Você tem um nariz que existe

160720-NarizPicasso

Pegaria muito mal ele não ter olhos, achariam nisso uma espécie de disfarce pra delinquência, pro vandalismo. Suporiam até que ele fosse preto sem ser preto

Por Priscila Figueiredo | Imagem: Pablo Picasso, Busto de Mulher (1934)

Fiquei sem saber se era um elogio ou um eufemismo. Pelo tom, devia ser os dois – o órgão devia ser grande e bonito. Um nariz que existe é um nariz que adquiriu autonomia, que anda solto por aí, dando gargalhadas, fazendo projetos, pegando ônibus, tomando cerveja apoiado num balcão? Claro, é inevitável pensar no nariz do conto de Gógol, meio demoníaco como quase toda parte que se autonomiza – e antropomorfiza. Dele, naturalmente ereto, já via brotando dois bracinhos e duas perninhas. A verdade é que foi por pouco que nunca mais fui a mesma – ou meu nariz que nunca mais foi o mesmo – depois dessa sentença. Porque a frase do cirurgião tinha me desorganizado bem – e as outras feições, também existiam? Em caso positivo, o que acontecia se esse que era um mero trapézio do rosto deixasse sua posição subsidiária e ousasse ser tão expressivo como os olhos ou a boca? Pensando nisso, fui até o espelho e olhei bem nos meus olhos, que é sempre uma relação, como direi?, de igual pra igual, pois não é preciso baixar o foco da visão, como quando se observa o próprio pescoço refletido. É preciso dizer que não verifiquei nada de novo, era eu e mais eu e sempre eu, enjoativo mas algo certo – e depois me fixei no nariz, justamente olhando de cima o Atlas meio perigoso, que levava o rosto nas costas e agora ameaçava perturbar minha auto-imagem largando tudo, caindo na vida, como se diz. Mas quem ele pensava que era? Não pegaria bem alguém que, me desculpe, com uma superposição primária e deselegante de funções, duas cloacas por onde respira e caga, ficasse batendo perna por aí, ainda mais hoje em dia. Iam dedurá-lo na primeira voltinha, que hoje não se pode andar à toa sem um motivo bem avaliado e uma certa aparência. Ficar de bobeira não é pra qualquer um. E onde ele iria se empoleirar? Se ao menos tivesse aquelas asas trêmulas como certos tipos de apêndice, mais aristocráticos. Mas não é o tipo dele. E, sem uma origem ou raça que ao menos pudessem definir e monitorar discretamente, não hesitariam em enfiá-lo no saco como uma borboleta, ou um terrorista. As Olimpíadas se aproximam, as revistas de voo doméstico mudaram da noite para o dia, parece até que adivinharam que ele estava ameaçando ganhar vida e fazer os estragos de um golem. Ainda por cima pegaria muito mal ele não ter olhos, achariam nisso uma espécie de disfarce pra delinquência, pro vandalismo. Suporiam até que ele fosse preto sem ser preto. Pra que sofrer tanto sem necessidade? Num inventa! Quis avisá-lo dessas coisas, por interesse próprio, claro, mas também com preocupação sincera – não é porque ficou arrogante com o cumprimento que perdi a antiga afeição. Por fim fui me acalmando, lembrei que essas veleidades passam, e ele, logo que botasse o… narizinho pra fora, ia acabar vendo que o mar não tá pra peixe e muito menos pra narizes. Esse fogo uma hora acaba, ficará velho, se esparramará um pouco na minha cara, como um alicerce flácido. Uma forma de se aposentar pela metade. Meus olhos estarão caídos e quase apagados, mas não deixarão de exercer o monopólio do pensamento, e este será algo como: e aí, que tal? estamos virando uma massa só. Satisfeito?

TEXTO-FIM

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Priscila Figueiredo

Priscila Figueiredo é poeta e crítica, professora de Literatura Brasileira na USP, autora de "Em busca do inespecífico" (Nankin, 2001), sobre Mário de Andrade, e "Mateus" -- poemas (Bem-te-vi, 2011).

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