O outro lado da CNBB

Marcada pela virulência de seus ataques recentes contra o direito ao aborto, a liberdade de orientação sexual e até o Plano Nacional de Direitos Humanos, a igreja católica mostrou, na quarta-feira de Cinzas, outra face. Bispos lançaram, em centenas de dioceses do país, a Campanha da Fraternidade 2010. Sob o título “Economia e Vida”, ela tem um pé no futuro. Condena a desigualdade social (propondo tributação progressiva), o poder dos mercados financeiros sobre as sociedades (defendendo auditoria da dívida pública) e, também, o culto acrítico ao “desenvolvimento”. Embora tenha sido impossível localizar, na internet, o documento-base da campanha deste ano [alguém consegue?], textos assinados por bispos, disponíveis no site da CNBB, sugerem que começam a circular, entre a hierarquia católica, noções como o “bem-comum” e o pós-capitalismo.

Como nada é perfeito, um pouco da CNBB passadista transparece mesmo neste contexto. Em muitos dos documentos, a ênfase da crítica não é às relações capitalistas — mas ao dinheiro, algo que faz lembrar a oposição medieval da igreja à cobrança de juros. E, no cartaz-símbolo da campanha (foto), mãos em prece prostam-se diante de uma pilha de moedas, em vez de orarem perante uma vela. Pergunta incômoda: a simples mudança do objeto de culto significara uma nova postura diante da vida?

TEXTO-FIM
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