Terra em Transe #8 – Thiago Lima: Pandemia da Fome – as consequências da COVID-19 na alimentação global

In ENTREVISTAS, EVENTOS, PROGRAMAS

 

Associada às particularidades e contradições do capitalismo, a fome continua um problema de grande magnitude no mundo e deve se agravar no contexto da pandemia da Covid-19. Para falar sobre este tema, os membros do Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais (GECI/PUC-SP) entrevistaram o especialista Thiago Lima, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Gestão Pública e Cooperação Internacional, professor do Departamento de Relações Internacionais e coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Fome e Relações Internacionais (FomeRI) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

A fome continua um dos problemas mais sérios enfrentados pelas sociedades no mundo. Em 2019, relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) apontou que mais de dez por cento da população mundial sofre com a fome, enquanto que cerca de um em cada quatro habitantes do planeta vive sob insegurança alimentar moderada ou grave.

Intimamente conectados à questão da pobreza e da desigualdade socioeconômica, dados desta natureza também se aplicam à realidade brasileira e devem ser agravados pela crise da Covid-19 no mundo. De acordo com projeções da organização Oxfam, até 12 mil pessoas podem morrer de fome por dia pelo mundo até o fim de 2020. Nesta mesma pesquisa, o Brasil é visto como um dos prováveis epicentros mundiais da fome.

Para debater estes e outros assuntos relacionados, os membros do GECI Reginaldo Nasser e Rodrigo Amaral, ambos professores de Relações Internacionais da PUC-SP, entrevistaram Thiago Lima, um dos maiores especialistas brasileiros em alimentação global, na oitava edição do Terra em Transe. Exibido no dia 15/07, o programa foi apresentado por Isabela Agostinelli, pesquisadora do GECI e mestranda do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp, PUC-SP).

Para Thiago Lima, a extensão do problema histórico da fome no mundo está intrinsecamente ligada ao processo de desenvolvimento e expansão do capitalismo e das relações de poder que o permeiam. Diversos fatores contribuem nesse sentido. Nas sociedades capitalistas, destaca Lima, “a aquisição do alimento deve ser feita por meio da renda, do dinheiro. Então, quando as pessoas se empobrecem muito, elas não conseguem adquirir alimentos”. O especialista afirma, nesse sentido, que o capitalismo é “um sistema que tolera a fome como um impulso legítimo para a organização da sociedade”, ainda que se considere possibilidades de mitigação deste problema.

Além disso, a difusão global do capitalismo, desde o período das expansões coloniais europeias, historicamente moldou as relações agroalimentares internacionais – isto é, a organização espacial da produção, da distribuição e do consumo de alimentos – de uma maneira conveniente para os interesses das potências dominantes no sistema internacional.

Falando sobre os efeitos da pandemia sobre a alimentação, Lima considera que, mesmo com a produção crescente de alimentos no mundo nos últimos tempos, certas medidas de combate à Covid-19 – como o bloqueio de estradas e o fechamento do comércio – dificultam a cadeia logística de distribuição de alimentos. Além disso, os trabalhadores rurais têm adoecido, o que dificulta sua atividade produtiva.

Resumindo este quadro, Thiago Lima afirma que o problema Não é falta de comida e não é falta de dinheiro. O problema está na distribuição desses recursos que a humanidade aprendeu a produzir numa quantidade enorme”. Como solução de caráter mais emergencial para essa situação, Lima, tendo em vista o contexto da América Latina, pensa em proposições como a distribuição de dinheiro às pessoas para compra de alimentos. Nesse sentido, Lima lembra que, conforme estimativas da FAO e da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe da ONU (CEPAL), a concessão deste tipo de auxílio às camadas mais pobres da população teria custos relativamente baixos em termos de Produto Interno Bruto (PIB) na região. Já em perspectiva de mais longo prazo, Lima também considera que o problema da fome pode ser combatido com programas de reforma agrária focados em modelos agroecológicos.

Na entrevista, foi discutido também o porquê de o tema da fome ser relativamente pouco estudado na disciplina de Relações Internacionais (RI). Para Thiago Lima, isto é reflexo do fato de os estudos de RI ainda estarem sob influência das produções do norte global. O especialista propõe, nesse sentido, uma reflexão sobre os cursos da área: “O sentido do curso de RI deve ser pensar os problemas do Brasil e como solucioná-los”, disse Lima. A fome, como ressalta o pesquisador, é exatamente um destes problemas históricos do país.

Lima também falou sobre a realidade brasileira, marcada pela deterioração do problema da fome em anos recentes no país. Para o especialista, este fenômeno tem origem em dois fatores principais: o fraco desempenho da economia brasileira desde 2015; e retrocessos em programas sociais como o Bolsa família, tendência que vulnerabiliza parte da população, principalmente as mulheres fator que, levando-se em conta a influência da saúde das mães sobre a de filhas e filhos por meio da gestação, possui potenciais impactos futuros negativos para a sociedade. Nesse sentido, Thiago Lima considera que a saída para este problema passa pela política. “Crescer PIB é importante, mas isso não é suficiente”, disse o pesquisador, que complementou: “Não dá para garantir as pessoas contra a fome sem constitucionalizar, de forma mais dura e mais amarrada, que as pessoas não podem passar fome”.

No último bloco do programa, Rodrigo Amaral trouxe indicações de estudos e iniciativas da sociedade civil relacionadas ao tema da alimentação global. O entrevistado Thiago Lima, por exemplo, é autor do livro “O protecionismo agrícola nos Estados Unidos”. A produção acadêmica de Thiago Lima e de outros autores relacionada ao assunto do Terra em Transe #8 também pode ser encontrada na coletânea de artigos organizada pelo entrevistado, intitulada “Segurança alimentar e relações internacionais”. Indica-se, ainda, o site do FomeRI coordenado por Thiago Lima, onde podem ser encontrados diversos artigos sobre o tema da fome nas relações internacionais.

Além da produção de Thiago Lima, indicam-se os seguintes livros de outros autores estrangeiros: Pandemia e agronegócio”, de Rob Wallace; “The Monster at our Door”, de Mike Davis; e “As fronteiras do neoextrativismo na América Latina: conflitos socioambientais, giro ecoterritorial e novas dependências”, da socióloga argentina Maristella Svampa. Por fim, a equipe Terra em Transe indica o site O Joio e o Trigo, portal jornalístico brasileiro que aborda questões alimentares desde um ponto de vista político; e a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), que promove pesquisas em prol da soberania e da segurança alimentar e nutricional, bem como da superação da fome.

O Terra em Transe é exibido às quartas-feiras, às 18h30, com transmissão pela TV PUC (YouTube), o Facebook do GECI e o Canal Universitário de São Paulo (CNU). O programa com Thiago Lima, bem como as edições anteriores, podem ser assistidos também pela TV PUC no YouTube. A próxima edição do Terra em Transe, no dia 22/07, discutirá o racismo e a luta antirracista no Brasil. A convidada entrevistada será Jurema Werneck, ativista de direitos humanos e do movimento brasileiro de mulheres negras, além de diretora executiva da Anistia Internacional Brasil.

 

 

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