Sobre velhos e velhacos

Kim, da “Folha” é um garoto da ordem. Expressa anseios de uma classe média sem projeto, que, sentindo-se insegura, busca apoio nas bengalas do conservadorismo

o-DEP-facebook

Feliciano Filho (à direita) posta selfie com Kim Kataguiri e filho do deputado Jair Bolsonaro

Kim, da “Folha” é um garoto da ordem. Expressa, de forma confusa, os anseios de uma classe média sem projeto nem visão de país, que –sentindo-se insegura– busca apoio nas bengalas do conservadorismo

Por Guilherme Boulos

Quando questionado por sustentar ideais de igualdade e justiça social aos 70 anos de idade, o saudoso Plínio de Arruda Sampaio (1930-2014) respondeu: “Ficar velho não é virar velhaco”. Há pessoas que, mesmo velhas, permanecem jovens de espírito. Abertas para o novo. E há outros que, mesmo jovens, carregam os medos e preconceitos das velhas gerações. Jovens, mas com o espírito de velhos rançosos. É o caso de Kim Kataguiri, que lidera o MBL (Movimento Brasil Livre) e tornou-se agora colunista da Folha.

Não é exatamente uma surpresa a Folha tê-lo contratado. A maior parte de seus colunistas é liberal em economia e politicamente conservadora, assim como sua linha editorial. Neste quesito, Kim estará à vontade.

Talvez a surpresa de muitos seja por conta de seu despreparo, mais do que por sua posição política. Difusor de piadas machistas, com discurso repleto de argumentos rasos e com uma prepotência própria de quem ainda não recebeu a notícia, Kim não está qualificado sequer como uma voz coerente da direita.

Mas o que de fato surpreende é ver Kim e seu MBL tratados por alguns como representantes do “novo”, do autêntico espírito de revolta da juventude contra a velha política. Na verdade, eles são precisamente o contrário disso.

Há uma percepção cada vez mais ampla de que estamos vivenciando a crise de uma época. De que este sistema político é incapaz de representar as maiorias. De que este modelo econômico só atende aos interesses privilegiados do 1%. Daí uma série de movimentos que nasceram nos últimos anos com ojeriza à velha política e clamando por transformações profundas.

Como o movimento Ocuppy Wall Street, lançado em Nova York (EUA), que reuniu milhares de pessoas numa ocupação permanente em Manhattan, depois estendida com protestos em várias cidades norte-americanas, contra a ganância desmedida da elite financeira.

Como o 15M, quando o povo indignado espanhol tomou as ruas e praças contra as políticas liberais de austeridade, os despejos em massa por conta das hipotecas “subprime” (segunda linha) e a corrupção da “porta giratória”. Dessa energia nasceu o Podemos.

Como também as grandes lutas dos estudantes chilenos por reformas do ensino, que levaram multidões de jovens às ruas contra o modelo liberal-privatista de educação, herança da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

Esses ventos também chegaram por aqui: as ocupações de escolas em São Paulo, as lutas contra o aumento das tarifas de transporte e as batalhas cotidianas pelo direito à cidade, nos centros e periferias urbanos, espalhadas pelo Brasil.

Poderíamos falar dos jovens do Ocupe Estelita, em Recife, que se insurgiram contra a especulação imobiliária e a apropriação privada do espaço público. Da resistência negra, no Capão ou em Ferguson (Missouri, nos EUA), que expressa a revolta da juventude contra o extermínio policial. Ou ainda da bela luta das mulheres –as mesmas que Kim comparou a “miojo”– contra os projetos retrógrados do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

Aí está o novo. Por esses ares passa o legítimo sentimento de repulsa à velha política, aos seus representantes e privilégios. Defender os mecanismos sociais que produzem desigualdades, a ideologia meritocrática e a repressão a quem luta é o que há de mais velho. É o programa da ordem, sempre a postos para prestar seus serviços à Casa Grande.

Kim é isso: um garoto da ordem. Ergueu-se no rescaldo da crise do petismo, expressando de forma confusa os anseios de uma classe média sem projeto nem visão de país, que –sentindo-se insegura– busca apoio nas bengalas do conservadorismo. As crises fazem surgir o novo, mas também dão roupa nova ao velho.

o-KATAGUIRI-facebook

Kim ao lado do deputado Eduardo Cunha (PMDB) e outros caciques pedindo o “fim da corrupção”.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também:

4 comentários para "Sobre velhos e velhacos"

  1. lisboaharold disse:

    Essas malditas impressoras modernas, são capazes de tudo..

  2. flavio disse:

    Precisa corrigir, Guilherme Boulos é dono do MTST, e não coordenador

  3. luciana disse:

    Três espécimes raros de machos… o Feliciano é ex gay, confessado por ele, portanto, não estou sendo preconceituosa, o Japa é um projeto de homem que não saiu da fase de agredir verbalmente as mulheres porque morre de medo delas, ainda está emocionalmente nos treze anos de idade, e o Bolso filho usa arma em comício pra fazer gênero porque se um homem de verdade o atacar ele corre com arma e tudo.

  4. Apenas um egocêntrico, com complexo de vira lata, o guri catacunha, é comprado com as verdinhas que os bilionários petroleiros anglo americanos de olho no pré sal, estão espalhando pelo cone Sul, investindo essa grana de 800 milhões de dólares, para passar a perna nos cucarachas com a colaboração de tais, nativos entreguistas. Pesquisem e vejam como os golpistas estão botando a mão em partes dessa bolada. ==> “a nova roupa da direita”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *