Uma nova chance para a Grécia?

Integrante da Syriza, coalizão esquerda-autônomos cada vez mais popular, narra vida num país submetido à “Troika” e vislumbra possível virada

Entrevista a Alex Nunns, do Red Pepper | Tradução: Antonio Martins

As eleições gregas de 6/5 registraram o resultado mais espetacular para um partido da esquerda europeia nos últimos tempos. Syriza, a Coalizão da Esquerda Radical, foi o segundo grupo mais votado, com 16,8% – apenas dois pontos atrás da Nova Democracia, de direita. O líder do Syriza, Alexis Tsipras, propôs formar uma coalizão que rejeite as medidas de “austeridade” impostas à Grécia, para “tirar o país do caminho rumo à miséria anunciada”. Entre segunda e sexta-feira (11/5), fracassaram as tentativas feitas pelos três partidos mais votados para formar governos com maioria parlamentar. O próximo passo, segundo a Constituição, será convocar novas eleições. As primeiras sondagens indicam que o Syriza lidera as intenções de voto, agora com cerca de 25% das preferências.

Ainda que a hipótese não se concretize, o resultado reformata completamente a política grega e da zona do euro. A esquerda foi bem no primeiro turno. Além da própria Syriza, o partido comunista ortodoxo (KKE) obteve 8,5% dos votos e a Esquerda Democrática, mais moderada, 6,1%. Já o Pasok, antes principal partido de esquerda porém co-responsável pela adoção das políticas que devastaram o país, despencou de 43,9% nas últimas eleições para apenas 13,2%. O aspecto negativo foi o crescimento dos neo-nazistas do Golden Dawn, que alcançaram 7%.

Red Pepper falou, em fevereiro, com uma figura emblemática da Syriza. É Nasos Illopoulos, secretário de juventude do Synaspismos, o maior partido entre os que compõem a coalizão. Tem menos de trinta anos, veste-se de forma casual, é eloquente e amistoso. Sentiu na pele os efeitos da repressão. Há uma ano, foi brutalmente espancado pela polícia e hospitalizado, por concussão cerebral e ferimentos múltiplos.

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Desde então, embora as perspectivas eleitorais fossem outras, ele já analisava, além do cenário vivido pela juventude, as possibilidades de unir os partidos de esquerda para formar um governo, e os perigos com os quais a democracia se defronta. A entrevista é a que segue.

Qual o impacto da crise entre a jovem geração?

Há dois aspectos principais: trabalho e educação. Difundiu-se um sentimento geral de que perdemos o futuro. Boa parte das pessoas têm enorme dificuldade de encontrar um emprego, ainda que sua formação seja ótima. Na faixa dos 18 aos 25 anos, o índice de desemprego está em 50% e subindo. Quem encontra emprego, sujeita-se a enorme precariedade e baixos salários. Conheço graduados muito bem qualificados que trabalham dez horas ao dia ou mais, para ganhar 300 euros por semana. É muito difícil, nestas condições, até mesmo sair da casa dos pais.

Em agosto do ano passado, aprovou-se uma lei de (contra-)reforma do ensino superior. A ideia é preparar os estudantes para a “nova realidade” do trabalho. Mesmo escolas antes vistas como de elite na Grécia – como as de engenharia civil, arquitetura e direito – deverão formar para empregos precários. Fala-se que, agora, “estas serão as condições para toda a vida”.

Menos alunos chegarão às universidades. A nova lei permite restringir o número de ingressantes e separar o período básico dos demais, para cobrar mensalidades dos que estiverem interessados nestes últimos. E devido à crise, muitos estudantes estão deixando as escolas, para ajudar a sustentar a família ou por verem a universidade com algo que se tornou inatingível.

Mas há resistência à lei e ela não foi implantada até o fim. O Parlamento aprovou-a em agosto, durante o período de férias. Ainda assim, houve forte mobilização estudantil, com ocupações. Desde então, lutas no interior das universidades – inclusive com participação de seus trabalhadores – tem impedido a ratificação pelos órgãos acadêmicos.

Que relações os partidos de esquerda e outros movimentos mantêm com a juventude – inclusive os indignados que ocuparam a Praça Syntagma, em Atenas, até serem violentamente reprimidos, no ano passado?

Indignados é um tema que vem do espanhol, mas tem conotação negativa em grego. Está associado com a direita, após a guerra civil. Preferimos falar em um movimento das praças.

Na crise, despontou um grande número de novas lutas que teriam sido impossíveis antes. Envolvem novos atores, como no caso do movimento das praças. É preciso aprender com eles, e também ensiná-los e transformá-los. Neste processo, você também é transformado, por meio das lutas que se compartilha. Houve excelentes conexões entre o povo da praças e algumas forças políticas, o que permitiu uma oposição muito poderosa ao governo. Algumas pessoas nas praças também estavam próximas a algum partido, mas a maioria não, nem tinha participado de alguma atividade política antes. As relações foram difíceis, às vezes, mas ao final mostraram-se úteis para todas as partes.

Um exemplo foi a votação legislativa de 28 e 29 de junho de 2011, que introduziu a segunda fase das políticas de austeridade. Houve imensas manifestações diante do Parlamento, convocadas por diferentes partidos, sindicatos e movimentos. A repressão foi tremenda: dez membros da juventude do Synaspismos ficaram feridas. O local em que estávamos, na Praça Syntagma, foi um dos que sofreu as cargas mais brutais da polícia. Foram feitos 2 mil disparos de gás lacrimogênio em dois dias. A desculpa apresentada era o turismo – dizia-se que os protestos e a ocupação da praça deixariam intranquilos os hóspedes dos hotéis vizinhos. Mas a violência acabou provocando um efeito colateral positivo: milhares de pessoas aprenderam o sentido daquele terror.

Depois da votação do novo pacote de “austeridade”, foi muito difícil manter o movimento unido. Os participantes sentiam-se como se uma enorme mobilização não tivesse servido para nada. Desde que Syntagma foi esvaziada, então, não se pode falar mais num movimento das praças. Ele desdobrou-se em diferentes formas, transformando-se talvez em algo mais original. Temos agora 50 assembleias populares em Atenas. São espaços em que se luta por reivindicações locais locais.

Nas assembleias populares, cada um representa a si mesmo. Não há uma dinâmica partidária, embora membros dos partidos estejam presentes. O princípio que impera é o do consenso. Esta tradição surgiu na ocupação de Syntagma. Há conflitos, mas passamos a trabalhar juntos e de uma maneria que não teríamos compreendido há dois anos.

Não nos organizamos apenas em oposição ao governo, mas em torno de temas locais e da vida quotidiana. É outra forma de combater as políticas em favor das finanças. Por exemplo, há um novo imposto sobre a propriedade de residências. Ele é cobrado junto com as contas de energia elétrica, como chantagem para indicar que o não-pagamento do tributo implica ficar sem luz. Todas as assembleias populares assumiram a luta contra isso. Muitas pessoas recusam-se a pagar. Há muitas pequenas vitórias nestes processo. O governo não consegue cortar a eletricidade, porque as pessoas se solidarizam para impedir. O sindicato da companhia elétrica também resistiu, ocupando o prédio onde as contas são processadas.

As manifestações continuam?

O movimento das praçaso era tão amplo que você poderia encontrar gente de quase todas as origens – inclusive quem nunca tinha participado de uma luta social antes. Isso tende a se ampliar, à medida em que a crise se aprofunda. As manifestações vão crescer.

A de 12 de fevereiro foi a maior até agora. Em Atenas, talvez 500 mil pessoas tenham participado. Numa enorme área da cidade, todas as ruas estavam tomadas. Durante três ou quatro horas, elas permaneceram firmes, resistindo às bombas de gás. Havia perigo. Tive muito medo quando saí da manifestação, porque a polícia postava-se nas esquinas, para atacar indivíduos isolados, sem nenhuma razão. Caminhei muitos quarteirões com as mãos sobre a cabeça, esperando que não me atacassem.

A cada um ou dois meses, há um evento que é mais de uma manifestação mas menos que uma revolta. E são sempre maiores.

O que pode derrotar as políticas de ataque aos direitos: eleições ou manifestações?

Não é preciso fazer uma escolha, nem opor uma forma de luta a outra. Em todas elas, é preciso haver uma maioria de pessoas que não apenas apoia, mas está lutando ativamente. São estratégias complementares.

O governo dirá aos eleitores que as portas do inferno vão se abrir, se votarem nos partidos que se opõem às políticas atuais. O próprio discurso do poder mudou. Primeiro, diziam que a “austeridade” era o caminho para a recuperação. Agora, apenas afirmam que haverá alguma esperança, se a “austeridade” funcionar. Mas, como também não acreditam nisso, seu discurso tem cada vez menos poder de convicção.

A esquerda grega está dividida demais para formar um governo?

A coalizão Syriza, a Esquerda Democrática e o Partido Comunista (KKE) têm, cada um, cerca de 10% de intenções de votos nas pesquisas [nas urnas, Syriza teve 16,78%; o KKE, 8,48% e a Esquerda Democrática, 6,11%]. No momento, a Esquerda Democrática parece atraída pelos partidos no poder, e os comunistas estão sempre à parte – inclusive, organizam manifestações paralelas em cada jornada de protestos. Não acredito numa aliança antes das eleições.

Mas se depois delas tivermos uma parcela total de votos na esquerda que poderia formar um governo, haverá grande pressão pela unidade. E pode haver duas eleições, uma logo em seguida à outra, se nenhum partido for capas de formar um governo. Neste caso, um acordo entre a esquerda é potencialmente visível.

A Grécia deveria deixar o euro?

Rejeito o dilema de uma Grécia forçada a escolher entre o euro e uma moeda nacional. O dilema real tem a ver com a crise: ou você apoia as forças sociais, os movimentos e a juventude, ou defende os interesses dos bancos e corporações. A grande questão é: quem pagará pela crise?

Em primeiro lugar, o Estado transferiu bilhões para os bancos: eles devem ser nacionalizados. Além disso, os credores – excetos os fundos de aposentadoria dos trabalhadores – não têm direito a receber seus créditos. E é preciso reverter as contra-reformas do mercado de trabalho. As medidas de desregulamentação mostram que o capital não quer apenas de “enfrentar a crise”, mas aproveitar uma oportunidade. Uma estratégia alternativa não deve servir apenas aos gregos, mas também aos trabalhadores e à juventude da Espanha, por exemplo – e inclusive aos alemães, que estão sendo igualmente forçados a abandonar direitos.

Você vê a possibilidade de lutas internacionais?

Nossos primeiros adversários são o governo e o capitalismo gregos, e não Angela Merkel. Mas isso não significa que aceitamos a estrutura atual da União Europeia. Haverá certamente muitas lutas contra ela, mas precisaremos dar sentido a elas: não podem ser lutas de uma sociedade contra outra, mas dos trabalhadores contra o capital.

Que desenvolvimentos futuros você prevê?

No cenário atual, tudo pode acontecer. Pode haver um golpe de Estado pós-moderno, uma sociedade Mad Max ou um novo tipo de sociedade. O que está claro é que as politicas de “austeridade” exigem suprimir os laços sociais. Talvez não com tanques na rua, mas provavelmente com censura, restrição dos direitos de manifestação e de greve. Já se ouve o discurso do “perigo de esquerda” e de como a Constituição deve ser mudada, para contê-lo.

Estão tentando salvar os bancos. Não apenas os bancos europeus, que são nossos credores, mas também os bancos gregos, que ganharam muito emprestando nos balcãs – ou seja, que se converteram num braço importante do sistema bancário europeu. Muitas pessoas não sabem, mas o capitalismo grego, apesar da crise, é forte; está defendendo seus próprios interesses; quer derrotar os trabalhadores. Viveremos situações bastante perigosas.

O discurso dos partidos no poder é falso, num certo sentido. Eles afirmam que não querem as medidas de cortes de direitos e serviços, mas são obrigados a adotá-las. Na verdade, são parte delas. Mesmo agora, há empresas gregas que estão se dando muito bem, por poder cortar salários e empregos. Alguns lucros estão crescendo. Nem todos perdem com a crise. Não é que a Grécia esteja se tornando um país de terceiro mundo. O que ocorre é que, na Grécia, vastas camadas sociais estão sendo forçadas a viver em condições de terceiro mundo.

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Alex Nunns

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