por exemplo, as estadias de Benjamin, Horkheimer e Marcuse em Paris, e de Adorno em Oxford.
O exílio dos membros da Teoria Crítica e as diferentes mudanças de sede do Instituto tornam a busca nos arquivos uma tarefa necessária para adquirir um conhecimento exaustivo dos escritos desses autores (muitos dos quais permanecem inéditos), para familiarizar-se com os materiais que eles utilizaram e as particularidades desses materiais (como a técnica de micrografia utilizada por Benjamin), e compreender os contextos em que os livros publicados foram escritos. Quando se trata de teóricos que, no espírito de Marx, sempre enfatizaram as relações entre teoria e prática, destacar as condições materiais em que trabalharam não é algo meramente anedótico.
Como mostra o trabalho nos arquivos, os deslocamentos do Instituto e de seus membros rapidamente internacionalizaram a Teoria Crítica. Isso é evidenciado por vários fatos. Em meados da década de 1930, a Zeitschrift für Sozialforschung publicou artigos dos filósofos Alexandre Koyré e Raymond Aron, da antropóloga Margaret Mead e do geógrafo Albert Demangeon. A estadia do Instituto em Nova York teve uma influência duradoura na pesquisa realizada em sua instituição anfitriã, como evidenciado hoje por muitos dos programas de investigação da New School for Social Research. Mas o que talvez melhor mostre a influência intelectual internacional do que posteriormente seria conhecido como Escola de Frankfurt, apesar de todas as dificuldades impostas pelo nazismo e pela Segunda Guerra Mundial, é a extensa e variada correspondência que os autores mantiveram com outros intelectuais de sua época. Milhares de cartas estão guardadas em diferentes arquivos. Algumas das correspondências são aos poucos publicadas – como aquelas entre Horkheimer e Adorno, Adorno e Siegfried Kracauer, Walter Benjamin e Gershom Scholem, e assim por diante –, enquanto outras permanecem ainda inéditas ou mesmo desconhecidas.
O período coberto por este livro se estende de meados de 1800 até os dias atuais. O volume começa com os arquivos de Karl Marx e Friedrich Engels, cuja obra inspirou a fundação da Teoria Crítica. O estudo desses arquivos recém-digitalizados, aqui apresentado por Olavo Ximenes, deveria interessar a qualquer pesquisador que se pergunte sobre quais documentos estavam à disposição dos teóricos críticos da época, em contraste com aqueles que temos hoje. No outro extremo da linha do tempo, este volume inclui um filósofo que é normalmente associado à segunda geração de teóricos críticos: Jürgen Habermas. O caso de Habermas é especial, já que ele está envolvido na construção de seu próprio arquivo. Nem todo o material já se encontra disponível, mas a correspondência que já está disponibilizada apresenta grande valor e interesse, como mostra a entrevista que Rafael Palazi e Pedro Zan realizaram com Roman Yos [8].
Entre essas duas pontas do projeto, o volume dedica uma seção aos arquivos do próprio Instituto e diversas seções a teóricos críticos específicos, além de buscar conexões entre arquivos de diferentes autores. Os arquivos aqui estudados são os de Karl Marx e Friedrich Engels, Walter Benjamin, Max Horkheimer, Theodor W. Adorno, Friedrich Pollock, Herbert Marcuse, Leo Löwenthal e Jürgen Habermas. O livro é composto por artigos de pesquisadoras e pesquisadores, de editoras e editores que atuaram e atuam nos diversos arquivos, bem como por entrevistas com pesquisadoras e pesquisadores que foram ou são responsáveis por alguns desses arquivos, ou que dispõem de um conhecimento especialmente aprofundado do material.
Infelizmente, nem todos os membros do Instituto puderam ser incluídos neste livro. Não apenas pela impossibilidade de abranger todos em um único volume, mas também pela dificuldade de encontrar uma pesquisadora ou um pesquisador disponível para escrever sobre um arquivo específico existente, ou porque um arquivo ainda sequer foi constituído como tal. Fica claro, portanto, que este volume não tem nenhuma pretensão de exaustividade, mas pode ser considerado como um primeiro passo exploratório nessa direção. Esperamos vir a ter muito mais estudos sobre os arquivos da Teoria Crítica.
Apresentar esses diferentes arquivos é também uma forma de lembrar que o próprio Instituto foi criado como um arquivo. Não apenas porque [14] seu primeiro diretor de fato, Carl Grünberg, foi um historiador, que editou o famoso Archiv für die Geschichte des Sozialismus und der Arbeiterbewegung [Arquivo para a História do Socialismo e do Movimento dos Trabalhadores]. A principal razão para o Instituto assim haver sido criado é que um de seus primeiros objetivos era se tornar um arquivo único do movimento operário. Essa história é retratada por Henryk Grossmann, um dos membros mais proeminentes do Instituto [9]. Em uma carta escrita a Paul Mattick em 1931, Grossmann escreveu que o Instituto era “uma instituição neutra na universidade, acessível a todos. O seu significado está em reunir pela primeira vez tudo o que diz respeito ao movimento operário nos países mais importantes do mundo. Sobretudo, fontes (atas de congressos, programas partidários, estatutos, jornais e revistas) […] Quem hoje na Europa Ocidental desejar escrever sobre as correntes do movimento operário tem de vir até nós, pois somos o único lugar para isso” (Grossmann, 1969, pp. 85-6, apud Jay, 1973, p. 14). “Neutro”, neste caso, significa nenhuma filiação – como grupo [10] – a um partido específico ou a uma vertente política específica do marxismo. O projeto era reunir diferentes concepções e práticas do marxismo. O Instituto, como tal, optou por manter uma distância prudente da ação direta, não obstante
seu compromisso com o marxismo. Em que pese sua alegada neutralidade, a frase de Grossmann sobre “os países mais importantes do mundo” demonstra o que era então um preconceito marxista comum, apesar de a primeira revolução proletária bem-sucedida ter ocorrido na Rússia, um país que não era visto como um dos “mais importantes” antes de 1917.
É claro que se pode perguntar se a descrição de Grossmann nessa carta correspondia efetivamente à realidade. Poderia ter sido um projeto em que ele e outros estivessem trabalhando, já que, em outra parte da carta, não citada por Jay, ele pergunta a Mattick se poderia fornecer ao Instituto materiais de que este não dispõe. Nas palavras de Grossmann: “Temos muita coisa, ainda que apenas em forma de livros de grande formato; faltam-nos brochuras, cartazes, jornais de fábrica, fotos de personalidades importantes do movimento operário, suas cartas (que coletamos especialmente em nosso departamento de manuscritos)” (Grossmann, 1969, p. 86). Na verdade, nesta altura o Instituto já tinha recolhido uma massa significativa de livros e documentos relativos ao movimento operário – só para a biblioteca, Martin Jay fala de “mais de 60 mil volumes” (Jay, 1973, p. 29).
Esses materiais preciosos foram quase totalmente perdidos depois que os nazistas, em março de 1933, “entraram no prédio [do Instituto] no Senckenberganlage, então Viktoria-Allee 17, confiscaram-no e selaram as suas salas” (Schmid Noerr, 1995, p. 13) [11]. O fechamento abrupto do Instituto e os acontecimentos sombrios que se seguiram nos fazem perceber, retrospectivamente, quão árduo foi o esforço dos autores incluídos neste volume para preservar seus escritos da destruição ou da dispersão em diferentes mãos e em diferentes lugares. Recorde-se, por exemplo, o caso de Walter Benjamin. Algumas das cartas que recebeu foram perdidas porque ele teve que fugir às pressas de Berlim. Outros documentos foram encontrados em Israel porque Benjamin os havia enviado para Gershom Scholem. Em Paris, onde a Gestapo confiscou seus pertences logo após ele embarcar no último trem a sair da cidade, Benjamin conseguiu entregar alguns manuscritos a Georges Bataille. Outros foram enviados a Adorno, em Nova York. Na entrevista realizada por Fernando Bee com Ursula Marx, o leitor não apenas conhecerá o turbulento e difícil processo de construção do Arquivo Walter Benjamin, mas também ficará sabendo que esse arquivo inclui ainda outros acervos, como os de Florens Christian Rang ou Gisèle Freund.
Mesmo quando os membros do Instituto estavam relativamente protegidos da perseguição nazista, como acontecia nos Estados Unidos em meados da década de 1930, sua posição como imigrantes os punha em perigo constante. Eles tiveram que esconder suas afinidades marxistas de uma forma ou de outra para evitar serem rotulados como comunistas e como ameaça a um país que se tinha dado a missão de combater a então União Soviética. As diversas peregrinações dos autores, as movimentações do Instituto e as condições de exílio são constitutivas de boa parte de seus escritos. Aqueles materiais que não foram simplesmente perdidos foram difíceis de coletar e de reunir em um único lugar e em um único arquivo. Durante muito tempo, isso resultou também em diferentes graus de acessibilidade dos documentos.
Quem se propusesse a visitar todos os arquivos dos teóricos críticos teria que fazer uma longa viagem ao redor do mundo. Como explicam as várias contribuições para este volume, depois de transferidos para diferentes locais, a maior parte dos documentos foi progressivamente repatriada após a Segunda Guerra Mundial e centralizada na Alemanha: em Frankfurt am Main para Adorno, Horkheimer e Leo Löwenthal, em Berlim para Benjamin, e em Tübingen para Erich Fromm. Mas existem alguns documentos arquivados em outros 16
países: como mostra Philipp Lenhard em seu texto, alguns dos documentos de Pollock estão em Florença, Itália. Do outro lado do Atlântico, em vários lugares dos Estados Unidos, podemos encontrar documentos de vários pensadores que não retornaram à Alemanha depois da guerra: Marcuse, Löwenthal, Franz Neumann e Otto Kirchheimer, por exemplo.
Hoje, os graus de organização dos diferentes espólios vão desde a digitalização completa de alguns arquivos – ou pelo menos a catalogação completa dos documentos – até espólios que ainda não estão efetivamente constituídos em arquivos. Os documentos de Franz Neumann, por exemplo, estão espalhados pelos acervos de Marcuse e de Otto Kirchheimer. Quando se consideram os recursos humanos e financeiros necessários para catalogar todos os artigos restantes de um autor, não é tão surpreendente que muitos espólios não estejam (totalmente) arquivados. Até a primeira metade do século XX, eram comuns cartas longas – por exemplo, aproximadamente metade do acervo Horkheimer-Pollock é composta por cartas –, e os manuscritos, no sentido original da palavra, eram antes a regra para livros, cursos, projetos de pesquisa coletiva, intervenções públicas, e assim por diante.
Há também a questão da preparação dos arquivos pelos próprios autores. Michael Schwarz, por exemplo, lembra-nos, logo no início da sua contribuição para este volume, que Adorno, no momento de sua morte inesperada, ainda não tinha pensado em organizar o seu próprio acervo. Segundo Schwarz, Adorno não tinha nenhuma atitude arquivística em relação às suas próprias obras, que incluem composições musicais.
Outra dificuldade no trabalho arquivístico da maioria desses autores é que as condições em que os materiais foram preservados não são homogêneas, sendo, por vezes, extremamente precárias. Para compreender a quantidade de trabalho envolvido para estabelecer um arquivo adequado, basta tomar como exemplo o que nos diz Gunzelin Schmid Noerr em seu capítulo neste volume. Schmid Noerr, um pesquisador dedicado, passou onze anos catalogando o espólio de Horkheimer com o apoio de vários bibliotecários universitários. Um grupo separado de cerca de dez pessoas cuidou do levantamento detalhado do material disponível. No caso de Horkheimer, o trabalho editorial durou mais de dezoito anos.
Isso deveria ser suficiente para provar que este volume também se dedica a destacar o trabalho invisível de arquivistas, editoras e editores, sua jornada de trabalho frequentemente dupla ou tripla como arquivistas, pesquisadoras, pesquisadores, editoras e editores das obras de um autor. Devemos lembrar que o que se pode fazer com o material de arquivo depende da própria materialidade da documentação, como aponta Olivier Voirol em seu capítulo neste volume. E tal materialidade não tem apenas a ver com o conteúdo do espólio dos autores, mas também com sua materialização, por assim dizer, a partir do trabalho de arquivistas, editoras e editores. É por isso que o presente livro procura dar voz a quem faz esse trabalho.
A própria questão dos meios materiais sempre teve uma importância decisiva para a história da Teoria Crítica. No caso de Marx e Engels, obviamente não há gravações e, no caso de Benjamin, apenas algumas, mas as temos para os autores que ainda estavam vivos após a Segunda Guerra Mundial, quando as gravações de televisão, cinema e rádio se tornaram relativamente abundantes e puderam ser preservadas. Muitos dos teóricos críticos representados neste livro optaram deliberadamente por intervir na esfera pública, tirando partido dos vários instrumentos disponíveis para isso em cada momento.
Outras Palavras e Edições Sesc São Paulo irão sortear um exemplar de Os Arquivos da Teoria Crítica, org. por Isabelle Aubert e Marcos Nobre, entre quem apoia nosso jornalismo de profundidade e de perspectiva pós-capitalista. O sorteio estará aberto para inscrições até a segunda-feira do dia 9/2, às 14h. Os membros da rede Outros Quinhentos receberão o formulário de participação via e-mail no boletim enviado para quem contribui. Cadastre-se em nosso Apoia.se para ter acesso!
É certamente muito importante distinguir entre arquivos que até agora foram amplamente digitalizados ou publicados em formato de livro e outros que ainda aguardam publicação. Com relação a isso, casos opostos podem ser os de Marx-Engels e de Horkheimer, por um lado, e os de Marcuse ou do Instituto de Pesquisa Social, por outro. Mas mesmo quando os arquivos são amplamente digitalizados, como o espólio de Marx-Engels, pesquisar os arquivos ainda é importante, como mostra claramente o capítulo de Olavo Ximenes.
Dados os diferentes estados atuais dos arquivos, tentamos equilibrar os também diversos objetivos e aspectos na composição deste livro. Os leitores encontrarão informações sobre o conteúdo de cada arquivo e a história de sua constituição. As diversas contribuições apresentam muitas maneiras pelas quais os materiais podem ser explorados e explicam como tais explorações afetaram ou ainda podem afetar o estado da pesquisa. Os colaboradores desenvolvem reflexões teóricas sobre o que significa trabalhar nesses arquivos, por vezes relatando a sua própria experiência pessoal nesse trabalho. A contribuição de John Abromeit, por exemplo, mostra a realidade do trabalho arquivístico no início da década de 1990, as dificuldades que enfrentou então e o que ainda é requerido hoje para realizar esse trabalho. Embora tivesse feito um curso de leitura de manuscritos em alemão dos séculos XVIII e XIX, por exemplo, Abromeit, juntamente com Stephan Bundschuh, outro especialista em Marcuse, tentaram em vão decifrar a caligrafia de Martin Heidegger numa carta a Marcuse.
Este volume coletivo sobre os arquivos da Teoria Crítica é publicado para comemorar o 100º aniversário do Instituto, conhecido por sua inovadora abordagem interdisciplinar. No entanto, apesar de uma seção dedicada aos arquivos do Instituto, aos quais os vários autores estiveram vinculados de diferentes formas e em diferentes momentos, a grande maioria dos arquivos existentes é de autores individuais. Isso apresenta problemas específicos. A contribuição de Adriano Januário para este volume enfatiza o caráter interdisciplinar do Instituto no sentido de um trabalho de pesquisa empírica interdisciplinar coletiva. Isso nem sempre é suficientemente enfatizado, a nosso ver, quando se trata de interpretar o legado e as contribuições da Teoria Crítica, que muitas vezes são tratadas em termos de obras individuais, de contribuições de natureza apenas filosófica e teórica, ou apenas em termos genéricos e rótulos vazios como “Escola de Frankfurt”. Este constante vaivém entre trabalhos individuais e coletivos/interdisciplinares é essencial para a compreensão de ambas as dimensões, especialmente quando se trata de pesquisas empíricas, muitas vezes muito inovadoras, como mostra claramente a análise que Januário faz do Gruppenexperiment (1955).
Outra dimensão para considerar o trabalho individual e coletivo como um todo pode ser encontrada, a nosso ver, num trecho de Adorno que serve de epígrafe à contribuição de Dirk Braunstein e Maischa Gelhard: “Ao organizar o arquivo de si próprio, o sujeito confisca o seu próprio estoque de experiência como propriedade e com isso volta a torná-lo algo inteiramente alheio ao sujeito. A vida interior pretérita converte-se em mobília, assim como cada exemplar de móvel pequeno-burguês (Biedermeier) dos oitocentos era produzido como lembrança tornada madeira” (Adorno, 2008, p. 162). Essas palavras de Adorno aludem ao ditado – provavelmente de Jean Paul [12], acrescenta – de que as memórias são a única propriedade que ninguém nos pode tirar. Não é de surpreender, então, que Adorno associe tal “consolo impotentemente sentimental” ao estilo Biedermeier, com aquele tipo de desespero burguês de “deixar rastros”, como disse Walter Benjamin da forma de vida burguesa. O aforismo termina com outro toque benjaminiano: “é tolice sentimental procurar manter o passado limpo da torrente de sujeira do presente” (Adorno, 2008, p. 163).
Este livro leva a sério as palavras de Adorno ao refletir sobre os arquivos da Teoria Crítica. Sua mensagem é o fio condutor deste empreendimento, como deveria ser para qualquer exame dos arquivos a ela relacionados. Estes não tratam apenas de pessoas privadas enquanto pessoas privadas, se é que existe uma figura de privacidade que possa corresponder a sua imagem ideológica atual. Arquivos são instalações públicas nas quais acadêmicos e o público em geral podem realizar pesquisas. Embora seja certamente “tolo e sentimental” tentar isolá-los do presente turbulento, eles adquirem uma objetividade especial quando são pesquisados e quando são publicados. Essa objetividade não deve ser mal compreendida. Sempre existe o risco de que o conteúdo do material recém-descoberto seja considerado a verdade inquestionável sobre os autores. No entanto, seria um equívoco considerá-lo de maneira tão peremptória. Como mostra Inara Marin, referindo-se às edições dos ensaios de Marcuse, quando são publicados textos de arquivo, são feitas escolhas editoriais que, por vezes, influenciam involuntariamente a seleção dos textos e dão uma visão diferente do pensamento do autor.
Ao considerarmos pensadores que sublinharam a necessidade de a teoria social se dedicar a compreender o tempo presente, as interpretações fixas seriam equivocadas. Obviamente, é importante que haja um elemento de contextualização para evitar essa armadilha. Em qualquer investigação arquivística, surge sempre a questão de saber por que certos materiais não foram tornados públicos: seriam versões inacabadas de trabalhos publicados posteriormente? Seriam meros rascunhos? Foram caminhos de pensamento deixados intocados? Foi correspondência privada? Ou: por que, após a sua transmissão, esses materiais foram arquivados, como acontece frequentemente com as gravações de rádio? No caso dos teóricos críticos, a importância de suas reflexões sobre a época impossibilita que os materiais descobertos sobre eles nos arquivos sejam tomados como peças de museu. Parece mais correto considerá-los como momentos de desenvolvimentos que prosseguem no tempo. Gunzelin Schmid Noerr concorda com Jan Assmann ao distinguir três dimensões da memória – individual, comunicativa e cultural –, e este volume enfatiza a dimensão cultural da memória.
Mas este não é o seu único foco. Como nos lembra Paulo Yamawake em seu capítulo sobre Horkheimer, os teóricos críticos retratados ocupavam diferentes posições, muitas vezes simultaneamente, na administração do Instituto, na própria pesquisa coletiva e individual e nas relações pessoais que cultivavam (“o diretor, metodólogo e parceiro”). E não esqueçamos aqueles que ainda hoje permanecem em grande parte no desconhecimento ou na invisibilidade, como Juliette Favez, ex-diretora da filial de Genebra do Instituto, retratada por Olivier Voirol neste volume através de sua correspondência com Horkheimer. Essas diferentes posições influenciam não só o trabalho teórico e empírico dos autores aqui apresentados através dos seus arquivos, mas também a própria recepção de suas obras, a evolução das diversas interpretações ao longo do tempo de acordo com o peso atribuído a cada uma das posições que ocuparam. Essas posições também influenciam as suas relações pessoais, como demonstrado por Peter-Erwin Jansen e Inka Engel no caso da amizade duradoura e do companheirismo intelectual entre Marcuse e Löwenthal. E, sendo um dos objetivos deste livro destacar experiências de trabalho com arquivos, algumas das contribuições deste volume tratam do compartilhamento das dimensões individuais e comunicativas dessa experiência.
O livro pretende captar diversas perspectivas sobre o arquivo, da mesma forma que os teóricos críticos tiveram diversas relações com ele. Primeiro, alguns deles fizeram, eles próprios, pesquisas de arquivo. Isso é verdade para Marx e Engels, por exemplo, antes dos membros do Instituto, e, dentre estes, é o que fizeram Benjamin e Pollock. Em segundo lugar, de forma bastante notável, alguns teóricos também refletiram sobre a ideia de serem arquivados, o que pode ser visto como outra especificidade daquilo que o arquivamento dos teóricos críticos implica: o seu trabalho foi considerado resistente ao arquivamento, tal como o trabalho de alguns artistas resiste à musealização, por assim dizer. Como já demonstrado pela citação de Adorno, os teóricos críticos pretendiam resistir à objetivação. Uma boa ilustração aqui é a ideia de Benjamin da “salvação dos fenômenos”, concomitante a sua formulação de que todo documento de cultura é ao mesmo tempo um documento da barbárie.
Nesse sentido, o espectro de Walter Benjamin está sempre presente. Há muitas ideias a serem salvas, algumas das quais ainda desconhecemos. Existem outras possibilidades para o desenvolvimento do capitalismo que ignoramos nos escritos de Marx? Existem possibilidades que permaneceram ocultas devido a escolhas editoriais que privilegiaram determinados materiais em detrimento de outros? As reflexões feitas por Antonin Wiser em seu texto sobre o pensamento do próprio Benjamin sobre arquivos e processos de arquivamento, bem como a sua posição como “anarquivista”, são essenciais para a compreensão dessa dimensão.
Quem faz pesquisa tem consciência de que a primeira publicação de documentos previamente arquivados pode alterar a forma como se olha para todos os textos anteriormente publicados. Um exemplo entre muitos é o de Adorno. Desde o início do século XXI, vários novos trabalhos sobre Adorno interpretaram sua trajetória sob nova perspectiva, a exemplo do importante livro de Brian O’Connor [13]. Mas ainda há muito a ser feito com materiais de arquivo que permanecem inéditos, como demonstra o capítulo de Raquel Patriota e Ricardo Lira. O livro de Dirk Braunstein A crítica da economia política de Adorno, traduzido para o inglês em 2022, é um bom exemplo de como textos inéditos podem mudar leituras: mostra como a crítica da economia era central para a teoria da sociedade de Adorno e não, como geralmente se pensa, uma relíquia do passado. A contribuição de Aurélia Peyrical para este volume se assenta igualmente sobre trabalho de arquivo, mas numa perspectiva diferente, evidenciando a dimensão pedagógica do pensamento de Adorno. Ao apontar para o crescente número de trabalhos sobre Adorno e a educação, Peyrical recorre a quatro entrevistas de rádio entre ele e Hellmut Becker que não receberam muita atenção, em contraste com outras quatro que são bem conhecidas graças a sua publicação (póstuma) no volume Erziehung zur Mündigkeit [Educação para a maioridade], de 1971.
A publicação de documentos originais dos arquivos de membros individuais do Instituto é um empreendimento que vem crescendo continuamente desde a década de 1970. Os teóricos críticos foram os primeiros a supervisionar a publicação dos escritos inéditos dos seus colegas falecidos: juntamente com Scholem, Adorno e a sua esposa Gretel cuidaram dos manuscritos de Benjamin, enquanto Marcuse editou vários ensaios de Neumann. Alguns colaboradores deste volume fizeram esforços para editar e publicar documentos arquivados. Graças ao trabalho de longo prazo de Alfred Schmidt e Gunzelin Schmid Noerr, muitos dos escritos de Max Horkheimer estão disponíveis, incluindo a sua obra completa (o último dos dezenove volumes foi publicado em 1996). Além da correspondência entre Löwenthal e Kracauer, que publicou com Alfred Schmidt, Peter-Erwin Jansen editou seis volumes de escritos inéditos de Herbert Marcuse entre 1998 e 2006 e, mais recentemente, várias séries de palestras. Dirk Braunstein publicou Philosophie und Soziologie de Adorno e quatro volumes de seu “Seminário de Frankfurt”, enquanto Michael Schwarz editou um volume de vinte palestras e discursos proferidos por Adorno entre 1948 e 1969.
Paralelamente a uma exposição realizada em Paris em 2011 no Museu de Arte e História Judaica, o livro Walter Benjamin’s Archive: Images, Texts, Signs, editado por Ursula Marx, Michael Schwarz, Gudrun Schwarz e Erdmut Wizisla, dá a conhecer um retrato de Benjamin em que o autor é apresentando a partir de diversas coleções de todos os tipos de seus papéis (cadernos, folhas soltas, papel timbrado, papéis reutilizados).Juntamente com Jaeho Kang e Graeme Gilloch, John Abromeit editou recentemente, em 2022, Selected Writings on Media, Propaganda, and Political Communication (2022), de Siegfried Kracauer. Finalmente, Philipp Lenhard está editando os escritos completos de Friedrich Pollock em seis volumes; dois estão atualmente disponíveis (Pollock, 2021) [14].
Antes de encerrar esta introdução, como editora e editor deste volume, gostaríamos de levantar algumas questões autocríticas. Um dos méritos da pesquisa arquivística é trazer à luz elementos esquecidos da história, seja eles individuais, biográficos, intelectuais, políticos ou mesmo diplomáticos. Certamente, cada uma das contribuições do volume desvela aspectos desconhecidos ou pouco conhecidos de determinado autor ou do Instituto – quem se lembra, por exemplo, do papel de Juliette Favez quando o Instituto estava no exílio? De forma mais geral, quem presta atenção ao papel das mulheres (como Gretel Adorno) na criação e no desenvolvimento da Teoria Crítica? É também certo que cada um dos estudos propostos fornece elementos objetivos e indiscutíveis que nos permitem resolver certas interpretações concorrentes e abrir caminho a novas linhas de pensamento. No entanto, toda a investigação reunida neste volume reflete a acessibilidade de certos arquivos em comparação com outros, ou como se encontra atualmente o empreendimento de arquivar os escritos de um ou outro dos autores. Daí a questão: ao aumentarmos o fosso entre os teóricos que estão cada vez mais visíveis e aqueles que permanecem mais à sombra, não estaremos contribuindo, contra nossas próprias intenções, para tornar os autores ilustres (Marx, Adorno, Benjamin) ainda mais conhecidos, em detrimento de outros membros do Instituto cujos documentos foram menos conservados e reunidos em um acervo (Neumann, por exemplo) ou que não estão presentes neste volume (Erich Fromm, para citar apenas um)? Esperamos muito que não seja esse o resultado do esforço deste volume.
Isso também deve nos lembrar de que as interpretações e as pesquisas são marcadas pelo seu lugar e contexto de produção. Neste volume, contamos com colaboradores (incluindo entrevistados) de cinco países diferentes: dez do chamado Sul Global (Brasil, neste caso), catorze do Norte Global (França, Alemanha, Suíça e Estados Unidos). Tal combinação não pode mudar ou compensar as trocas desiguais dentro da academia – para não falar do desequilíbrio de gênero a que devemos responder ao editar este livro –, muito menos as trocas desiguais dentro do capitalismo de forma mais ampla. No entanto, pode pelo menos chamar a atenção para essas desigualdades, como pode fazer para as diferentes interpretações que diferentes contextos podem produzir.
Na introdução a sua entrevista com Ursula Marx, Fernando Bee relembra as observações de Jeanne Marie Gagnebin sobre a ligação entre a recepção brasileira dos escritos de Benjamin e a situação política do país, que esteve sob uma ditadura militar durante a maior parte da década de 1960 e ao longo de toda a década de 1970, quando a Teoria Crítica começa a ser efetivamente recebida no Brasil. Isso indica quão diferentes foram e são as recepções da Teoria Crítica em diferentes partes do mundo. O Brasil é um país onde a Teoria Crítica continua sendo uma referência intelectual muito importante e influente, o que deveria ser em si um tema para reflexão, ou seja, o motivo pelo qual o marxismo brasileiro encontrou na Teoria Crítica um caminho para sua continuidade e expressão.
Essa é uma questão demasiado ampla para ser abordada aqui – e no mínimo nos desviaria do objetivo principal desta introdução. Mas talvez se possa dizer aqui que, no caso específico do marxismo brasileiro, os desenvolvimentos teóricos locais foram feitos tanto em diálogo quanto em oposição às interpretações mais sofisticadas disponíveis em outros lugares e na consideração cuidadosa da realidade social brasileira. Isso permitiu que a situação específica do Brasil deixasse de ser vista simplesmente da perspectiva de suas deficiências em relação aos modelos – idealizados, evidentemente – de países centrais, da perspectiva do que faltaria ao país, mas em vista do que o caracteriza propriamente.
A principal diretriz de um marxismo brasileiro amadurecido e refletido foi a de não compreender o país em termos do que lhe faltava para finalmente atingir o patamar de modernização dos países centrais, e sim se concentrar na compreensão do seu funcionamento concreto e efetivo. A Teoria Crítica no Brasil se mostrou um caminho frutífero para a continuidade dessa atitude, algo que outras vertentes do marxismo não ofereceram. Ou pelo menos essa seria a nossa hipótese preliminar para explicar por que a Teoria Crítica se tornou tão influente nos debates brasileiros.
Tendo em conta todas essas considerações, é evidente que a visão geral apresentada neste volume não pode ser abrangente; o projeto de reflexão sobre os arquivos da Teoria Crítica à luz do estado atual da pesquisa só pode ser um work in progress. Esperamos que a leitura ajude a descobrir mais materiais ainda inéditos de representantes da Teoria Crítica. Que sirva de estímulo para organizar novos acervos e arquivos por todo o mundo e não apenas nos países centrais. E, da mesma forma, esperamos que possa acrescentar novas camadas de interpretação às possibilidades de recepção da Teoria Crítica em diferentes partes do mundo.
NOTAS
[1] Qual seria a forma correta, “Instituto para a Pesquisa Social” ou “Instituto de Pesquisa Social”? As duas versões são corretas. A página web em inglês do Institut für Sozialforschung (IfS) dá a versão “Institute for Social Research” (cf. <https://www.ifs.uni-frankfurt.de/home.html>, acesso em 27 fev. 2024), o que favoreceria a primeira tradução. Mas, durante o período em que esteve sediado em Nova York, entre 1934 e 1950, o nome oficial foi “Institute of Social Research”, o que autoriza o segundo uso.
[2] O Königliches Institut für Seeverkehr und Weltwirtschaft an der Universität Kiel [Real Instituto de Trânsito Marítimo e Economia Mundial da Universidade de Kiel], conforme batizado originalmente, foi fundado em 1914 por Bernhard Harms, e o Forschungsinstitut für Sozialwissenschaften [Instituto de Pesquisa em Ciências Sociais] foi fundado em 1919 em Colônia, sendo chamado, a partir de 2013, Institut für Soziologie und Sozialpsychologie [Instituto de Sociologia e Psicologia Social]. Assim como o Instituto para a Pesquisa Social, também esses dois institutos continuam em atividade.
[3] Há um debate que segue aberto sobre escrever a expressão “Teoria Crítica” em maiúsculas ou minúsculas. Deixamos a decisão a esse respeito ao juízo de cada autora e autor dos capítulos deste volume.
[4] No texto “Filosofia e Teoria Crítica”, publicado juntamente com “Teoria tradicional e Teoria Crítica”, Horkheimer escreveu: “Entre aqueles que hoje recorrem à Teoria Crítica, há quem a rebaixe, em plena consciência, a uma mera racionalização de seus respectivos empreendimentos; outros se apoiam em conceitos tornados superficiais, estranhos ao próprio sentido literal deles, fazendo dela uma ideologia compensatória, que cada qual entende porque nela nada pensa” (Horkheimer, 1996, p. 224). Se essa identificação entre marxismo e Teoria Crítica parece justificar a inclusão dos arquivos Marx-Engels neste volume, como fundadores da Teoria Crítica em sentido amplo, ela levanta, ao mesmo tempo, a questão de pensadoras e pensadores marxistas que não foram incluídos. A organizadora e o organizador deste volume consideram que isso seria impraticável, já que estabelecer as afinidades entre a Teoria Crítica (no sentido restrito da vinculação ao Instituto para a Pesquisa Social) e obras específicas do marxismo exigiria uma justificativa em separado. Se tomarmos um caso que parece o mais evidente, aquele de Georg Lukács, seria possível mostrar que seu livro de 1923, História e consciência de classe, teve enorme impacto nos debates do Instituto, mas o mesmo não pode ser dito de sua obra posterior.
[5] Além de seus escritos, os vínculos desses autores com a psicanálise são visíveis em seu apoio ao Frankfurter Psychoanalytische Institut [Instituto Psicanalítico de Frankfurt], fundado em 1929 (e fechado quatro anos depois pelos nazistas). Um de seus fundadores foi Erich Fromm, também membro do Instituto para a Pesquisa Social. Em 1960, Horkheimer encorajou Alexander Mitscherlich a criar o Sigmund-Freud-Institut.
[6] Segundo Wiggershaus, “O termo ‘Escola de Frankfurt’ foi um rótulo primeiramente utilizado por pessoas não vinculadas ao Instituto, nos anos 1960, mas, no final das contas, o próprio Adorno o utilizou com patente orgulho” (Wiggershaus, 2007, p. 1). Wiggershaus afirma (p. 2) que alguns dos atributos de uma escola estavam presentes: “uma moldura institucional” (o Instituto), uma “personalidade intelectual carismática”, com seu diretor Max Horkheimer, um “manifesto” (a conferência inaugural de Horkheimer de 1931 sobre “A situação atual da filosofia social e as tarefas de um Instituto de Pesquisa Social”), um “novo paradigma” (um paradigma materialista, a saber, o da Teoria Crítica da Sociedade) e uma revista, a Zeitschrift für Sozialforschung. Mas “a maioria dessas características se aplicava apenas à primeira década do Instituto sob a direção de Horkheimer, a dos anos 1930, e ao período em Nova York, em particular”.
[7] O presente livro foi publicado originalmente em inglês como The Archives of Critical Theory (Cham: Springer, 2023). Esta edição é uma tradução fiel de todos os textos, exceto por algumas poucas modificações introduzidas pelas autoras e autores do Brasil em seus próprios capítulos.
[8] Deve-se lembrar aqui o trabalho de organização da correspondência de Habermas realizado por Luca Corchia (2017). Sobre a (re)conexão da obra de Habermas com o projeto inicial da Teoria Crítica dos anos 1930, ver Aubert (2015).
[9] Grossmann exemplifica o caso dos teóricos que não puderam ser incluídos neste volume por não terem um arquivo bem estabelecido de seu espólio intelectual.
[10] Alguns dos membros do Instituto eram próximos de partidos ou filiados a eles.
[11] Esse texto de Schmid Noerr apresenta uma preciosa reconstrução do ocorrido com as instalações e com os documentos do Instituto desde o período nazista até o retorno de Horkheimer a Frankfurt, depois do final da Segunda Guerra Mundial.
[12] Pseudônimo de Johann Paul Friedrich Richter (1763-1825), escritor romântico alemão. [N.E.]
[13] O’Connor, 2004. Apesar disso, é justo dizer que alguns livros anteriores a esse apontaram para uma interpretação alternativa da obra de Adorno, que não pressupunha uma continuidade e um mero desenvolvimento de seu pensamento da Dialética do esclarecimento em diante. Exemplos dessas interpretações alternativas são: Eichel (1993); Borio e Danuser (1997); Nobre (1998); Rebentisch (2003)
[14] Philipp Lenhard prepara um livro sobre a história do Instituto para a Pesquisa Social de 1923 a 1973, que deve ser publicado em 2024. Mencione-se aqui a publicação dos ensaios de Franz L. Neumann e Otto Kirchheimer, sob a responsabilidade de William Scheuerman (Neumann e Kirchheimer, 1996), e dos escritos completos de Otto Kirchheimer, sob a responsabilidade de Hubertus Buchstein (Kirchheimer, 2019).
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