Zambra: delicado e consistente

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Romance-bonsai “A vida privada das árvores”, do jovem autor chileno, é profundo porque é pedestre; é universal porque é ínfimo

Por Alexandre Pilati

“I shut my eyes and all the world drops dead
(I think I made you up inside my head)”
Sylvia Plath

A forma como a literatura toca a realidade profunda que vivemos nem sempre é direta e incisiva. Um poema ou um romance podem traduzir o âmago do que experienciamos em determinado momento da história de maneira oblíqua, com sutis convites de fuga à fantasia, com delicadas escapadas do real dito imediato. Às vezes, o sentido profundamente histórico ou político de um texto está, em chave dialética, no modo especial como ele constrói literariamente um espaço à parte, cujas leis exigem do leitor um comprometimento irrestrito com diretrizes logicamente inusitadas, num poético pacto com a evasão. Estabelece-se dentro do texto uma nova proposta de tempo. Nesses casos, será lá onde o real parece ser algo distante, apenas sonhado ou apenas fato de linguagem que o mundo, em sua verdade estrutural, se nos apresentará como presença incontestável e essencial. A natureza política do belo artístico, assim, reside no fato de que ele é ordenação das formas pelo trabalho da sensibilidade humana; é ocupação do sensível com uma voz que carrega as marcas basais de uma subjetividade em movimento expansivo em direção ao outro; é simbolização de travejamentos da experiência coletiva que de outra forma talvez não restariam perceptíveis ou inteligíveis aos membros da comunidade. Na palavra estética, portanto, vivem desejos, frustrações, anseios, realizações, mesmo que deles não se noticie nada em termos diretos. Em sentido amplo: a forma é história; a estética é política.

Faço essa pequena digressão a propósito de apresentar ao leitor uma faceta talvez sonegada na recente recepção brasileira de uma pequena obra-prima: A vida privada das árvores (CosacNaify, 2013), do jovem escritor chileno Alejandro Zambra. O livro pode ser considerado, em termos de gêneros da narrativa, uma novela, pela delicadeza e curta extensão. Todavia sua consistência torna irresistível classificá-lo, sem se ater a rigidez teórica alguma, como um romance-miniatura (quem sabe um “romance-bonsai”, para lembrar um dos enleios romanescos que estão dentro dele). Trata-se de um livro curto, que, no entanto, exige do leitor um tempo considerável de entrega. Em menos de cem páginas, o leitor adentrará uma consistente e alternativa dimensão temporal, que pedirá a ele pausa, reflexão, silêncio, sensibilidade. Essa pausa que o livro nos exige é performatizada na própria narrativa, pela personagem Daniela, conforme acompanhamos nas palavras do narrador: “O romance de Julián é tão curto que meia hora seria suficiente para lê-lo. Mas Daniela se detém no meio da página para ver se o café está pronto, para servir-se de uma xícara de café, e depois faz pausas cada vez que dá um gole, e depois de cada gole, olha para o teto, ou acende um cigarro, e começa a parar, também, depois de cada tragada”. Como podemos ver, o romance problematiza a própria condição de disparo da sensibilidade que a arte literária é capaz de promover. Não pelo simples fetiche do belo, ou do puro entreter-se com os liames do narrativo, mas, sobretudo, como poderá perceber o leitor, porque a arte literária condensa, naquelas poucas palavras e na expressão da beleza, uma longa história de autoconstrução humana. Uma história que a forma de A vida privada das árvores faz questão de sublinhar como humana, configurando-se como uma obra de alta problematização metalinguística, sem, entretanto, ceder à reificação comum na pedante proposta da linguagem-pela-linguagem, tão em voga entre jovens escritores medíocres na sua ânsia de se destacar do mundo trivial e serem bajulados. Alejandro Zambra leva a sério o lema do romancista atual, ou seja: problematizar a linguagem é potencializar a problematização de questões graves da existência humana. Neste caso de A vida privada das árvores algumas dessas questões são: solidão e solidariedade, presente e memória, imaginação e porvir. Mas tudo isso está inscrito numa narrativa sem arroubos, onde, às vezes, se verá um leve humor, uma fina ironia. A narrativa de Zambra, assim, é profunda porque é pedestre; é universal porque é ínfima. O seu mundo dialeticamente cotidiano e fabuloso vai se impor ao leitor como um golpe refinado e agudo de fantasia, sem deixar de exprimir-se como real.

O princípio formal de A vida privada das árvores é o elemento que resgata o leitor do cotidiano factual externo ao texto, a fim de deixá-lo enredar-se no cotidiano essencial que é vivido pelas personagens. Mais uma vez, é o próprio narrador que alude metalinguisticamente à condição rasteira das histórias que são contadas, mas para as quais é transferida uma cenografia onírica, às vezes infantil e fantástica; vejamos: “É uma história de amor, nada muito especial: duas pessoas constroem com vontade e inocência, um mundo paralelo que, naturalmente, bem rápido desmorona. É a história de um amor medíocre, juvenil, na qual reconhece sua classe: apartamentos exíguos, meias verdades, frases de amor automáticas, covardias, fanatismos, ilusões perdidas e depois recuperadas – as bruscas mudanças de destino dos que sobem e descem e não partem nem ficam”. Essa é uma micro-resenha de um dos núcleos narrativos do texto: o romance que o personagem Julián escreve, ou deseja escrever, o qual, neste momento aqui reproduzido, é hipoteticamente lido por Daniela. A partir desse jogo de reconhecimentos entre o interno e o externo ao texto literário, é criada uma sequência de narrativas que se imbricam, se intercambiam e parecem nunca ter fim. Zambra se utiliza do velho recurso das narrativas em caixa de uma forma, por assim dizer, não cartesiana. Não há uma linha reta em que as histórias que compõem a narrativa se encaixem. Elas também não se sobrepõem de uma maneira mecânica. Ao contrário, os diversos liames narrativos flutuam numa atmosfera cotidiano/onírica na qual o presente dos personagens perde valor, equivalendo a um passado que se resgata sem muita saudade e a um futuro que se teme sem desespero. Dessa maneira, o que existe (fato) e o que tem potência de existir (ficção) se emaranham através da voz do narrador, que está postado a uma distância estrategicamente idêntica de cada um dos personagens. Este narrador comprometido, mas não envolvido com as personagens, é capaz de manter elegantemente as duas cordas do livro, a do cotidiano e a da fabulação, vibrando sempre em harmonia.

Cruzam-se, portanto, por intermédio de tal ação precisa e elegante, histórias fabulosas, como aquelas que o personagem Julián conta para a enteada Daniela para fazê-la dormir e histórias reais, extraídas do cotidiano daqueles amores medíocres e humanos que vimos descritos acima. Tudo isso, contudo, se equilibra por meio de uma técnica muito eficiente para construir as cenas e enredos, que se vale sempre de pares de personagens. São pouquíssimos os momentos em que estes aparecem aos três, pois, na maioria das vezes, a tensão e a emoção dramática garantem-se pelo jogo estabelecido entre duas pessoas. Assim, além das figuras centrais que são Julián e sua enteada Daniela, o leitor verá atravessarem o tecido multitemporal construído em A vida privada das árvores outros personagens que se relacionam com estes protagonistas. Julián, por esse princípio binário, aparecerá ao leitor ora em relação a Daniela, ora em relação a Karla, sua ex-companheira, ora em relação a Verônica, por quem espera durante a noite em que a narrativa se desenrola. Daniela, por sua vez, aparecerá ao leitor ora em relação a Fernando, seu pai, ora em relação ao próprio Julián, ora em relação a um hipotético Ernesto, seu possível noivo. Essa lógica intercambiável de duplas, é claro, também funciona com os outros personagens, que comporão mais duplas, relacionando-se entre si. O enxugamento binário da narrativa, que faz com que cada terceiro elemento das tramas pareça um corpo algo estranho, prestes a convocar o abalo, garante profunda consistência à variância temporal que o autor propõe. Aqui temos, pois, aquilo que talvez sustente a força dessa pequena obra-prima em termos estruturais: por um lado uma consistente utilização de duplas de personagens, o que reduz a amplitude das pequenas narrativas do mini-romance e, por outro, uma delicada profusão de tempos, que faz o narrador atravessar múltiplas dimensões, que vão sutilmente se intercambiando entre tempo vivido, tempo lembrado, tempo projetado, tempo fabular e tempo cotidiano.

TEXTO-MEIO

Acerca do tempo, aliás, vale a pena lembrar que se trata de um romance de espera. Tudo que nele lemos foi fabulado, ou lembrado ou vivido em uma noite em que Julián espera por Verônica, mãe de Daniela, que talvez não volte jamais. A espera é um grande sintoma expresso na literatura contemporânea e em A vida privada das árvores está solucionada formalmente de maneira magistral. No excelente e irônico Perder teorias, o escritor catalão Enrique Vila-Matas discute a questão da espera na narrativa moderna e contemporânea e, ao falar de O mar das Sirtes, de Julien Gracq, fornece alguns elementos que muito ajudariam na compreensão da substância propriamente contemporânea e humana que figura nos fundamentos narrativos do livro de Alejandro Zambra. Diz Vila-Matas em certo trecho, “… o próprio romance é uma surpreendente aproximação do que nos está a acontecer agora, é a narração de uma espera e o anúncio de uma renovação que nunca chega, uma história de iniciação e, naturalmente, a oscilação entre o que é secreto e uma possível revelação, que, através quase sempre do confronto com a morte, resulta ser no final a revelação do conto em si, a triunfal afirmação da literatura sobre o mundoi. No livro de Zambra, todavia, o mundo reage à espera, afirmando-se com surda violência também sobre a literatura. Ele se torna algo incontornável, como pode sugerir a epígrafe de John Ashbery, que o autor apensa à última parte do texto: “Life as a book that has been put down”. Por isso é que o personagem principal, vendo que o dia amanhece, decide levantar-se e seguir; e tornar o futuro presente após uma longa noite de espera e fabulações. Diz o narrador: “Há menos de uma hora Julián decidiu que o futuro devia começar. Este é o dia seguinte, pensou, e fez café, e lavou o rosto várias vezes, como se quisesse machucar-se ou apagar-se”. O que se deve notar aqui é a força que o narrador credita ao gesto humano de erguer-se e encarar o mundo, da forma como ele se apresenta, nem que para isso seja preciso, como faz o personagem, construir uma nova cara para si, uma nova cenografia para os seus atos, que tornem o destino mais verossímil ou suportável. Julián, como num processo catártico, aprende com a fabulação da noite, e segue a vida, com renovada humanidade, apesar dos pesares. O leitor, por sua vez, identifica-se também com esse processo de ativação de sensibilidades e memórias e deixa o livro com um olhar diferente sobre a essência sua própria vida cotidiana. Reconhecemos as inconsistências do mundo e nos preparamos para, transformando-o, aceitá-lo.

Como bem lembra Valeria Luiselli na orelha que escreve para a edição brasileira do livro de Alejandro Zambra: “Além do perfil delicado de seus personagens, da beleza de sua linguagem ou da profundidade das experiências vitais que registra, um clássico da literatura é aquele que proporciona aos leitores uma nova forma de perceber o tempo”. Em fim de contas, A vida privada das árvores é mesmo isso: um clássico; uma sutil problematização das relações entre o homem, a arte, o tempo e o destino. A arte, menor que a vida, não consegue jamais dobrar o destino. Mas, de uma forma profundamente humana, a arte ajuda os homens a suportar o destino, a resistir à aniquilação que cotidianamente (e não apenas repentinamente) o destino e o tempo nos impõem. Por isso, há um sentido político profundo nesta narrativa aparentemente descompromissada. Sua delicadeza reage com consistência ao violento destino cotidiano. Sua beleza sutil é um instante que não salva o nosso tempo de tanta intolerância, mas é capaz de propor tempos mais verossímeis, mais coerentes, mais humanos. No mundo de hoje, em que o ódio converte-se intensivamente em padrão de sociabilidade, não deixa de ser político intervir nele poeticamente com um gesto de amor, com uma pequena e forte obra-prima.

i VILA-MATAS, Enrique. Perder teorias. Lisboa: Teodolito, 2011. p. 57.

TEXTO-FIM
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Alexandre Pilati é professor de literatura brasileira da Universidade de Brasília. É autor de A nação drummondiana (7Letras, 2009) e organizador do volume de ensaios O Brasil ainda se pensa – 50 anos de Formação da Literatura Brasileira (Horizonte, 2012). Acaba de lançar o livro de poemas e outros nem tanto assim (7letras, 2015).