O fantasma Wagner PMC: empresas militares privadas e a política externa das grandes potências

In ANÁLISES, Corporações, Estados Unidos, Intervenções, Política internacional
Soldados da Wagner PMC

A crescente utilização de empresas militares privadas pelo governo russo emula a ação internacional dos Estados Unidos na última década. As grandes potências reproduzem os mesmos métodos violentos, enquanto crescentes fatias de seus orçamentos públicos são capturadas por empresas privadas.

Por Tomaz Paoliello

Desde o conflito que culminou na anexação da Criméia pela Rússia, em 2014, a empresa russa Wagner PMC ganha destaque nas notícias veiculadas pelos grandes veículos de mídia ocidentais. A história que correu o mundo dava conta de que a empresa militar disponibilizou militares terceirizados que lutaram na Criméia, de maneira que o governo russo pudesse interferir no território ucraniano e, ao mesmo tempo, negar envolvimento direto nas operações que ocorriam em território vizinho.

Um vídeo produzido por Nathaniel Reynolds, pesquisador do Carnegie Endowment for International Peace, revela essa percepção grandiloquente e conspiratória construída ao redor da empresa.

O propósito do filme é indicar a ameaça que a Wagner representaria para a política externa dos Estados Unidos. Entretanto, ao observar criticamente o material apresentado, é possível perceber que a empresa pode ser considerada sim uma ameaça, mas apenas na medida em que reproduz, ou emula, a mesma forma como a política externa dos EUA se vinculou a empresas do tipo para sustentar sua presença militar internacional.

De acordo com Reynolds, apesar de ser classificada como uma empresa militar privada, a Wagner PMC poderia ser considerada um braço do governo russo. A empresa conta com vínculos próximos ao Kremlin e seu comandante, Dmitri Utkin, é um veterano aposentado das forças de elite da Rússia. Ademais, o proprietário da empresa, Yevgeniy Prigozhin, seria parte de um círculo de empresários próximos ao presidente Vladimir Putin. O empresário tem negócios em diversos setores da economia, incluindo alimentação e internet, sendo muitos deles através de contratos públicos. O tom de conspiração aumenta quando Reynolds atribui vínculos do empresário com a chamada “russian troll factory”, que se envolveu na eleição de 2016 nos Estados Unidos.

Após a invasão do Iraque, em 2003, e durante os anos da ocupação do país, o governo estadunidense terceirizou um conjunto de atividades e funções para empresas militares privadas. Uma das mais conhecidas e maiores beneficiarias de contratos, a KBR, dedicou-se à construção e manutenção de diversas bases militares americanas no Iraque, entre outras funções de apoio e logística militar. A empresa contou durante o período com diversos militares de alta patente aposentados em seus quadros administrativos e dentro de seu conselho de administração, garantindo enorme influência junto aos círculos de poder em Washington. O mecanismo de “portas giratórias”, que descreve a circulação das elites entre mercados e governos, não é exclusividade da “exótica” Rússia.

O mercado para empresas militares privadas nos Estados Unidos, o maior do mundo, pode ser considerado um monopsônio, ou seja, um mercado concentrado em um único comprador. Durante a década de 2000, auge do mercado para empresas militares privadas, estimava-se que 97% de suas receitas eram provenientes de contratos com o governo. A imagem da relação próxima entre Estado e empresas na Rússia não é falsa. Por outro lado, é falso, sim, acreditar que em outras partes, principalmente nos países mais desenvolvidos, isso ocorra de maneira diversa. Na maior parte do mundo, é possível encontrar vultosas fatias dos orçamentos públicos capturados por empresas privadas.

Dick Cheney tournou-se vice-presidente de George Bush assim que deixou o comando da Halliburton. Por que só falamos de oligarcas na Rússia?
Dick Cheney tornou-se vice-presidente de George Bush assim que deixou o comando da Halliburton. Por que só falamos de oligarcas na política russa?

Até 2007 a empresa KBR foi uma subsidiária da Halliburton, uma das maiores multinacionais do ramo petrolífero. Se as relações da oligarquia russa com políticos parecem acintosas, os vínculos da oligarquia norte-americana não deixam a desejar. Dick Cheney, vice-presidente de George W. Bush entre 2001 e 2009, foi CEO da Halliburton entre 1995 e 2000. Cheney foi acusado de favorecer um conjunto de empresas do setor petrolífero no período de formulação das novas concessões de exploração petrolífera no Iraque. Por que o milionário russo próximo a Putin é tão diferente do milionário norte-americano próximo de Bush? Entendemos que a relação íntima entre empresários e políticos, que nas palavras de Reynolds parece ameaçadora, é muito mais um fato estrutural da relação entre política e capitalismo na maior parte do mundo. Essa relação é de fato uma ameaça à democracia, mas não precisamos olhar tão longe para encontrar um empresário no porão de um presidente.

A segunda parte do vídeo desenvolve de maneira bastante pertinente os ganhos mútuos que a Wagner PMC e o Kremlin obteriam dessa relação. A empresa receberia milhões em contratos do governo, além de facilidades em concessões de acesso a recursos como a exploração de petróleo, por exemplo. Por seu lado, o governo russo pode acessar soldados mobilizados rapidamente, de diferentes procedências, e sem ter que arcar com o atrito dos custos políticos de envolvimento militar regular. A vantagem central extraída da terceirização seria a deniability, a capacidade de negação de envolvimento nos conflitos, como Putin de fato fez na Ucrânia e na Síria.

Se por muito tempo a presença de empresas militares privadas nos Estados Unidos pareceu excepcional, é importante não cometer o mesmo equívoco agora com a Rússia. O que chama atenção no caso russo não é sua particularidade, mas sim a repetição das mesmas dinâmicas apresentadas pela política externa dos EUA na década anterior. O poder que emana da política internacional das potências é potencializado pela ação próxima e coordenada às grandes corporações que servem e são servidas por seus governos. A relação carnal entre economia e política internacional produz excelentes negócios para empresários russos ou norte-americanos e consequências trágicas para as populações que seguem vivendo suas vidas em palcos de conflitos.

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