Morte em Paris

Por que o “Charlie Hebdo” foi atacado. As manifestações e o risco de mais xenofobia na Europa. Os sinais de um sistema em crise profunda

10912565_10204424745911391_1949655052_o

Pela Redação de Outras Palavras

Uma das hipóteses mais lúgubres do sociólogo Immanuel Wallerstein concretizou-se, em parte, esta manhã em Paris. Dois homens encapuzados e vestidos de negro, aparentando (ou simulando) ser fundamentalistas islâmicos, invadiram a sede de um jornal satírico francês, o Charlie Hebdo, e executaram, a rajadas de metralhadoras, ao menos doze pessoas. Entre os mortos estão o editor da publicação e outros três chargistas de enorme talento e renome internacional. Charlie Hebdo é irreverente, inclinado à esquerda e crítico às instituições religiosas. Esta postura levou-o, algumas vezes, a provocar o islamismo, religião de milhões de imigrantes oprimidos e discriminados na Europa.

Sejam quais forem os responsáveis pelo atentado, as consequências são potencialmente trágicas: aumento da onda xenófoba – especialmente anti-islâmica – na Europa. Crescimento dos partidos de extrema-direita. Reforço à postura ultra-agressiva que os Estados Unidos, com notável apoio da França, já adotam no Oriente Médio. Risco ampliado de guerras de provocação. Wallerstein adverte que a crise do capitalismo é profunda, mas poderá abrir espaço tanto para um sistema mais democrático e igualitário quanto para o oposto. Ao entrar em declínio, a ordem hoje hegemônica liberta a emergência e expansão de valores de um pós-capitalismo; mas engendra, ao mesmo tempo, riscos de um mundo ainda mais hierarquizado, violento e desigual. As circunstâncias do atentado e seu contexto parecem validar a hipótese.

Armados de fuzis, os dois assassinos chegaram à redação de Charlie Hebdo, no centro de Paris, por volta das 11h. Sob ameaça, obrigaram a cartunista Corrine Rey (“Coco”), que entrava com sua filha, a abrir a porta do prédio. Ela relatou que falavam “um francês perfeito” e disseram pertencer à Al-Qaeda. Subiram dois andares e começaram a fuzilaria.

Chegaram num momento preciso. Às quartas pela manhã, a redação reunia-se, para definir a pauta do número seguinte. Estavam presentes o diretor, Charb, mais três cartunistas – Cabu, Tignous e Wolinski (este último mais conhecido do público brasileiro, por publicar, em abril de 2011, em Piauí, a sequência “Meio século de sexo”) – e quatro redatores (entre eles, o economista Bernard Maris, ex-membro do Conselho Científico do movimento ATTAC, em favor do controle social sobre o sistema financeiro).

Todos foram mortos na hora, junto com mais dois funcionários do jornal e dois policiais. Os assassinos teriam gritado, segundo testemunhas que os jornais franceses não identificam claramente, “Allahu Akbar” [“Alá é o Maior”] e se vangloriado de que “vingamos o Profeta”. Mas fugiram de carro, ao invés de se auto-martirizarem, como é comum em atentados cometidos pelo terror islâmico. Além disso, até o fechamento deste texto, nenhum grupo havia assumido o ato.

Fundado em 1992, o atual Charlie Hebdo (que resgata o nome de uma publicação anterior) não é um jornal de extrema-esquerda, ao contrário do que se afirmou no Brasil. Parte de sua equipe esteve presente em revistas humorísticas ligadas à revolta de 1968. Mas seu foco central não são os grandes temas políticos franceses ou mundiais – mas a crítica às instituições religiosas e à ultradireita.

Nos últimos anos, voltou-se especialmente contra o islamismo. Em 2005, reproduziu uma série de charges publicadas originalmente no jornal dinamarquês Jyllands Posten, consideradas ofensivas ao profeta Maomé. Manteve a mesma postura por anos a fio, o que despertou críticas de analistas importantes do Islã – como Alan Gresh, redator do Le Monde Diplomatique. Num texto publicado em 2012, ele defendeu, obviamente, a liberdade de expressão do Charlie Hebdo, mas criticou sua linha anti-islâmica. Lembrou que, além de discriminados, os muçulmanos sofrem, há anos, restrições às liberdades políticas (em 2014, o governo francês chegaria a proibir manifestação contra o ataque israelense aos palestinos da Faixa de Gaza). Diante deste contexto, Gresh indagava: seria correto, em 1931, em plena ascensão do nazismo, uma publicação alemã de esquerda estampar charges ridicularizando aspectos retrógrados da religião judaica?

A hipótese de que o atentado de hoje seja de autoria de fundamentalistas islâmicos é real. Num sinal da descoesão ocidental, apontada por Wallerstein, o New York Times lembra hoje que, entre os militantes do grupo ultrafundamentalista ISIS, criador de um califado no Iraque, há milhares de europeus (além de norte-americanos, seria justo acrescentar…).

Mas a pergunta clássica – cui profit, a quem beneficia o crime – sugere não ficar apenas nesta hipótese. Quase quinze anos após os atentados de 11 de Setembro, não foram respondidas as teorias segundo as quais a derrubada das Torres Gêmeas não poderia ocorrer sem algum tipo de participação das agências de inteligência dos Estados Unidos, nem as crônicas sobre o estranho comportamento do presidente George W. Bush ao ser informado de sua derrubada.

Mais de 100 mil pessoas saíram às ruas esta noite, em dezenas de cidades francesas, em solidariedade à redação de Charlie Hebdo. O clima foi de óbvia consternação e de defesa das liberdades. Manifestaram-se os que se sentem próximos de um jornal irreverente e sarcástico. Mas e a Europa profunda? Na própria França, as pesquisas colocam em primeiro lugar, na preferência dos eleitores para a próxima eleição à Presidência, Marinne Le Pen, da Frente Nacional, xenófoba e de extrema-direita. Na Alemanha, ressurgem, pela primeira vez depois da II Guerra Mundial, manifestações contra estrangeiros, articuladas por um movimento que se apresenta como contrário à suposta “islamização do Ocidente”. Que efeito terá o atentado de hoje sobre estes sentimentos já em ascensão?

As doze vítimas de hoje merecem tantas homenagens quanto cada um dos mais de 500 mil mortos no Iraque, desde a invasão norte-americana, ou as mais de 2.400 pessoas seletivamente assassinadas pelo governo norte-americano, por meio de drones, só entre 2009 e 2014.

Porém, mais que os mortos, está em questão o futuro do humanidade. Para Wallerstein, é impossível saber, hoje, o que virá após o declínio do capitalismo. É uma disputa que se prolongará por décadas e será definida em “uma infinidade de nano-ações, adotadas por uma infinidade de nano-atores, em uma infinidade de nano-momentos”.

O atentado de hoje chama atenção para os riscos inerentes a este cenário de crise. Mas pode, num sentido oposto, ecoar o apelo à ação feito, na sequência, pelo mesmo sociólogo. Ele diz: “Em algum ponto, a tensão entre as duas soluções alternativas vai pender definitivamente em favor de uma ou outra. É o que nos dá esperança. O que cada um de nós fizer a cada momento, sobre cada assunto imediato, importa”.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também:

31 comentários para "Morte em Paris"

  1. Olga disse:

    Correção: jyllands posten é um jornal dinamarquês e não holandês, como consta na matéria.

  2. Gomes Nuno disse:

    ^^y^^…aquilo que ninguém queria e gostaria que acontecesse deu-se! É estranho, não sei, estavamos à espera, julgo que não, mais casos como este acontecerão, é provável e se calhar com mais frequência. Andamos distraídos com ‘merdas insignificantes’ e o que realmente importava foi descurado. Consequência: apagam-se, assim, de uma penada 12 pessoas. O sinal está dado, será que o entendemos!?^^y^^

    • Regina Xavier disse:

      já tenho previsto que a queda do capitalismo, vai gerar abismos sociais cada vez mais trágicos…enquanto não nos importarmos “de verdade” uns com os outros, a distância entre nós será abissal.

  3. M Graça Medeiros disse:

    A marca das metralhadoras nāo é mencionada. É necessário identificar o produtor e vendor dessas máquinas.

  4. Nicoly disse:

    Parabéns pela matéria

  5. Chico Guil disse:

    “A Europa parece um indivíduo que, dormindo, se debate consigo mesmo e se fere, nos seus sonhos de angústia”. (H. Hesse, 1917)

  6. RAPHAEL disse:

    Bom texto, só penso que não ajudara a extrema direita,não tem sentindo como você mesmo escreveu a publicação era muito mais a esquerda; embora como você escreveu nós últimos anos ela se tornou anti religiosa e anti extrema direita, a essência ainda é de esquerda então as pessoas que ficarem sensibilizadas com o ocorrido absolvera a essência da esquerda não da direita…concordo que aumentara a xenofobia,pois terá cada vez menos pessoas dispostas a defender o islã não importa se é de esquerda ou direita

  7. FERNANDO GUERRA disse:

    Os árabes não fariam isso exatamente no dia seguinte em que milhares de alemães foram às ruas em 4 cidades da Alemanha em protesto contra a xenofobia contra os árabes (em resposta a grupos contra a “islamização do ocidente”).
    E falavam um FRANCÊS PERFEITO, segundo a cartunista Corrine Rey (“Coco”) MAS no vídeo em que atiram no policial na rua, salvo engano, estavam GRITANDO EM ÁRABE para todos ouvirem.
    Mais uma OPERAÇÃO DE FALSA BANDEIRA ?

  8. Tuca Melo disse:

    Não conheço o sociólogo mencionado, mas ele não me parece trazer nada de novo em relação à proposta clássica de Rosa Luxemburgo: socialismo ou barbárie. Infelizmente, parece que vamos à barbárie, mas tudo está em aberto.

  9. Excelente texto. Me fez pensar de forma diferente sobre os fatos. Obrigada!

  10. Deol disse:

    Charb cartunista tambem, mais isso o artigo nao diz

  11. Bruno disse:

    Amigos, o link estranho comportamento, referente ao G. Bush, redireciona a uma (interessante) matéria sobre o ocorrido em Paris, mas não sobre o tal estranho comportamento do Bush (no qual fiquei curioso). Poderiam corrigir o redirecionamento?
    Obg.

  12. Everson disse:

    Muita besteira pseudo-intelectual! Porque a sua magnânima pessoa não se junta ao “Estado Islâmico” para defender a causa dos “coitadinhos”.

  13. Melqui disse:

    Alguém sabe qual o livro do Wallerstein citado?

  14. Fernando disse:

    Esses atiradores são tão árabes ou muçulmanos quanto os decapitadores do ISIL que mataram reféns e postaram os vídeos na internet ou os falsos Russos que metralharam os Ucranianos em praça pública em Kiev. Com exceção dos participantes do atentado na França o restante já foi identificado como sendo agentes a serviço do mossad. Essa praga sionista quer incendiar o planeta em uma nova guerra para zerar o sistema financeiro vigente que está a um passo do colapso completo. Uma nova guerra de proporções mundiais onde os árabes muçulmanos e suas terras riquíssimas em jazidas naturais são eleitos o novo inimigo em comum da humanidade é altamente bem-vinda à esta altura dos acontecimentos pois o espólio seria dividido entre os vencedores e uma nova e legitimada era colonialista capitaneada pelos EUA, UE e Isra-hell teria início. Alguém perguntou num dos comentários sobre a procedência das armas e eu respondo: são russas. Nada mais cômodo do que juntar pretensos terroristas árabes com armamento russo para criar uma mega confusão. Não deu certo quando abateram o avião malaio sobre a Ucrânia, quem sabe agora, chacinando jornalistas no seio de uma cidade no coração da Europa eles pensam que conseguirão detonar a tão sonhada guerra que os salvará de prestar contas sobre sua roubalheira durante décadas usando o sistema financeiro internacional como meio de colonialismo.

  15. lucas delgado disse:

    “Quase quinze anos após os atentados de 11 de Setembro, não foram respondidas as teorias segundo as quais a derrubada das Torres Gêmeas não poderia ocorrer sem algum tipo de participação das agências de inteligência dos Estados Unidos, nem as crônicas sobre o estranho comportamento do presidente George W. Bush ao ser informado de sua derrubada.”
    Então, só para deixarmos explícito, o Outras Palavras concorda com a tese de “inside job” sobre o 11/09? É isso mesmo?

  16. Maria Bonita disse:

    Charlie Hebdo é sim um jornal de extrema esquerda e que SIM tem tambem como foco central temas politicos franceses e mundiais, instituições religiosas são criticadas por seu papel/poder politico …
    @fernando guerra, uma pessoa pode falar perfeitamento arabe E francês… é o caso de muitas pessoas na França

    • Ótimo! Falar árabe e francês não é privilégio de árabes e franceses, veja neste trecho de poema:
      Running Orders
      Lena Khalaf Tuffaha
      They call us now.
      Before they drop the bombs.
      The phone rings
      and someone who knows my first name
      calls and says in perfect Arabic
      “This is David.”
      And in my stupor of sonic booms and glass shattering symphonies
      still smashing around in my head
      I think “Do I know any Davids in Gaza?”
      They call us now to say
      Run.
      You have 58 seconds from the end of this message.
      Your house is next.
      They think of it as some kind of
      war time courtesy.
      It doesn’t matter that
      there is nowhere to run to…
      – See more at: http://www.jonathan-cook.net/blog/2014-08-02/poem-from-gaza-you-have-58-seconds-to-run/#sthash.gZ5zvDPa.dpuf

  17. Ateus me livre disse:

    A que ponto chegamos. Quer dizer que criticara ultradireita e instituições religiosas não é ser de esquerda.
    Vai ver hoje em dia ser de esquerda é disputar eleições para fazer o mesmo que a direita faria.

  18. Don Peron disse:

    Será que as guerras começaram a partir das religiões ou as religiões começaram a partir das guerras?

  19. Este artigo é tipico de um intelectual de esquerda meu Deus!!! Desde o final do século 19 fala-se da decadencia do capitalismo….bla bla bla..e cada dia esta porra de capitalismo está mais forte do que antes. Só a esquerda que é cega e que nao quer ver. As pessoas estão preocupadissimas com os atentados na França…nada mal…mas no Brasil se matam mais pessoas diariamente e pelos mais variados objetivos do que qualquer atentado que faça repercussão mundial. E o mais cruel ainda é que ninguém aqui faz nada.

  20. A grande questão é – Quem ganha com o crime? -, Se o jornal Charlie Hebdo e a maioria dos seus editores eram de esquerda e ou, de centro esquerda, faziam críticas aos movimentos religiosos conservadores e à ultra direita na França e na Europa, a quem beneficia tão brutal ação?
    A França, o Brasil e o mundo precisão entender o que aconteceu. Para isso é fundamental acompanhar. O Outras Palavras, Carta Capital, Caros Amigos, blogs como Tijolaço, Conversa Afiada, GGN, professor Gilbert entre outros, deverão ser lidos para um maior entendimento do assunto.
    Outra questão: Quem chora pelos mortos dos assassinatos cometidos por drones do governo dos estados Unidos no Oriente Médio? Quem chora pelos mais de 5 mil mortos das Torres Gêmeas? Quem chora pelos milhares de jovens pobres assassinados pela Polícia Militar nas periferias das grandes cidades do Brasil?
    A indignação precisa ser também com quem sofre ou é assassinado ao lado, ao longe e em todo lugar. Morreu um ser humano, não importa onde, indignai-vos!

  21. Bruno disse:

    Muito bom o texto. Abre a mente sobre a questão . Mas gostaria de deixar meu ponto de vista, de que a liberdade de expressão é algo importante de se defender, mas nenhuma liberdade dá o direito de deixar de respeitar e ofender radicalmente o próximo e suas crenças religiosas. O ocidente só quer enxergar e apoiar o seu ponto de vista. Vamos nos colocar no lugar deles assim como a matéria supõe no exemplo sobre como seria perto da segunda guerra uma publicação discriminando os Judeus. Somos uma espécie de Nazistas querendo que se acabe com os Islamistas. Reagir radicalmente matando como os extremistas fazem não está certo. E Charlie Hebdo é um extremista da caneta. Ofendendo a moral e a honra dos Islâmicos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *