Da guerra ao futebol, a conexão suíça pela independência do Kosovo

In ANÁLISES, Política internacional
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Vestindo a camisa da Suíça, Granit Xhaka e Xherdan Shaqiri, albaneses étnicos com raízes no Kosovo, utilizaram o campo de futebol para representar simbolicamente sua pátria e atingir os rivais históricos da Sérvia em partida realizada no último fim de semana pela Copa do Mundo da Rússia. Com seus atos, os dois jogadores reproduziram, em certo sentido, uma antiga e íntima ligação da Suíça com a causa nacional albanesa-kosovar – que passa, inclusive, pela guerra.

Por Gustavo Oliveira

Suíça e Sérvia disputaram em 22 de junho um jogo recheado de conotações políticas na Copa do Mundo da Rússia. Conhecidos por exaltarem suas origens dentro e fora de campo, três dos principais jogadores da seleção suíça, Xherdan Shaqiri, Granit Xhaka e Valon Behrami são de etnia albanesa proveniente do Kosovo, província secessionista da Sérvia cuja independência não é reconhecida por Belgrado e por mais de 70 Estados membros da ONU – entre os quais, a própria anfitriã da competição, historicamente aliada da Sérvia e mais ilustre opositora internacional da secessão kosovar.

Por causa disso, as vésperas da partida foram marcadas por provocações entre os dois lados e expectativas de que as divergências políticas se refletiriam em campo. Ao longo dos 90 minutos, tais projeções se cumpriram: autores dos dois gols da vitória suíça por 2×1, Xhaka e Shaqiri comemoraram executando o famoso gesto da águia albanesa com as mãos, ato visto como provocação pelos sérvios. Ao fazerem isso, os atletas reforçaram uma importante conexão entre o país que representam em campo e aquele onde estão suas raízes, ligação que transcende as arenas esportivas.

A incorporação do Kosovo ao Estado sérvio (posteriormente, iugoslavo) sempre foi bastante problemática, pois sua população majoritariamente albanesa jamais aceitou por completo a submissão a Belgrado. Berço do nacionalismo albanês no século XIX, a região foi foco de um perene secessionismo durante todo o século XX, o qual não raro assumiu faceta armada frente à repressão do governo central e ao que se percebia como o favorecimento da minoria sérvia no Kosovo. Diante da crise do socialismo iugoslavo nos anos 1980, o movimento pela autodeterminação albanesa ganhou fôlego e pôs em marcha o processo que viria a culminar na intervenção da OTAN na Guerra do Kosovo de 1999. Nesse contexto, a dura repressão do governo sérvio/iugoslavo, bem como as más condições de vida locais, fizeram as famílias de Shaqiri, Xhaka e Behrami juntarem-se a milhares de outros conterrâneos para começar novas vidas na Suíça. Ali, contribuíram para sedimentar uma numerosa comunidade de cidadãos iugoslavos de origem albanesa, os quais, vindos de regiões como o Kosovo, o Montenegro, a Macedônia e o sul da Sérvia, haviam migrado a trabalho a partir dos anos 1960. Outro meio campista da seleção suíça, Blerim Džemaili, por exemplo, é proveniente de Tetovo, centro da comunidade albanesa na Macedônia.

A presença da expressiva diáspora foi um dos elementos que contribuíram para tornar a Suíça um dos principais centros de fomento da causa nacionalista a partir dos anos 1980. Perseguidos pelos serviços de segurança iugoslavos em outros países da Europa Ocidental, as lideranças intelectuais albanesas enxergaram na Suíça – além do material humano da diáspora – o respeito às liberdades políticas e um sistema financeiro opaco como fatores propícios para conduzir, desde o exílio, a agitação semiclandestina pela independência.

Foi na Suíça dos anos 1980, por exemplo, que se concentraram as atividades do Movimento Popular do Kosovo, conhecido por seu acrônimo albanês LPK. Por meio de sua articulação com as lideranças rebeldes baseadas no próprio Kosovo, o LPK foi o precursor e mentor político do Exército de Libertação do Kosovo (mais conhecido pela sigla em inglês KLA), milícia que veio a liderar, na segunda metade dos anos 1990, a luta armada contra o domínio sérvio/iugoslavo. Líder político do KLA no período da insurreição, Hashim Thaçi, atual presidente e ex-primeiro ministro do Kosovo, foi membro do LPK e teve seus estudos na Suíça financiados por essa organização. Assim como Thaçi e muitos outros representantes eminentes do movimento nacionalista, Ramush Haradinaj, comandante militar do KLA e atual primeiro-ministro kosovar, também colaborou com o LPK em suas atividades pela independência durante o exílio na Suíça.

Além do fomento político, a Suíça tornou-se crucial canal de financiamento do movimento autonomista e, posteriormente, da luta armada albanesa-kosovar. Sediado em Genebra (e Ulm, uma cidade na Alemanha), o “Fundo da República do Kosovo” (RFK) arrecadava, a partir do início dos anos 1990, recursos da diáspora para custear o governo paralelo instituído no Kosovo pela Liga Democrática do Kosovo (LDK). Mais conhecido como “Fundo dos Três Porcento”, alcunha oriunda de seu apelo para que os membros da diáspora destinassem três por cento de suas rendas para a causa autonomista, o RFK, em virtude do descrédito de suas tendências pacifistas, posteriormente veio a perder relevância relativa para o “A Pátria Chama” (Homeland Calling). Este último fundo, estabelecido e dirigido pelo LPK também na Suíça dos anos 1990, veio a se tornar, a partir de doações majoritariamente provenientes dos albaneses kosovares em território suíço, uma das principais fontes de dinheiro para o KLA no período da luta armada contra Belgrado. Além das dezenas de milhões de dólares arrecadados de inúmeras famílias como as de Shaqiri, Xhaka e Behrami para esses e outros fundos, a comunidade albanesa-kosovar da Suíça também forneceu armas, mantimentos e combatentes voluntários para a revolta contra a Sérvia.

Quase uma década após a guerra de 1999, o Kosovo declarou unilateralmente em fevereiro de 2008 sua secessão da Sérvia com apoio e supervisão dos EUA, que permanecem até hoje os patrões políticos do novo país. Além de Washington, as principais capitais da Europa Ocidental também reconheceram a secessão, incluindo Berna. Na prática, contudo, a independência ainda não se consumou por inteiro. O regime de administração internacional autorizado no Conselho de Segurança da ONU (CSNU) em 1999 permanece formalmente em vigência, o que inclui a presença de tropas de peacekeeping lideradas pela OTAN responsáveis pela ordem interna e pela defesa do novo Estado.

O Kosovo também não possui certos atributos de soberania, como um exército próprio. Além disso, sua autoridade ainda não foi consolidada por completo em todo o território que reivindica: embora a Sérvia, pressionada pelos EUA e pela União Europeia, tenha feito substanciais concessões a Pristina nesse sentido desde 2011, a presença institucional de Belgrado no extremo norte, de população majoritariamente sérvia refratária à independência, ainda não foi completamente extinta. Já a minoria sérvia (estimada em 4% a 8% da população do Kosovo), tem sido politicamente instrumentalizada por Belgrado em sua “província meridional” e está no centro de complicadas negociações de “normalização” das relações entre os dois lados. Por fim, no campo diplomático, a Sérvia, por vezes atuando em coordenação com a Rússia, tem tido êxito em bloquear o acesso do Kosovo em certas organizações internacionais, como a UNESCO. O veto de Moscou no CSNU permanece também uma potencial carta na manga de Belgrado para evitar que Pristina se torne membro da ONU e tenha seu reconhecimento internacional estendido.

Enquanto o imbróglio diplomático se prolonga, o esporte tem dado vazão à causa nacional albanesa-kosovar. Ostentando a bandeira e outros símbolos do país em competições internacionais, os atletas têm sido um importante instrumento de propaganda para a independência do Kosovo. Mesmo ainda representando a Suíça, Shaqiri, Xhaka e Behrami já contribuíram para dar visibilidade a esses esforços, e, nesse sentido, tiveram no jogo contra a Sérvia mais uma desafiante oportunidade. Além do próprio fardo histórico, o contexto político imediato em torno da partida foi um de complicações nas relações entre Belgrado e Pristina, acompanhado de repercussões no âmbito esportivo e episódios de violência contra sérvios recentemente registrados no Kosovo. Na semana do jogo, o ministério das relações exteriores da Sérvia, em sua “batalha diplomática” pelo Kosovo, anunciou a controversa revogação do reconhecimento da independência por parte da Libéria, trazendo mais um elemento para a controvérsia que já dura uma década.

Iniciada a partida em Kaliningrado, as arquibancadas trouxeram um último fator para apimentar a situação. Movidos pela narrativa da “irmandade histórica” entre russos e sérvios, os torcedores do país sede – especialmente os pertencentes a grupos de maior orientação nacionalista – frequentemente exibem e entoam o slogan “Kosovo é Sérvia” nos estádios locais, além, em algumas ocasiões, de outros cânticos antialbaneses. Na partida de 22 de junho, os russos também cantaram em favor da seleção sérvia. Foi diante desse tenso quadro que Xherdan Shaqiri e Granit Xhaka, assim como seus compatriotas nos anos 1980 e 1990, utilizaram a Suíça como “base” – desta vez, futebolística – para atingir aqueles que consideram seus algozes históricos e promover a independência do Kosovo albanês.

Créditos da imagem: The Sun

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