Perda dos sentidos: um conto sobre maioridade penal

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“O estampido se ouviu ao longe, mas não ali nos barracos, onde criancinhas engatinhavam e aprendiam o gosto da terra”

Por Rute Bevilaqua | Imagem: Rubem Grilo

Ele tinha nascido ali na beira daquele rio. A mãe tinha lavado roupa até quase na hora do parto. Ele foi o sétimo filho, a mãe dizia que foi como expelir um caroço de pitomba. A vizinha do barraco ao lado a ajudou, já tinha prática, achou que nem valia mais a pena entrar numa fila do SUS para ser atendida, isso sem contar que estava difícil arranjar uma condução para chegar até lá. O pai só apareceu para conhecê-lo três semanas depois, estava trabalhando longe.

Diziam que viera ao mundo quase pronto para enfrentar as barras que viriam. Era um moleque saudável que pegou com garra o peito da mãe. Esgotada que andava, quase o matou de fome antes de pintar o primeiro colostro. Logo o leite acabou e ele acabou sendo criado com o “Leve Leite”, que tinha que ser muito diluído em água poluída. Milagre foi ter vencido as anemias e as diarreias. A primeira vez que o ar penetrou seus pulmões, o vento soprava do rio Pinheiros para a favela, foi trazendo o cheiro com o qual conviveria o resto da vida. Cheiro de merda nunca o incomodou.

Sua vida foi em cinza e seus olhos se acostumaram a ver o mundo em preto e branco. Cores aconteceriam raramente em sua existência. Ele olhava, mas não via. Logo aprendeu a não ouvir. Para quê ouvir a surra e os gritos da mãe quando o pai voltava bêbado do trabalho no fim de semana? Durante a semana, era bem mais calmo. A mãe saía pra conseguir algum alimento e voltava de noitinha. Neste tempo ele ficava por lá, cuidado pelos irmãozinhos maiores. Quase sempre preso no barraco. Um dos primeiros sabores que aprendeu foi da terra do chão batido, ainda engatinhava quando suas mãozinhas tateavam pelo chão a procura de grãos de arroz e feijão que se espalhavam por toda parte quando os irmãos mais velhos se serviam. Muitas vezes a esses gostos se misturavam os de urina e de diarreia. Enfim, sobreviver ali não era pra qualquer um, faltava de água a oxigênio. Falar em amor ali seria luxo.

A criança mais privada de tudo ainda aprende algumas coisas: foi assim que aprendeu que chorar não adiantava nada, que não tinha a quem pedir ajuda. Foi assim que reagiu quando estuprado aos 5 anos por um vizinho adolescente retardado na presença de duas irmãs de 7 e 9 anos. Foi assim que aprendeu o que era impunidade e adquiriu conhecimentos que o serviriam pelo caminho pelo qual enveredou. Foi assim que aos 17 anos conseguia ser invejado nos arredores, todos o temiam. Foi assim que conseguiu ver lampejos de cores e brilhos no 38 que portava, nas verdinhas que trocava por drogas, nos capôs dos carros que roubava. Foi assim que conseguiu ampliar seu paladar com os hambúrgueres do McDonald’s, sentir cheiros em perfumes que contrabandeava, aprimorar o tato e sentir quase um orgasmo ao apertar gatilhos, quase o mesmo orgasmo que sentia ao estuprar.

TEXTO-MEIO

Foi por tudo isso que se transformou num imenso buraco negro, que sugava tudo, não retornava nada, e que sempre passou muito longe de uma matéria desconhecida chamada amor. Foi então que explodiu de violência e desapareceu numa tarde em que houve uma batida policial na favela. Ia completar dezoito anos na semana seguinte. O estampido se ouviu ao longe, mas não ali nos barracos, onde criancinhas engatinhavam e aprendiam o gosto da terra.

TEXTO-FIM
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Rute Bevilaqua

Rute Bevilaqua, aposentada, bacharel em física, trabalhou como professora e pesquisadora; agora se aventura com outras palavras.

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