Outro Brasil: hora de um novo projeto de país

Outras Palavras e Canal Mova lançam entrevistas para enfrentar crise brasileira com alternativas. Celso Amorim abre: “não estamos condenados à pequenez!”

Outras Palavras e Canal Mova lançam entrevistas em vídeo para enfrentar a grande enrascada brasileira formulando alternativas. Celso Amorim abre a série: “não estamos condenados à pequenez!”

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Dois meses após o golpe parlamentar que levou ao poder um projeto várias vezes rejeitado pelas urnas, o cenário é de devastação. Por não ter pretensões eleitorais futuras, o governo Temer avança sobre direitos sociais e conquistas históricas sem pudores ou vacilações. Sente-se confortável pra mirar tanto objetivos imediatos (como o congelamento dos gastos sociais) quanto para promover retrocessos estratégicos (entrega do pré-sal, privatizações irrestritas, ataque aos direitos previdenciários e às garantias conquistadas pelos trabalhadores há décadas). Conta com confortável maioria parlamentar. Bloqueia o debate público de seus atos graças à blindagem de uma mídia que, agora, julga razoável tais medidas serem comandadas por um ministério repleto de denunciados pela Lava Jato. Desnorteada, a esquerda institucional ajuda a eleger, para a presidência da Câmara, um deputado claramente comprometido com o programa das contra-reformas. Como recuamos tanto, tão rapidamente? Como sair desta enrascada?

Em parceria com a produtora de vídeos Mova Filmes, Outras Palavras lança esta semana uma iniciativa que busca ajudar a encontrar respostas. Uma série de entrevistas, com pensadores e ativistas que se destacam pela profundidade e pelo compromisso com as lutas sociais, serão convidados a refletir sobre outro projeto para o país. A sequência é aberta por Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores. Ao comentar o abandono da postura internacional ativa e o retrocesso à velha posição subalterna, comandados por José Serra, Amorim reage e dispara: “Não estamos condenados à pequenez”.

Reconstruir um novo projeto nacional é indispensável por ao menos duas grandes razões. A primeira prende-se aos erros do passado recente. Aos poucos, fica claro: entre 2003 e 2016, o Brasil viveu um período de mudanças sociais importantes – porém, frágeis e superficiais. As estruturas que asseguraram cinco séculos de dominação jamais foram arranhadas. Preservou-se o sistema político oligárquico, o poder da aristocracia financeira, as isenções e privilégios tributários dos mais ricos, a concentração da propriedade da terra, o oligopólio que controla as comunicações de massa. Acreditou-se ingenuamente que poderiam seguir a orientação dos novos governos. Quando os verdadeiros donos do poder enxergaram uma conjuntura favorável, foi-lhes muito fácil livrar-se dos intrusos no Planalto e ministérios.

Mas se as reformas estruturais foram por tanto tempo adiadas, é porque se acreditou que não era necessário pensar um outro país. Bastava lutar para que, mantidas as mesmas dinâmicas, uma parcela maior da riqueza nacional fosse apropriada pelos desfavorecidos. Não se tratava de questionar a submissão das cidades ao automóvel – mas de estender a todos a chance de comprar um carro novo. Não era o caso de questionar o controle da terra pelo agronegócio (e todas as suas consequências devastadoras), mas de garantir que ninguém passasse fome, e que a proteína animal comparecesse mais vezes no prato de cada brasileiro.

A segunda razão crucial para Outro Brasil é a potência incompleta das novas lutas sociais – que têm como marco o Junho de 2013. Ecos das Jornadas continuam a ressoar. Reverberam hoje nas ocupações urbanas (dos sem-teto, dos secundaristas, dos produtores culturais). Ressurgem nos que teimam em acompanhar e solidarizar-se à luta indígena. Refermentam-se nos coletivos de jovens dispostos a articular trabalho profissional com ações pelo Direito à Cidade. Reaparecerão, em breve – agora com cheiro de multidão — nas campanhas dos trabalhadores para defender os direitos previdenciários e laborais, que o governo ilegítimo tentará atropelar com ímpeto, caso o golpe seja consumado.

Mas não parece claro, igualmente, que estas lutas precisam tramar um horizonte coletivo? Que país novo construiremos, se nos limitarmos a atitudes de defesa? Uma escola sem as velhas relações hierárquicas; um plano de preservação da Amazônia preservando a natureza e as culturas dos povos originários; uma nova inserção do Brasil na divisão internacional do trabalho e da produção; uma modelo agrícola que nos livre dos agrotóxicos e transgênicos; cidades onde Centro e Periferia não sejam reencarnações de Casa Grande e Senzala – nada disso sera possível sem a dura tarefa de voltar a formular um projeto de pais. De enxergar tanto as forças sociais reprimidas que ele poderá liberar quanto as resistências que enfrentará; os caminhos para vencê-las; as possíveis brechas no cenário mundial e brasileiro.

* * *

Por diversos motivos, uma entrevista com o ex-chanceler Celso Amorim abre Outro Brasil. A vocação internacional de Outras Palavras é evidente. Acreditamos que não e possível enxergar os problemas estratégicos do Brasil sem situá-los – para o bem e para o mal – na dinâmica do capitalismo globalizante. Breves exemplos: dois dos setores que mais devastaram o pais, e que mais elegeram parlamentares favoráveis ao impeachment – agronegócio e mineração – agigantaram-se devido a um cenário internacional que inflacionou os preços dos produtos primários e deu força politica inédita a seus “lideres”. Em contrapartida, movimentos sociais e culturais de todo o planeta inspiraram-se, no inicio do século, na luta pós-industrial do MST, na resistência à ALCA tramada durante os Fóruns Sociais Mundiais, ou nas inovações de Gilberto Gil à frente do ministério da Cultura.

Outro fato determinou nossa opção por Amorim. Chanceler nos dois governos Lula, ele protagonizou, junto com o então presidente, uma espécie de exceção transformadora. Em sua área, houve de fato uma virada estrutural. O Brasil abandonou a posição da subalternidade às potências hegemônicas – estabelecida desde a Colônia – e ensaiou no mundo sua condição diversa, mulata e, em certo sentido, moleque contra os poderes estabelecidos.

A primeira vítima foi a ALCA – área de “livre” comércio sob a qual os EUA pretendiam submeter o continente. Foi uma satisfação acompanhar, na metade da década passada, os lances em que Amorim desarmou as armadilhas pouco a pouco. Trabalhou com mão sutil de quem evita o confronto direto com o inimigo mais poderoso – mas esgota as forças deste submetendo-o ao peso de suas próprias contradições.

O chanceler não se limitou, no entanto, à defesa eficiente. Num mundo marcado pelos riscos de consolidação da ordem imperial, participa ativamente da construção de saídas. Esteve presente em cada um dos atos que constituíra o BRICS – antecipado pelo Ibas. Ajudou a cimentar a Unasul, uma articulação sul-americana que nega, enquanto existir de forma autônoma, a condição de quintal de Washington a que a região estava resignada. Ousou o inédito: por exemplo, a reunião inédita em 2010, em Brasília, entre América do Sul e Mundo Árabe, que contrariava tanto geopolítica quanto geografia tradicionais.

Celso Amorim aborda todos estes temas, na entrevista que fizemos em seu apartamento à beira do mar de Copacabana, no final de maio. Em quase duas horas, ficam claros tanto a criatividade de suas iniciativas quanto a pequenez do retrocesso ensaiado agora por José Serra. A conversa não é um elogio dos governos de que o chanceler participou. Amorim reconhece, por exemplo, que os esforços para tornar a América do Sul mais independente, do ponto de vista geopolítico, foram confrontados pelo retrocesso dos países da região à condição de exportadores de produtos primários.

Ainda assim, sua diplomacia altiva e ativa produziu enormes resultados. Segue como um dos sinais de Outro Brasil – possível e, em muitos sentidos, indispensável.

Conseguiremos construí-lo juntos? É a grande pergunta a ser respondida nas próximas décadas. A resposta só poderá ser construída coletivamente. Outro Brasil expressa, desde já, nosso esforço, nosso desejo e nossa aposta.

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6 comentários para "Outro Brasil: hora de um novo projeto de país"

  1. Marcio Flavio disse:

    duro de ler… escreve, escreve, escreve e não diz praticamente nada sobre um tema tão rico (o tema proposto\\\…

  2. Genovan de Morais] disse:

    Sucinta e ótima avaliação da conjuntura, Antonio. Igualmente a iniciativa de entrevista com o diplomata Celso Amorim, de quem sou admirador, pela altivez, inteligência e compromisso com que conduziu a poltica externa brasilleira. Apesar de a História sempre, felizmente, reservar surpresas e, as vezes boas, no momento não consigo ter ânimo para pensar quando teremos outro momento para dar continuidade ao caminho por ele percorrido, digo externamente. Já internamente vejo o horizonte com mais sombras ainda. Se o período Lula-Dilma, de fato, foi marcado por mudanças importantes como você assinalou e sempre estive convencido disso, enxergava a bons tempos que suas características terrivelmente conciliadoras para dizer o mínimo e o óbvio, não iria nos levar muito longe. Isso, entre outras razões, justamente, pela ausência de um projeto “alternativo” de sociedade, de país. Aliás, por essa ausência, as contradições já graves, se acentuarão ainda mais, tornando a luta social cada vez mais dura. Tempos de mais trevas virão, mas não se trata de pessimismo apocalíptico, basta acompanhar com um mínimo de atenção o que se passa aqui e alhures. Mas há história, há luta cotidiana…haverá luz no fim do túnel, sempre.

  3. João Luiz Pereira Tavares disse:

    Quando a realidade entra em conflito com o PT (Petê), o PT descarta a re-a-li-dade.

  4. Fantástico: esse Celso Amorim é uma das maiores personalidades que esse país já teve e tem. Deve-se fazer outras entrevistas aprofundando alguns desses assuntos que são, para nós, imprescindíveis. De forma simples ele vai no cerne das mais variadas questões e nos dá um banho de humanidade e política. Ele devia ser Conselheiro permanente dos Ministros no Brasil. Obrigada por essa palestra maravilhosa e esclarecedora de tantos assuntos importantes.

  5. zeca disse:

    O novo projeto é tipo a Venezuela?

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