A arte como arma política no conflito Israel-Palestina

In ANÁLISES, Oriente Médio
silma mansour
As produções artísticas de judeus e palestinos influenciaram profundamente os desdobramentos do conflito na região e podem desempenhar um novo papel para o futuro da questão

Bruno Huberman

Artigo originalmente publicado no especial “Fora do Eixo” sobre diversidade da revista Bravo

O sionismo — o nacionalismo judeu — surgiu na Europa Oriental na segunda metade do século 19 e logo se transformou em um movimento internacional voltado para a colonização da Palestina com objetivo de reconstruir o lar nacional dos judeus. A cultura, e em particular a literatura, desempenham desde o início um papel fundamental para construir essa nova “comunidade imaginária” judaica, que em um primeiro momento buscava incentivar a migração de judeus de diferentes origens para a nova terra.

Seguindo a tradição iniciada por franceses e britânicos, como Alphonse de Lamartine, muitos escritores sionistas viam os árabes nativos da Palestina como atrasados e, portanto, passíveis de serem colonizados. Na literatura hebraica-sionista do início do século 20, os nativos da Terra Santa foram retratados tanto como os “maus selvagens” ameaçadores dos textos de Yoshef Haim Brenner e Natan Bistritzki-Agmon, como os “bons selvagens” que aceitavam de bom grado os avanços civilizacionais trazidos pelos judeus europeus, tal qual na obra do patriarca do sionismo, Theodor Herzl. Entre os estrategistas sionistas, os árabes eram vistos como um “problema” a ser solucionado.

Ao longo dos anos, a literatura hebraica acompanhou a colonização sionista e passou a construir narrativas épicas sobre o processo de migração para a Palestina (alyiah) e histórias idílicas sobre a vida das colônias exclusivas para os judeus (kibutz), pintando uma visão romantizada sobre a região que serviu de propaganda para o movimento nacionalista. Os cartazes das agências sionistas que incentivavam a migração de judeus para a Palestina reproduziam essa visão em ilustrações de vastos campos verdes vazios prontos para serem assentados.

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As gerações seguintes, constituídas por judeus já nascidos na Palestina, os sabras, passam a refletir sobre a identidade, os valores e os desafios desse novo homem judeu, que emula o amor do árabe pela terra e também o confronta no conflito armado. Uma das obras mais relevantes dessa perspectiva é De Amor e Trevas, romance autobiográfico em que o escritor Amos Oz discute a reconstrução da sua identidade após o suicídio da mãe durante o período de criação de Israel, em 1948.

Essa oposição de identidades tipicamente colonial presente no pensamento sionista e reproduzida na literatura hebraica é central para a compreensão do desenlace da disputa entre judeus e palestinos por aquela terra. Essa alteridade influenciou tanto na opção das lideranças sionistas por realizar um processo de limpeza étnica como forma de resolver o “problema árabe” em 1948 (que promoveu a expulsão de mais de 700 mil palestinos e a destruição de mais de 500 vilarejos por milícias sionistas e militares israelenses), como nos discursos de autoridades israelenses que ainda hoje veem os palestinos como irracionais, atrasados e contrapartes inconfiáveis para uma negociação de paz.

Tal foi o poder da visão do colonizador sobre o nativo e o desafio da alteridade para a questão Israel-Palestina que não é coincidência que coube a um intelectual palestino, o refugiado Edward Said, elaborar um dos mais importantes conceitos sobre o assunto, o de “orientalismo”. Em sua obra de 1978, Said mostra como o Oriente é uma criação do Ocidente, construído por imagens preconceituosas e racistas que historicamente vêm justificando a colonização desses povos vistos como bárbaros. A demonstração de Said do poder da narrativa de levar a civilização para os nativos atrasados, presente tanto na literatura como nos discursos das autoridades, se tornou tão influente que acabou por ser considerada a pedra fundamental dos estudos pós-coloniais no mundo, servindo de chave para a compreensão de diversos conflitos coloniais.

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Os palestinos Edward Said e Mahmoud Darwish

Identidade palestina

A arte também se transformou em um importante instrumento de construção da identidade nacional palestina e de resistência ao desenraizamento da terra. A experiência coletiva sempre está presente na produção do artista palestino. Um dos que melhor captou o sentimento nacional de resiliência e resistência foi o artista plástico Silman Mansour, autor de diversas pinturas que se tornaram símbolos nacionais, como a do campesino palestino carregando Jerusalém em suas costas (Camel of Hardship, 1974). Durante a Intifada (1987-1993), Mansour fez parte de um coletivo de artistas que passou a usar materiais locais, como barro e borra de café, para produzir suas obras de forma a deixar de importar tintas de Israel.

silman mansour

Por tratar sobre temas como memória, pertencimento à terra e identidade, Mahmoud Darwish, um refugiado palestino que teve seu vilarejo destruído em 1948 e cresceu em Haifa, em Israel, se tornou o poeta nacional palestino. Versos como “Eu venho daqui e tenho memórias” são ensinados em escolas palestinas e israelenses, além de serem vistos em muros em todo o território. Darwish apareceu para o mundo, em 1964, como um raivoso jovem poeta comunista palestino que bradava:

“Anote! Eu sou um árabe. / Meu número de identidade é 50,000. / Eu tenho oito filhos. / E depois desse verão, um nono a caminho. / Isso o deixa com raiva? / Eu sou um árabe.”

Essa poesia, intitulada Carteira de Identidade, buscava lutar contra o processo de apagamento dos palestinos que viviam sob regime militar em Israel (1948-1966), quando os palestinos cidadãos de Israel flagrados sem identidade poderiam ser presos ou deportados por serem confundidos com os “infiltradores” — os refugiados palestinos que buscavam retornar às suas casas.

A luta por reconhecimento dos palestinos em Israel — que hoje representam cerca de 25% da população nacional, aproximadamente 1,5 milhão de pessoas — se mantém por meio dos diversos artistas de hip-hop palestinos, como o grupo Dam.

“Nós estamos assim há mais de 50 anos / Vivendo como prisioneiros por trás de barras de fotografias / De acordos que não mudam nada / Nós não vimos nenhuma luz, e se espreitamos através das barras / Nós vemos um céu azul e nuvens brancas / Ao centro, uma estrela me lembra que sou limitado / Mas não, eu sou forte, mantendo-me otimista / Você não irá limitar a minha esperança com um muro de separação / E se essa barreira estiver entre mim e minha terra / Eu ainda estarei conectado a Palestina como um embrião ao cordão umbilical” (Mali Huriye – I Don’t Have Freedom, Dam, 2007)

Mundos apartados

No decorrer da história, muitas iniciativas buscaram reconciliar e aproximar esses dois mundos apartados. Diversas ações, tanto políticas como culturais, surgiram com intuito de superar o “ódio” que separava judeus e palestinos, particularmente no período do Processo de Paz dos anos 1990. Apesar de bem-intencionadas, muitas dessas iniciativas foram vistas como esforços de “normalização”, isto é, medidas que buscam unir sem discutir as razões que originalmente desuniram judeus e árabes — o colonialismo — e acabavam por “normalizar” as opressões. O filme Promessas de um Novo Mundo (2000), do americano-israelense B.Z. Goldberg, que busca aproximar as visões e vivências de crianças judias e palestinas, é revelador nesse sentido.

Na breve sequência ao original filmada em 2004, a desilusão dos jovens palestinos ao fato de que os gêmeos judeus Daniel e Yarko, de quem haviam ficado amigos no primeiro filme, se alistaram no Exército israelense, mostra como esses esforços “normalizadores” são limitados pela estrutura colonial. “Você queria o quê, B.Z.?”, questiona Yarko ao diretor.

Por outro lado, iniciativas artísticas que assumem uma posição de enfrentar o status quo e tocar na estrutura de forma a gerar transformação na relação entre judeus e palestinos para além da “normalização” podem se revelar arriscadas para a vida dos envolvidos. Este foi o caso de Juliano Mer-Khamis, um ator e ativista natural de Nazaré, em Israel, filho de uma mãe judia que rompeu com o sionismo e de um pai palestino-israelense. Juliano foi um dos responsáveis, ao lado de Zakaria Zubeidi, um militante palestino da Segunda Intifada (2000-2006), pela criação, em 2006, do Teatro da Liberdade no Campo de Refugiados de Jenin, na Cisjordânia, um importante local de resistência e de grande conservadorismo religioso.

O teatro levou jovens palestinos que viviam a violência do conflito, alguns inclusive ex-combatentes, a refletir questões políticas, morais e religiosas por meio da arte. O projeto, que atraiu a atenção internacional, trouxe inúmeros desafetos a Juliano, que veio a ser assassinado no campo em 2011, supostamente pela Jihad Islâmica. Apesar das dificuldades impostas pela morte de Juliano, o Teatro da Liberdade continua ativo.

Os grupos políticos que surgem de fundamentalismos religiosos, tanto judeus como muçulmanos, são vistos por muitos como os principais obstáculos para a paz na região. Tal visão é particularmente presente entre artistas e ativistas do campo da paz israelense, ainda relevante, mas que vem perdendo força e adeptos. Uma das suas principais figuras, o escritor Amos Oz recentemente publicou o livro Como Curar um Fanático – Israel e Palestina: Entre o Certo e o Certo (2017), no qual defende a imaginação, a curiosidade sobre o outro e o humor como antídotos para curar um fanático e construir pontes para o diálogo e a paz.

Binacional, multicultural

Entretanto, o aprofundamento das medidas de colonização e apartheid nos Territórios Palestinos Ocupados (TPO) tem levado cada vez mais pessoas a não acreditar mais nos benefícios do diálogo. A cineasta palestina Larissa Sansour, por exemplo, se utiliza da ficção científica para levar às últimas consequências os sentimentos de confinamento e alienação das pessoas vivendo na Cisjordânia após o Processo de Oslo (1993-1995), não apenas no presente, mas em futuro distópico.

No curta Nation Estate, a personagem principal, interpretada pela própria Sansour, retorna à Palestina pelo aeroporto de Amman, na Jordânia. Após passar pela imigração, chega, por um metrô subterrâneo, a um local similar a um hotel de Dubai. No lobby, um elevador tem como andares os nomes de cidades palestinas: Jerusalém Oriental, Hebron, Ramallah, Jenin, etc. Essas cenas surreais imaginam o tipo de Estado-nação que os palestinos podem vir a ter como resultado do diálogo com os israelenses.

Leitura similar da realidade é feita pelo escritor israelense A.B. Yehoshua, um dos mais importantes e antigos defensores das negociações de paz, mas que em artigo recente defendeu um projeto que revertesse o processo de apartheid resultante dos Acordos de Oslo antes que seja impossível. Yehoshua descreve medidas unilaterais israelenses que almejam criar uma confederação Israel-Palestina não por meio de um tratado de paz, mas através de uma parceria entre os envolvidos no conflito.

O acadêmico israelense radicado na Inglaterra Ilan Pappe, autor do controverso A Limpeza Étnica da Palestina, vai ainda mais além. Ele defende que a discussão não deve mais girar em torno da paz, mas da descolonização. Pappe faz parte de uma campanha de judeus israelenses e árabe palestinos por um Estado democrático binacional e multicultural em Palestina/Israel, que deseja reconstruir as sociedades civis palestinas e israelenses de forma a forjar uma união verdadeira entre judeus e palestinos para além de qualquer etnia, religião, nacionalidade e ideologia.

Nesse cenário de desilusão com o presente e incertezas com o futuro, os artistas judeus e palestinos podem cumprir o importante papel de ajudar as pessoas a sonhar e se moverem em direção a uma nova realidade que traga uma conciliação justa entre os envolvidos no conflito.

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Bruno Huberman é jornalista, doutorando em Relações Internacionais. É membro da SEDQ, rede global judaica por justiça em Palestina/Israel e no mundo, e da FFIPP-Brasil, Rede Educacional por Direitos Humanos em Palestina/Israel.

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