O primata dentro de nós

Desenho de Waterhouse Hawkins, no Museu do Colégio Real de Cirurgiões, em Londres. Foi reduzido de diagramas do tamanho natural (exceto o do Gibbon, que era duas vezes maior do que na natureza)

Comparar o comportamento humano ao de parentes próximos — em particular dos bonobos, que preferem o amor à guerra — é imensamente instrutivo

Por Ladislau Dowbor

Não gosto de fazer resenhas. Mas gosto sim de organizar reflexões sobre leituras. Há décadas, Alfred Sauvy, um dos criadores da demografia moderna, mantinha uma coluna no Le Monde que se chamava “Notes de Lecture”. Diferentemente de resenhas jornalísticas ligadas ao lançamento de novidades, tratava-se de trazer à tona pérolas de reflexão, caminhos da curiosidade científica encontradas por vezes ao acaso. O livro sobre “o primata dentro de nós” faz parte desse meu caminhar, do gosto quando descubro uma reflexão interessante. Esse livro é de 2005, mas brutalmente atual. Aliás, a capa é ótima: um homem todo arrumado lendo um jornal e comendo uma banana [Our inner ape: a leading primatologist explains why we are who we are” de Frans De Waal  – Riverhead Books, New York, 2005].

Parece que andamos esquecidos das nossas origens. Somos essencialmente primatas. Primatas inteligentes, sem dúvidas; mas uma coisa é constatar a inteligência, outra é avaliar com que fins a utilizamos. E aí vamos na profundidade das emoções, dos instintos, das nossas raízes primitivas. Não necessariamente para o mal, obviamente, temos poderosos instintos que nos levam a colaborar, a manter relações amorosas, a defender a justiça. Mas também para o mal, e aí estão as guerras, a mesquinhez, a violência absurda. Como o homo sapiens pode cair tão baixo? É porque não somos divididos entre pessoas boas e pessoas más, mas contemos dentro de nós amplos potenciais para o bem e para o mal. Curiosamente, analisar os primatas nos fornece um espelho perturbador do nosso próprio comportamento.

Nascido em 1948 na Holanda, De Waal tornou-se um dos pesquisadores mais respeitados na análise do comportamento dos primatas, com forte viés para o comportamento ético. Depois de muitos estudos sobre os primatas, ele escreveu esse livro sobre “o primata dentro de nós”, traçando um paralelo muito interessante: por vezes divertido, por outras deprimente. Na realidade, há milhões de anos, um grupo se separou dos símios e gerou um caminho evolutivo independente, permitindo o aparecimento do gorila, do orangotango, do chimpanzé, do bonobo e, naturalmente, de quem aqui escreve e de você, que me lê.

TEXTO-MEIO

Um exemplo interessante é a existência do “bode expiatório” nas comunidades de chimpanzés. Pode haver uma briga entre os mais poderosos na hierarquia do grupo, mas quem perdeu ou foi humilhado lá em cima vai rapidamente buscar um coitado mais fraco ou mais jovem para tirar a desforra. Pode não ter tido nada com a história, mas alguém tem de pagar o pato. O paralelo apresentado por De Waal é ótimo:

“Para o homem moderno, buscar um bode expiatório se refere à demonização, vilificação, acusação e persecução inapropriados. O exemplo mais horrível da humanidade foi o Holocausto, mas liberar o ódio às custas de outros cobre um leque muito mais amplo de comportamentos, inclusive a caça às bruxas na Idade Média, o vandalismo por parte de torcidas derrotadas e o abuso de esposos depois de conflitos no trabalho. A base desse comportamento – a inocência da vítima e uma liberação violenta de tensões – são impressionantemente semelhantes entre humanos e outros animais… Costumamos vestir esse processo com simbolismo e achamos vítimas sobre a base da cor da pele, da religião ou do sotaque estrangeiro. E também cuidamos muito em nunca admitir a vergonha (sham) que a penalização de bodes expiatórios na realidade constitui. Neste particular, somos mais sofisticados que outros animais.” (169)

Soa familiar? Homo sapiens…

Não importa, escreve De Waal, que não houvesse nenhuma prova de ligação com os atentados em Nova Iorque, mas o bombardeio de Bagdad representou um grande relaxamento de tensões para o povo americano, recebido por uma mídia entusiasta e bandeiras nas ruas:

“Imediatamente após essa catarse, no entanto, dúvidas começaram a surgir. Dezoito meses depois, pesquisas indicaram que a maioria dos americanos consideravam a guerra um erro… É deprimente constatar que compartilhamos essa tendência – a que gera tantas vítimas inocentes – com ratos, macacos e primatas. É uma tática profundamente arraigada de manter o controle sobre o stress às custas da decência (fairness) e da justiça.” (171)

Os primatas, porém, também devem seu sucesso e sobrevivência a um conjunto de práticas colaborativas e a impressionantes demonstrações de solidariedade e compaixão, evidenciados em numerosos exemplos que o autor apresenta, e que inclusive encontramos em vídeos populares de um primata salvando uma criança, compartilhamento de comida, organização solidária entre mães na proteção dos filhos e semelhantes. A organização social, a formação de grupos solidários ou rivais, o sentimento de indignação frente a injustiças – animais que se recusam a aceitar a comida se outros membros do grupo não recebem igualmente – mostram que os polos do bem e do mal estão profundamente enraizados nos nossos genes. De Waal inclusive critica fortemente a deformação do darwinismo que permite justificar tantos comportamentos “des-humanos” (!) sob a justificativa de que isso é a natureza, sobrevivência do mais apto.

“O próprio Darwin nunca foi um ‘darwinista social’. Pelo contrário, acreditava que havia espaço para o bem (kindness) tanto na natureza humana como no mundo natural. Precisamos urgentemente dessa compaixão, porque a questão com a qual se defronta a crescente população mundial não é tanto se conseguiremos ou não manejar o aperto (crowding), mas se seremos decentes e justos na distribuição dos recursos. Iremos no sentido do vale-tudo competitivo ou tomaremos um caminho humano? Nossos primos próximos podem aqui nos dar algumas lições importantes. Eles nos mostram que a compaixão não é uma fraqueza recente que vai contra a natureza, mas um poder formidável que faz tanto parte de quem e o que somos quanto as tendências competitivas que se busca ultrapassar.”(176)

Uma distinção importante de De Waal é entre princípios morais e normas culturais:

“Por exemplo, um dos meus primeiros choques culturais quando me mudei para os Estados Unidos foi ouvir que uma mulher fora presa por dar de mamar num shopping. Me impressionou que isso pudesse ser visto como ofensivo. O jornal local descreveu a sua prisão em termos morais, algo tendo a ver com decência em público. Mas já que um comportamento materno natural não pode fazer mal a ninguém, tratou-se apenas da violação de uma norma. Por volta de dois anos de idade, crianças sabem distinguir entre um princípio moral (“não roube”) e normas culturais (“nada de pijamas na escola”). Elas passam a entender que quebrar algumas regras faz mal aos outros, mas quebrar outras regras apenas viola expectativas. Esse segundo tipo de regras é culturalmente diferenciado. Na Europa, ninguém pestaneja frente a seios nus, que podem ser vistos em qualquer praia, mas se eu dissesse que tenho uma arma de fogo em casa, as pessoas ficariam muito perturbadas e se perguntariam o que estava acontecendo comigo. Uma cultura teme mais armas de fogo do que seios, enquanto outra teme mais seios do que armas. As convenções são frequentemente cercadas de solene linguagem de moralidade, mas na realidade tem pouco a ver com ela.” (202)

A divisão entre “nós” e “os outros” pesa imensamente no comportamento moral. Em grande parte, vamos encontrar muita solidariedade e até sacrifícios entre membros de uma comunidade de primatas, e com a mesma intensidade comportamentos ‘animais’ (!) nos confrontos com outras comunidades. É conhecida a reflexão de que o ser humano só encontraria a solidariedade entre todos se fosse invadido por entes de outro planeta. De Waal mostra a que ponto a moralidade e solidariedade têm raízes profundas no terror e no ódio frente ao “outro”. Uma reflexão que nos ajuda a entender a nossa complexidade e a coexistência de sentimentos contraditórios. O bem e o mal, o racional e o irracional aparecem profundamente articulados.

“No desenvolvimento dos direitos humanos – que devem ser aplicados até aos nossos inimigos, como pretende a Convenção de Genebra – ou ao debatermos a ética do uso de animais, aplicamos um sistema que evoluiu a partir de razões de ‘dentro do grupo’ para outros grupos, inclusive outras espécies. As nossas melhores esperanças de sucesso estão baseadas nas emoções morais, pois a emoções são desobedientes. Em princípio, a empatia pode reverter qualquer regra sobre como tratar os outros. Quando Oskar Schindler salvava judeus dos campos de concentração durante a II Guerra Mundial, por exemplo, estava sob claras ordens da sua sociedade sobre como tratar essas pessoas, e, no entanto, seus sentimentos interferiram… Ao resolver dilemas morais, nós nos apoiamos mais no que sentimos do que no que pensamos.”(224)

No conjunto, lendo De Waal, esse vai e vem entre comportamento humano e o de outros primatas, em particular dos bonobos, que no geral preferem fazer amor do que guerra, é imensamente instrutivo. Temos sempre essa forte tendência a encobrir o que há de mais podre no nosso comportamento por meio de discursos moralizantes, inclusive, como vimos, apelando erradamente para Darwin. O fato é que as raízes dos comportamentos estão profundamente ligadas às nossas emoções, e aqui o paralelo com o comportamento dos primatas é muito rico. Mas é tão mais fácil insuflar o ódio!

TEXTO-FIM
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Ladislau Dowbor é professor de economia nas pós-graduações em economia e em administração da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), e consultor de várias agências das Nações Unidas. Seus artigos estão disponíveis online em http://dowbor.org