Os mercenários do capitalismo radical

Por Jeremy Scahill, The Nation | Imagem Latufe

Ao longo dos últimos anos, entidades muito intimamente ligadas à empresa de segurança Blackwater têm prestado serviços de inteligência, treinamento e segurança aos EUA e outros governos, e também a várias corporações multinacionais, dentre as quais a Monsanto, a Chevron, a Walt Disney Company, as Royal Caribbean Cruise Lines e a bancos gigantes como o Deutsche Bank e o Barclays, segundo documentos obtidos por The Nation.

O trabalho da empresa Blackwater para empresas e agências governamentais foi contratado através de duas empresas que pertencem ao fundador e proprietário da Blackwater, Erik Prince: as empresas Total Intelligence Solutions e o Centro de Pesquisas sobre Terrorismo [ing. Terrorism Research Center (TRC)]. Prince aparece como presidente de ambas em documentos internos das empresas, o que mostra que as empresas funcioanam em rede, com conexões altamente coordenadas. Funcionários da Total Intelligence, do TRC e da Blackwater (que trocou de nome recentemente para Xe Services), procurados várias vezes para comentar esse artigo, não responderam.

Um dos detalhes mais incendiários daqueles documentos é que a Blackwater, através da empresa Total Intelligence, trabalhou para converter-se em “braço de inteligência” da empresa Monsanto, tendo-se oferecido para fornecer agentes a serem infiltrados nos grupos de ativismo contra a multinacional de biotecnologia.

TEXTO-MEIO

Dentre os consumidores governamentais de serviços de inteligência e de treinamento antiterrorismo fornecidos pelas empresas de Prince, citam-se o Reino da Jordânia, o exército do Canadá, a polícia holandesa e várias bases militares dos EUA, como o Fort Bragg, sede do Comando Unificado das Operações Especiais [ing. Joint Special Operations Command (JSOC), e o Fort Huachuca, onde são treinados os interrogadores militares, segundo os mesmos documentos. Além disso, a Blackwater trabalhou através de suas subempresas para a Agência de Inteligência da Defesa, a Agência de Redução de Riscos da Defesa e o Comando Militar dos EUA na Europa.

Dia 3/9, o New York Times noticiou que a Blackwater “criou uma rede de mais de 30 empresas coligadas ou subsidiárias em parte para obter milhões de dólares em contratos com o governo dos EUA, depois de a empresa-mãe ter-se tornado alvo de fortes críticas por má conduta no Iraque.”

Documentos aos quais The Nation teve acesso revelam detalhes ainda inéditos de várias dessas empresas e abrem uma rara brecha pela qual se pode afinal começar a conhecer as muito sensíveis operações de segurança e inteligência que a Blackwater realiza para várias poderosas comporações e agências governamentais. Os novos fatos também lançam luz sobre o papel chave que desempenham no processo vários ex altos funcionários da CIA, que se desligaram da agência e passaram a trabalhar para a Blackwater.

O coordenador dos negócios secretos entre a Blackwater e a CIA, ex oficial paramilitar da Agência Enrique “Ric” Prado, construiu uma rede global de agentes estrangeiros, que lhe garante “negabilidade total” [ing. total deniability], oferecida como vantagem extra aos potenciais clientes da Blackwater – segundo documentos da própria empresa.

A CIA sempre usou forças locais em ações extralegais ou para encobrir o envolvimento do governo dos EUA em operações que tivessem de ser mantidas à margem de qualquer escrutínio da lei. Em alguns casos, essas forças locais “com alta negabilidade” sequer souberam para quem trabalhavam. Prado e Prince construíram uma dessas redes de estrangeiros durante o tempo que a Blackwater esteve no centro do programa de “assassinatos seletivos” da CIA, iniciado em 2004. Treinaram unidades especializadas em caçar suspeitos de terrorismo numa das propriedades de Prince na Virginia, para operar em plano global, quase sempre em operações conjuntas com agentes locais. Ex alto funcionário da CIA declarou que uma das vantagens de usar agentes estrangeiros contratados pela Blackwater naquele tipo de operação seria que “ninguém gostaria de encontrar por lá impressões digitais de norte-americanos”.

Apesar de a rede ter sido originalmente estabelecida para ser usada em operações da CIA, os documentos aos quais The Nation teve acesso mostram que Prado a considerou comercialmente valiosa também para outras agências do governo.

Em e-mail enviado em outubro de 2007, em cuja linha de Assunto lê-se “Possível Oportunidade no DEA – Leia e Delete”, Prado escreveu a um executivo da empresa Total Intelligence, com informações para uma possível ‘entrada’ no Drug Enforcement Administration [agência de Saúde Pública e Controle de Medicamentos e Fármacos dos EUA]. O destinatário do e-mail era ex-funcionário, com 18 anos de trabalho na DEA e vasta rede de conexões dentro do governo, que acabava de ser admitido como executivo da empresa Total Intelligence. Prado explicava que a Blackwater tinha já constituída “uma rede global, em rápida expansão, de gente competente para qualquer tipo de serviço, de segurança em campo a boicote de operações em andamento”. E acrescentava: “São todos agentes locais [não norte-americanos], exceto alguns poucos (que são cidadãos norte-americanos no comando da operação, mas nunca vistos pelas ruas), de tal modo que já temos capacidade de negabilidade total, o que deve ser apresentado como plus valioso.”

O executivo respondeu a mensagem, sugerindo que “poderia haver interesse” nesses serviços; e sugeriu que “um dos melhores locais para começar pode ser a Divisão de Operações Especiais [ing. Special Operations Division, SOD], localizada em Chantilly, VA”, e deu o nome do agente especial a ser contatado. A divisão SOD é um comando secreto dentro do Departamento de Justiça dirigido pelo DEA. Opera como centro de comando e controle para algumas das operações mais sensíveis da luta antinarcóticos conduzidas pelo governo dos EUA. O executivo também disse a Prado que os attachés das embaixadas dos EUA no México, Bogotá, Colômbia, Bangkok, Tailândia, provavelmente também se interessariam em trabalhar com a rede de Prado. Não está ainda confirmado se essa rede foi efetivamente usada, nem quem a teria usado. Ex-empregado da Blackwater, que trabalhou no programa da empresa para a CIA recusou-se a comentar o trabalho de Prado na Blackwater, alegando que seria informação sigilosa.

Em novembro de 2007, empregados das empresas de Prince desenvolveram uma cara estrutura de serviços (e preços) de segurança e inteligência a ser oferecida a empresas privadas e milionários. Um empregado escreveu que Prado tinha capacidade para “desenvolver infraestruturas” e “comandar atividades em campo e de segurança”. Segundo aquela “estrutura de serviços”, os clientes poderiam contratar Prado e outros empregados da Blackwater para operar nos EUA e em qualquer lugar do mundo: na América Latina, no norte da África, em países francófonos, no Oriente Médio, Europa, China, Rússia, Japão e sudeste da Ásia. Uma equipe de quatro membros chefiada por Prado para serviços de contravigilância nos EUA custa $33.600 por semana; “casas seguras” podem ser preparadas por $250 mil dólares, mais custos operacionais. E os mesmos serviços poderiam ser fornecidos em qualquer lugar do mundo. Por $5.000 por dia, os clientes poderiam contratar Prado ou outros dois ex-funcionários da CIA Cofer Black e Robert Richer para serviços de “representação” junto a “decisores” nacionais. Antes de trabalhar para a Blackwater, Black, veterano da CIA, com 28 anos de serviço, dirigiu o centro de contraterrorismo da agência; e Richer foi vice-diretor de operações. (Nem Black nem Richer trabalham atualmente na Blackwater.)

Quando a Blackwater viu-se no foco da mídia, logo depois do massacre da Praça Nisour[2], Prado criou sua própria empresa, Constellation Consulting Group (CCG), ao que se sabe, levando consigo algumas das operações clandestinas da Blackwater com a CIA, embora se saiba também que continuou a manter laços íntimos com o ex-empregador. Em e-mail para um executivo da Total Intelligence, em fevereiro de 2008, Prado escreveu que “tivemos recentemente importantes sucessos no desenvolvimento de capacidades no Mali [África] que são de extremo interesse para nosso principal patrocinador e que em breve permitirão desencadear esforço substancial via a minha lojinha”; e pediu auxílio à equipe da Total Intelligence, para a análise “do problema do terrorismo no Norte do Mali/Nigéria”.

Em outubro de 2009, executivos da Blackwater enfrentaram uma crise, quando não conseguiram localizar uma Unidade de Telefone Seguro que funcionava na empresa, apesar de ser instrumento de uso exclusivo do governo dos EUA, usado pela CIA, pela Agência de Segurança Nacional e por outros serviços militares e de inteligência para comunicações sigilosas. Uma onda de e-mails voou em todas as direções das várias empresas do grupo Blackwater, para tentar localizar o aparelho. Um ex-funcionário da Blackwater respondeu que, dado que já deixara a empresa, “não é, de fato, problema meu”. Outro respondeu que “não tenho cachorro nessa briga”. Afinal, Prado interveio e distribuiu e-mails com ordens de “digam ao pessoal da OGA POC” – sigla, em inglês, para “Ponto de Contato da Outra Agência (=CIA) do Governo” [ing. Other Government Agency Point Of Contact].

Não se sabe que relacionamento há entre a empresa de CCG de Prado e a CIA. Texto inicialmente exibido na página da empresa na internet dizia que “os profissionais da CCG já comandaram operações em cinco continentes e provaram sua capacidade para atender às necessidades dos clientes mais exigentes”; dizia também que a empresa “tem competência para administrar contratos altamente secretos”. A CCG, lia-se naquele website, “está em posição única para fornecer serviços que nenhuma outra empresa oferece, e pode apresentar resultados obtidos nas áreas mais remotas e conseguidos com pouco ou nenhum auxílio externo.” Dentre os serviços anunciados estavam “Inteligência e Contrainteligência (humana e eletrônica), Operações Militares Não convencionais, Operações Antidrogas, Serviços de Aviação, Inteligência Competitiva, Acesso a Áreas Restritas (…) e Treinamento Paramilitar.”

The Nation já noticiou operações da Blackwater para a CIA e o Alto Comando Militar dos EUA no Paquistão. Novos documentos revelam uma longa história de atividades da Blachwater no Paquistão. A ex-primeira-ministra do Paquistão Benazir Bhutto havia contratado serviços da empresa quando voltou ao Paquistão para a campanha eleitoral de 2008, segundo esses novos documentos. Em outubro de 2007, quando surgiram na impresna notícias de que Bhutto contratara “segurança norte-americana”, Robert Richer, alto dirigente da Blackwater, escreveu aos executivos da empresa: “Temos de cuidar disso de vários ângulos. Se nosso nome aparecer, a reação da imprensa no Paquistão será considerável. E ainda teremos de avaliar as consequências no mundo muçulmano”. Richer escreveu que “temos de nos preparar para um comunicado de algum afiliado da Al-Qaida caso nosso nome apareça. Isso terá impacto no perfil de segurança.” Falta alguma palavra no texto do e-mail ou houve algum erro de digitação que não deixa claro, na mensagem, o que Richer queria dizer na referência a um comunicado da Al-Qaeda. Dois meses depois, Bhutto foi assassinada. Os dirigentes da Blackwater agendaram depois uma reunião com representantes da família Bhutto em Washington, em janeiro de 2008.

Durante um breve momento, pareceu que a abundância de evidências de assassinatos de civis, de encobrimento de ações militares e a ausência absoluta de transparência denunciados em documentos vazados pela página WikiLeaks levariam a inquérito sério sobre a conduta dos norte-americanos no Afeganistão.

Através das empresas Total Intelligence e do Centro de Pesquisa sobre Terrorismo, a Blackwater também manteve negócos com grande número de corporações multinacionais. Segundo as comunicações internas da empresa Total Intelligence, a gigante de biotecnologia Monsanto – maior fornecedor mundial de sementes geneticamente modificadas – contratou a empresa em 2008-09. O relacionamento entre as empresas parece ter-se oficializado em janeiro de 2008, quando o presidente da Total Intelligence Cofer Black viajou a Zurique para encontrar-se com Kevin Wilson, gerente de segurança da Monsanto para questões globais.

Depois do encontro em Zurique, Black escreveu e-mails a outros executivos da Blackwater, inclusive a Prince e Prado, mensagens enviadas para os endereços de correio eletrônico da Blackwater. Black escreveu que Wilson “entende que podemos oferecer o que ele procura, legalmente, para proteger a marca Monsanto (…).” Black acrescentou que Total Intelligence “vai-se desenvolver como braço de inteligência da Monsanto”. E observou também que a Monsanto preocupava-se com ativistas da proteção aos animais, e que os dois haviam também discutido sobre como a Blackwater “poderia infiltrar gente para atuar legalmente nos grupos ativistas”. Black escreveu que os pagamentos iniciais à Total Intelligence sairiam do “generoso orçamento de cobertura” da Monsanto, mas adiante poderiam tornar-se rubrica permanente do orçamento anual da companhia. Estimou que o total do que a Total Intelligence receberia ficaria entre $100.000 e $500.000. Segundo os documentos, a Monsanto pagou à Total Intelligence $127.000 em 2008 e $105.000 em 2009.

Procurado por telefone e perguntado sobre o encontro com Black em Zurich, Wilson da Monsanto disse, inicialmente, que “Não vou discutir o assunto com você”. Depois, em e-mail ao jornal The Nation, Wilson confirmou que se encontrou com Black em Zurique, e que a Monsanto contratou a Total Intelligence em 2008 e continuou trabalhando com a empresa até o início de 2010. Negou que tivesse discutido com Black a infiltração de agentes nos grupos de defesa dos animais; disse que “essa discussão jamais aconteceu”. Disse também que a Total Intelligence só forneceu à Monsanto “informes sobre as atividades de grupos ou indivíduos que representavam risco para os empregados ou para operações da Monsanto em todo o mundo; para obter esses informes, a Total Intelligence monitorava a mídia local e outras fontes públicas de dados. As informações cobriam desde incidentes de terrorismo na Ásia ou sequestros na América Central, até o conteúdo escaneado de blogs de ativistas e websites.” Wilson afirmou que Black lhe dissera que a empresa Total Intelligence era “empresa completamente separada da Blackwater.”

A Monsanto não foi a única grande corporação a contratar os serviços da constelação de empresas que formam a Blackwater. A Walt Disney Company contratou a Total Intelligence e a TRC para fazer uma “valiação de ameaças” que pesariam contra uma locação que estava em estudos para uma produção a ser filmada no Marrocos; em função desse contrato, os dois ex-CIA, Black e Richer, acionaram seus ex-contatos marroquinos em busca de informação. O trabalho seria “boa chance de impressionar a Disney”, escreveu um executivo da empressa. Não se sabe se a Disney ficou ou não muito impressionada; em 2009, a empresa pagou à Total Intelligence apenas $24.000.

A Total Intelligence e a TRC também prestaram assessoramento de inteligência sobre a China ao Deutsche Bank. “A ameaça representada pela contrainteligência técnica chinesa é das mais altas do mundo”, escreveu um analista da TRC, e acrescentou: “Muitos quartos de hotéis de quatro e cinco estrelas e restaurantes são monitorados 24 horas/dia com vídeo e áudio” pela inteligência chinesa. Disse também que computadores, PDAs [ing. Personal digital assistant] e dispositivos eletrônicos em geral deixados em quartos de hotéis corriam o risco de ser clonados. Telefones celulares que se servissem de redes chinesas, escreveu o analista, podiam ter microfones ativados remotamente, o que os converteria em aparelhos de escuta permanente. Concluiu que os representantes do Deutsche Bank “não deveriam trazer qualquer equipamento eletrônico para a China”. Sobre agentes femininas chinesas, o analista escreveu que “se você, no seu país de origem, não é do tipo que atrai mulheres por onde passa, desconfie se, na China, as mulheres se mostrarem muito interessadas”. Por esses e outros serviços, o banco pagou à empresa Total Intelligence $70.000, em 2009.

A TRC também vasculhou a vida passada de empresários líbios e sauditas para o Banco Barclays, gigante inglês. Em fevereiro de 2008, um executivo da TRC escreveu por e-mail para Prado e Richer revelando que o banco Barclays encomendara à TRC e à Total Intelligence levantamento sobre o passado dos principais executivos do Grupo Binladin Saudita [ing. Saudi Binladin Group (SBG)] e sobre possíveis “associações/conexões com Osama bin Ladin.” Nesse relatório, Richer escreveu que o presidente do SBG, Bakr Mohammed bin Laden, “tem boa reputação nos serviços de inteligência árabe e também ocidental” por ter cooperado na caçada a Osama bin Laden. Outro executivo do SBG, Sheikh Saleh bin Laden, é descrito por Richer como “empresário muito inteligente”, conhecido por “operar com plena transparência para os serviços sauditas de inteligência” e considerado “o mais veemente de toda a família estendida BL, nas críticas às ações e crenças de UBL.”

Em agosto, a Blackwater e o Departamento de Estado decidiram por acordo de 42 milhões um processo por centenas de violações das leis norte-americanas de controle de exportações. Dentre as violações citadas estava a exportação não autorizada de dados técnicos para o exército canadense. Simultaneamente, os negócios entre a Blackwater e funcionários da Jordânia também geraram processo por crime federal contra cinco ex altos executivos da Blackwater. O governo da Jordânia pagou à Total Intelligence mais de $1,6 milhão, em 2009.

Parte do treinamento que a Blackwater/TRC ofereceu a militares canadenses foi feito no curso “Mirror Image” [imagem-espelho], curso de imersão, no qual os agentes em treinamento vivem num simulacro de célula da Al-Qaeda, com o objetivo de entender o pensamento e a cultura dos guerrilheiros. Literatura distribuída pela companhia descreve o treinamento como “programa de treinamento em classe e em campo, construído para simular as técnicas de recrutamento e trainamento dos terroristas, e suas táticas operacionais”. Documentos aos quais The Nation teve acesso mostram que, em março de 2009, a Blackwater/TRC gastou $6.500 na compra de roupas nas tribos locais no Afeganistão, além de sortido “material de propaganda – pôsteres, mapas do Paquistão etc.” para o curso “Mirror Image”, e mais $9.500 em material semelhante, em janeiro passado, no Paquistão e no Afeganistão.

Segundo documentos internos, só em 2009 o exército do Canadá pagou à Blackwater mais de $1,6 milhão através da TRC. Um oficial do exército canadense elogiou o programa, em carta enviada ao centro, dizendo que “ofereceu aos nossos soldados rara e válida consciência social e treinamento específico para missões no Afeganistão,”; e acrescentou que “foi programa de treinamento muito efetivo e operacionalmente atualizado, benéfico para nossa missão”.

No verão passado, Erik Prince pos a Blackwater à venda e mudou-se para Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. Mas não parece estar abandonando o sombrio mundo da segurança & inteligência. Diz que se mudou para Abu Dhabi por causa da “grande proximidade com oportunidades potenciais em todo o Oriente Médio, e excelente logística”, além “de um clima amigável para negócios, impostos baixos ou inexistentes, livre comércio e nada de advogados incontroláveis e sindicatos”. Os Emirados Árabes, além do mais, não têm tratado de extradição com os EUA.
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NOTAS

[1] No original “capacity of total deniability”. É uma das “expressões nebulosas” de que fala Steven Pinker em Do Que É Feito O Pensamento. A língua como janela para a mente humana (São Paulo: Companhia das Letras, 2008). Pode-se traduzir, tentativamente, como “capacidade de negabilidade total”. A expressão está relacionada ao conceito de “negabilidade plausível”: diz-se de acusação que não possa ser provada e cuja negação possa ser plausivelmente aceita. No jargão corrente das comunidades de espionagem, a expressão tem sido usada nos casos em que a ação é premeditada, para não deixar pistas ou rastros. Exemplos de casos em que a negabilidade (nem sempre plausível) pode vir a beneficiar criminosos são, por exemplo, meios de tortura como descargas elétricas e quase-afogamento, que não deixam marcas no corpo, o que impede que se comprove a tortura; chantagem, ameaças e intimidação de jornalistas e testemunhas também são meios com alta “capacidade de negabilidade”, dentre outros.
O livro de Pinker pode ser lido em http://books.google.com.br/books?Id=gNsWh8QGS8wC&pg=PA446&lpg=PA446&dq=teoria+dos+jogos+negabilidade+plausível&source=bl&ots=SDCfanvqaR&sig=x3q6MXVNvFnM7qXW5XCauUWA2Jg&hl=pt-BR&ei=lIaVTLX8KMOB8gaP4Ni).

[2] 12/7/2007. 18 civis foram mortos a tiros, entre os quais dois jornalistas que estavam a serviço da Agência Reuters. A operação foi filmada pela câmera instalada na mira de uma metralhadora do helicóptero Apache. O filme foi enviado por alguém que se identificou como “Crazyhorse 15” ao site WikiLeaks e inclui áudio de comentários trocados entre o helicóptero e soldados no solo. Pode ser visto, sob o título “Collateral Murder” em http://wikileaks.org/wiki/Collateral_Murder,_5_Apr_2010 .

Ver também “Erik Prince: o homem da Blackwater”, 27/6/2010, em português, no Blog Viomundo, em
http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/vanity-fair-empresario-soldado-espiao.html
(de Vanity Fair, 27/6/2010)  e
“Cowboy Contractors: Armed and Dangerous”, Guardian, 21/9/2010 (em inglês) em
http://www.guardian.co.uk/commentisfree/cifamerica/2010/sep/17/afghanistan-iraq.

TEXTO-FIM
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Antonio Martins

Antonio Martins é Editor do Outras Palavras
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