Voo 447 – Uma hipótese

Sob comando de profissionais experientes, sempre treinados e avalidos em simuladores, algo muito diferente deve ter ocorrido naquela noite

Por Sergio Xavier Ferolla

O terrível e misterioso acidente com uma aeronave da Air France, no vôo de número 447, tem sido motivo das mais variadas especulações, especialmente devido ao desencontro das informações vindas a público, o que aumenta a ânsia dos amigos e familiares dos infortunados passageiros e tripulantes vitimados na vastidão do Oceano Atlântico, no dia 31 de maio de 2009.

Os organismos de investigação de acidentes aeronáuticos têm todo o interesse e, principalmente, a obrigação de buscar, com exatidão, as causas de cada sinistro. Além da responsabilidade de cada um, em seu país de origem, eles se relacionam, tecnicamente, além fronteiras, para que a segurança do transporte aéreo seja colocada acima de interesses comerciais e nacionais.

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Nesse trabalho não visam encontrar culpados, atribuição das entidades policiais e jurídicas, mas sim chegar às causas que possam ter contribuído, indicando ações imediatas para que sejam corrigidas e ou neutralizadas. Daí a cautela na fundamentação exata dos resultados, buscando indícios, realizando simulações e, especialmente, analisando os dados de vôo e de cabine registrados nas famosas “caixas pretas”.

Paralelamente aos trabalhos desses profissionais da segurança, no caso presente atribuição específica da agência francesa, responsável pelo acompanhamento das operações aéreas no país, constata-se a existência de invectivas conflitantes entre algumas empresas, através dos órgãos de divulgação. Seriam tentativas para buscar culpados fora de suas áreas de responsabilidade, esquivando-se dos ônus que poderão recair sobre suas finanças? O futuro nos dirá.

Recentemente a mídia teve acesso a alguns dados preliminares, divulgados em jornais brasileiros no dia 29 de maio de 2011, com uma seqüência de desenhos e transcrições do diálogo entre os pilotos, além das mais variadas opiniões pessoais sobre o que poderia ter ocorrido naquela noite fatídica. Interpretar o incompreensível fato de uma aeronave moderna e de grande porte prosseguir voando estabilizada a uma razoável velocidade, com as turbinas em alta potência e mantendo uma atitude de subida, num ângulo de 30 graus, acabar se chocando com a água, após descer cerca de 10 mil metros, tornou-se um desafio de imaginação, para leigos e técnicos.

Estou certo de que não pairam dúvidas sobre a competência profissional dos pilotos, surpreendidos com problemas elétricos e de informação de vôo ao atravessarem uma região tempestuosa. Posteriormente identificados pelas equipes de terra, tais problemas podem ter se iniciado pelo congelamento dos sensores de velocidade conhecidos como “tubos de pitot”, demonstrando que a aeronave enfrentava condições adversas de formação de gelo.

Sob o comando de profissionais experientes e rotineiramente submetidos a treinamentos e avaliações em simuladores das mesmas aeronaves, algo muito diferente deve ter ocorrido naquele vôo em que, apesar de ser mantida a atitude de subida, sem qualquer comentário de situação anormal na cabine e, em decorrência, nada tendo sido percebido pelos passageiros, a aeronave prosseguia perdendo altura, a uma razão de 1000 metros por minuto.

Como piloto, motiva-me a solidariedade aos aviadores que enfrentam trabalhosas jornadas e os freqüentes desafios da natureza, como densas neblinas e tempestades. Por isso, ousei formular uma hipótese diferente, como forma de estímulo aos estudiosos de aerodinâmica e, quem sabe, como possível lembrança para os analistas das equipes de investigação. Para tal, fui além dos registros em fase de minuciosa análise.

Apesar de não atualizado com essas modernas aeronaves, lembro ao leitor que as situações de vôo seguem regras bem estabelecidas e, no tocante à sustentação fornecida pelas asas, que compensa e neutraliza o peso do avião, seu perfil aerodinâmico é um parâmetro crítico e da máxima importância. Daí a hipótese e o questionamento que coloco para novas considerações: por razões técnicas a serem estudadas, devido, possivelmente, a uma inesperada e intensa formação de gelo sobre as asas, não poderia ter ocorrido uma deformação no perfil das mesmas, causando a comprovada perda de sustentação?


Sérgio Xavier Ferolla é Tenente-Brigadeiro, aviador militar e engenheiro

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