EUA e Venezuela: uma surpreendente distensão

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Depois de provocações que chegaram à tentativa de golpe, Washington faz acenos a Caracas. Vontade de cooperar? Ou preparativos para grande confronto em dezembro?

Por Mark Weisbrot

Há cerca de dois meses, tenho apontado o degelo diplomático sem precedentes que ocorreu entre os EUA e a Venezuela. Agora, o movimento ganhou alguma atenção da velha mídia. “Os Estados Unidos e a Venezuela embarcaram eu seu diálogo mais extenso em anos, numa tentativa de melhorar sua relação amarga, de acordo com um alto funcionário do governo dos EUA”, relatou a Reuters essa semana, citando uma fonte anônima.

Na tarde de 2 de julho, enquanto todo mundo nos EUA fugia para um feriado prolongado [no dia 4/7 comemora-se a independência dos EUA], o secretário de Estado John Kerry emitiu uma declaração enviando seus “melhores cumprimentos ao povo da Venezuela, pela comemoração de 204 anos de sua independência em 5 de julho.”

“Fico contente que tenhamos encontrado uma causa em comum em nosso apoio às eleições, reconstrução e desenvolvimento do Haiti, assim como em nosso compromisso compartilhado com os esforços contínuos do governo colombiano para alcançar a esperada paz”, Kerry disse. E prosseguiu: “espero por futuras cooperações entre nossos povos e governos, assim como buscamos maneiras de fazer avançar uma relação historicamente forte, que já dura quase dois séculos.”

De modo notável, a declaração não continha nenhuma crítica ou observação que pudessem ser vistas como insultos ao governo venezuelano. Não consigo me lembrar de ter visto uma declaração semelhante sobre a Venezuela vinda do secretário de Estado dos EUA, pelo menos nos últimos quatorze anos.

É claro que nem todos estão felizes com essa reviravolta nas relações. Como notei no último mês, os esforços para sabotar as novas relações diplomáticas começaram assim que elas tiveram início. Vai haver mais tentativas do gênero, e algumas das reações da direita ao fato de o governo de Obama ter acenado com uma abertura para a Venezuela podem sugerir o que vai acontecer.

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Carl Meacham, diretor do Programa das Américas de um bem-financiado think-tank de centro-direita, o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, em inglês), foi um conselheiro sênior de política externa e funcionário do antigo senador Richard Lugar — um republicano do estado de Indiana que cumpriu seis mandatos e era muito influente na política externa. Foi o escritório de Lugar que torpedeou, em 2010, a tentativa de Barack Obama, de restaurar as relações embaixatoriais com a Venezuela. Por isso, Meacham, que é muito bem conectado com o pessoal do Departamento de Estado, em Washington, e outros funcionários norte-americanos envolvidos com a América Latina, é capaz de ter uma boa ideia de qual é a estratégia das pessoas, dentro e fora do governo Obama, que não querem relações normais com a Venezuela.

Meacham escreveu, no mês passado, que um dos objetivos da atual abertura do governo Obama a Caracas é “assegurar a presença de observadores da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da União Europeia nas próximas eleições, na Venezuela”. Mas o governo Obama não disse nada sobre tais observadores. É possível que Meacham esteja falando nisso porque a demanda por observadores da OEA e UE vai ser parte da estratégia da direita de deslegitimar as eleições para a Assembleia Nacional venezuelana, em dezembro.

Essa estratégia faz sentido se a direita puder convencer a mídia de que a demanda por estes observadores é razoável; e que eles serão capazes de prover uma avaliação independente da integridade do processo eleitoral. No entanto, a OEA tem um histórico muito contraditório. Em 2000, por exemplo, a organização reverteu a aprovação que havia dado às eleições parlamentares no Haiti, após Washington decidir que não tinha gostado dos resultados. Mas em 2011, também no Haiti, uma comissão da OEA respaldou seus membros pró-Washington, que deram o passo surpreendente e sem precedentes de reverter o resultado eleitoral — não recomendando novas eleições ou uma recontagem dos votos, como é feito, algumas vezes, em eleições disputadas — de um eleição presidencial em primeiro turno. Essas e outras intervenções da OAS levantaram dúvidas sobre o quanto poderia ser possível estabelecer uma delegação imparcial da Organização, dada forte influência de Washington em sua burocracia.

Lembre-se que nas eleições presidenciais da Venezuela de abril de 2013, os Estados Unidos foram o último governo a reconhecer o resultado — e apenas sob pressão do resto da região, incluindo o Brasil. Não havia dúvida alguma sobre o resultado. Na Venezuela, eleitores votaram em computadores, pressioando telas sensíveis a toque e recebendo os resultados impressos, que depositaram em urnas. Em uma amostra aleatória para cerca de metade das urnas, os votos em papel são comparados com os computadores na presença de observadores e testemunhas. Uma análise estatística mostrou que a probabilidade de fraudar as eleições era menor que uma em 25 quatrilhões (1 / 25.000.000.000.000.000)…

Mesmo assim, a Casa Branca, em 2013, solicitou uma “recontagem” para que Washingon reconhecesse o resultado. Dado que havia oposição violenta de protestos de rua, tentar reverter os resultados neste cenário não foi uma posição apenas desonesta,  mas também hostil e imprudente. Esse é apenas um dos muitos episódios que ajudam a explicar por que é difícil para muitos venezuelanos acreditar em Washington. A série de tentativas desestabilizadora remonta ao golpe miliar apoiado pelos EUA, em 2002.

Por isso, não será surpreendente se houver tentativas de destruir a tentativa de distensionamento da Casa Branca, relacionados a conflito sobre as próximas as eleições. Mas se a nova abordagem durar, será algo positivo. Com os EUA abrindo uma embaixada em Cuba pela primeira vez em meio século, mais norte-americanos — e talvez ainda mais seus políticos e jornalistas — também comecem a se perguntar por que os EUA não podem ter relações normais com a Venezuela.

 

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Mark Weisbrot

Mark Weisbrot é um economista norte-americano, colunista e co-diretor do Centro de Pesquisa sobre Economia e Política (CEPR, em inglês) em Washington. É também comentarista do New York Times, The Guardian e da Folha de São Paulo.