Documentos revelam ordens de Israel para expulsar palestinos de suas terras

In ANÁLISES, Oriente Médio
nakba

Arquivos demonstram ordens diretas do Estado de Israel para promover e assegurar a limpeza étnica da Palestina de 1948  

Por Bruno Huberman

Nas últimas semanas, diferentes documentos históricos revelaram as formas pelas quais Israel, no período de formação e consolidação do Estado entre as décadas de 1940 e 1960, trabalhou de forma sistemática e planejada para expulsar os palestinos de suas terras e evitar que retornassem às suas casas.

Esses arquivos demonstram como a maioria demográfica atualmente existente em Israel, onde os judeus israelenses compõe aproximadamente 80% da população, foi promovida e mantida historicamente de forma violenta e por ordens diretas de lideranças do Estado, como o pai fundador David Ben Gurion.

Revisão da história

Os papéis históricos que recentemente vieram a público, retirados dos arquivos oficiais do Estado de Israel após serem desclassificados, vem a se somar a um longo esforço de historiadores palestinos, israelenses e internacionais em desmistificar a narrativa construída a respeito da criação de Israel, em 1948. Entre os israelenses, a história oficial conta que o êxodo de mais de 800 mil palestinos em 1948 teria sido fruto, por um lado, de um “milagre da luta pela libertação do povo judeu” e, por outro, de ordens de lideranças palestinas para que a população deixasse suas casas.

Os palestinos, no entanto, sempre apontaram para as formas pelas quais foram expulsos de suas terras, viram parentes serem mortos e tiveram seus vilarejos destruídos por milicianos e militares israelenses. Essa visão dos nativos veio apenas a ser corroborada internacionalmente pela abertura de documentos históricos por Israel na década de 1980, que tem fomentado um movimento de revisionismo da história do Estado desde então.

Apesar da comprovação dos fatos históricos narrados pelos palestinos, muitos historiadores israelenses, como Benny Morris, e também brasileiros, como Michel Gherman, reconhecem a Nakba (a catástrofe palestina de 1948), mas a interpretaram como um produto natural da guerra de “independência” de Israel, que teria sido acompanhada de uma “guerra civil” entre judeus e palestinos, e não um ato deliberado de limpeza étnica/genocídio, como reivindica, entre outros, o historiador Ilan Pappe, pois não haveriam documentos que provassem ordens diretas para a realização das expulsões e massacres.

“Sua ordem é ocupar”

Os registros que tratam das expulsões e massacres de 1948 estão sendo compartilhados pelo próprio Pappe em sua página nas redes sociais. Aqui segue a tradução do documento feita pelo próprio historiador.

arquivo pappe

Documento retirado do arquivo da Hagana, milícia pré-estatal sionista que foi o embrião do Exército de Israel

“Nos vilarejos entre Nahraiya e Tarshiha não há tropas estrangeiras no momento. Os vilarejos estão armados e prontos para ação. [obs pappe: os vilarejos não tinham nenhuma arma de verdade, mas apenas de caça, e pessoas que serviram na polícia; sem tropas árabes que estavam ausentes eles não tinham nenhuma chance].

Sua ordem é de ocupar, matar os homens [obs pappe: em Abril de 1948, a Inteligência da Hagana definiu homem como qualquer um acima da idade de 10], destruir e queimar os vilarejos de Kabri, Umm al-Faraj e al-Nahr.”

Porta fechada para os refugiados palestinos

Outros documentos, revelados na semana passada pelo Akevot Institute, comprovam que não apenas a expulsão dos palestinos em 1948 foi planejada e executada pelo comando israelense, como também foi o conjunto de ações que evitaram que os nativos despossuídos de suas terras retornassem após o fim da guerra.

Os arquivos demonstram como militares e civis israelenses deliberadamente ergueram estruturas e plantaram densas florestas sobre os escombros de vilarejos destruídos e despovoados para impedir a volta dos que chamavam de “infiltradores” — na realidade, os nativos da terra. O Fundo Nacional Judaico (KKL, em hebraico), de importante atuação e penetração na comunidade judaica no Brasil, foi o responsável por planejar e executar essa ação.

Além desses recursos físicos, os israelenses impuseram um regime militar exclusivamente sobre os palestinos que remanesceram no interior das fronteiras do Estado de Israel após as expulsões e que compunham cerca de 20% da população nacional na época. Esses documentos revelam que este regime militar, que limitava o movimento dos palestinos, seu ingresso no mercado de trabalho e sua liberdade de expressão e organização, viria a ser encerrado em 1966 apenas após o Estado entender ter sucedido na interrupção do retorno dos refugiados.

Segundo a pesquisadora palestina Nadera Shalhoub-Kevorkian, no período de formação do Estado de Israel, todos os palestinos sobreviventes, tanto os que remanesceram em suas terras como os que fugiram para o exílio e almejava retornar, eram vistos como a principal “ameaça” pela sociedade colonial israelense apesar das diversas guerras contra outras nações árabes no período. Acima das tropas inimigas, os nativos palestinos representavam a possibilidade de perderem as terras que conquistaram à força para formar a sua nação.

O direito de retorno dos refugiados palestinos

O direito de retorno dos refugiados palestinos tem sido anualmente ratificado pela Assembleia Geral da ONU desde 1949. Uma agência especial para zelar por essa população, a UNRWA (Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente) foi estabelecida também em 1949, um ano antes da formação da ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados), agência da ONU responsável por assistir aos refugiados do mundo.

A diáspora palestina é atualmente a maior do mundo, somando mais de 6 milhões de refugiados. Nenhum palestino retornou à sua casa desde 1949. Recentemente o presidente dos EUA, Donald Trump, cortou o financiamento da UNRWA, limitando a capacidade de ação da organização.

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