Cinema de gênero

Em seu novo filme, Pedro Almodóvar realiza um suspense sombrio, um “cinema de gênero” em todos os sentidos do termo.

 

Por Bruno Carmelo, editor do blog Discurso-Imagem.

TEXTO-MEIO

Desde o festival de Cannes até a estreia nas salas francesas, este novo filme dirigido pelo espanhol Pedro Almodóvar tem suscitado as reações mais distintas – curiosamente, quase opostas. Uma grande parte da crítica disse que o diretor apenas reproduziu uma enésima vez os mesmos temas conhecidos (um jornalista inclusive falou em “obsessão transexual”). Outra metade reclamou, ao contrário, que ele tenha mudado demais de abordagem, algo “desnecessário” já que os últimos melodramas tinham sido bem apreciados.

Ou seja, ninguém se sentiu exatamente confortável com esta obra estranha, este suspense sombrio sem o kitsch tradicional do diretor, sem tanto senso de humor, sem lágrimas. A maneira de contar histórias, entretanto, lembra os roteiros dispersos do diretor e roteirista: diversos personagens coadjuvantes, mais de uma dezena de micro-histórias que nem sempre se encontram. Desta vez, no entanto, embora as idas e vindas no tempo confundam a cabeça do espectador, percebe-se aos pouco que a estratégia é completamente voluntária, e que logo uma grande surpresa será anunciada. Contra todas as expectativas, as subtramas colaboram para uma mesma grande narrativa.

Pode-se dizer que isto era algo mais do que improvável num filme em que se misturam personagens brasileiros de pênis superdimensionados vestidos em fantasia de tigre, mães governantas manipuladoras, irmãos que ignoram seus laços de parentesco, cenas de rapto, cirurgias corporais, pessoas queimadas, suicídios, bailes que se transformam em orgias adolescentes… Este curioso mosaico é tratado com uma seriedade sepulcral, algo que gerava uma quantidade significativa de risos na sala. Se eram voluntários ou não, A Pele Que Habito torna-se um suspense divertido, uma leve incursão no cinema de gênero, com seus maniqueísmos, improbabilidades e aberrações – algo que curiosamente ainda não havia seduzido Almodóvar até então.

A tal “pele que habito” tem diversos sentidos na narrativa, sendo tanto a pele literal quanto a noção metafórica de identidade pessoal. No lado explícito do tema, o filme multiplica suas peles artificiais, seus monstros construídos com peles superresistentes, os personagens com roupas justas, as marcas de nascença, as máscaras. Este filme mostra-se como um longo trabalho de roteiro, aparentemente trabalhado à exaustão, para que todo elemento e todo objeto em cena carreguem um significado preciso. O caráter obsessivo está presente também nesta “paixão” por imagens, com o voyeurismo e o fetichismo de observar e ser observado, algo intensamente trabalhado com o uso de televisões e câmeras instaladas dentro da casa do protagonista.

Os personagens, aliás, são marcados por uma ideia maníaca de controle, de apropriação da imagem (da máscara) para substituir o real. Curiosamente, após declarações de amor à família e ao cinema em Volver e Abraços Partidos, respectivamente, é neste suspense adaptado de um romance que Almodóvar consegue aprofundar melhor as relações em família e a necessidade de controlar o ser humano por imagens. Esta “releitura do mito de Frankenstein”, como disseram muitos, adapta seus excessos ao uso do gênero, e suas diversas histórias múltiplas à necessidade de preparar uma surpresa no fim. Filme coerente, coeso, construído para sua história e não apenas para a imagem do autor, A Pele Que Habito é provavelmente a melhor surpresa que poderia trazer o diretor de todos os excessos.

La Piel Que Habito (2011)
Filme espanhol dirigido por Pedro Almodóvar.
Com Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet, Roberto Álamo, Blanca Suarez, José Luis Gómez.

TEXTO-FIM

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Bruno Carmelo

Mestre em teoria do cinema pela Universidade Sorbonne Nouvelle - Paris III, e autor de duas dissertações sobre a crítica de cinema. Trabalha como editor e crítico de cinema no site AdoroCinema.