Uma Kombi de encher os olhos

(Chéri à Paris, por Daniel Cariello)

Essa aconteceu com um amigo meu que morou em Paris muitos anos atrás, e agora acabou de voltar pra cidade-luz. A história se passou nos anos 80, durante a primeira temporada dele na capital francesa.

Seu pai, riponga na década anterior, era o feliz proprietário de uma Kombi verde por fora e, se bem me lembro do relato, laranja por dentro. Qualquer coisa de impensável nos caretas dias de hoje, mas perfeitamente normal pra psicodélica geração Woodstock.

Após milhares de quilômetros rodados e muita fumaça (de carburador!, de carburador!) queimada, o sujeito decidiu separar-se do veículo, que havia se tornado um trambolho no complicado trânsito parisiense. Com dor no coração, colocou um anúncio nos classificados do jornal. Tratou de ser minucioso e sentimental na descrição. Afinal, não era apenas um carro, era uma relíquia, um verdadeiro relato ambulante de uma passada época de sonhos.

Atraídos pela imperdível oportunidade, os interessados não tardaram a ligar. Alguns barganhavam, outros queriam marcar visita para conhecer aquela suposta maravilha, e havia ainda os que pediam detalhes específicos sobre a mecânica, o consumo e tudo o que todo mundo quer saber na hora de comprar um carro de segunda mão, mesmo que muitas vezes nem saiba o que está perguntando.

TEXTO-MEIO

Ali pelo fim do dia o telefone soa mais uma vez. A voz confiante do outro lado não deixou dúvidas de que o negócio estava fechado.

– Passo aí amanhã pra buscá-lo.
– Não quer nem ver antes?
– Não. Ele é meu.

A euforia pela venda praticamente decidida, somada à tristeza pela iminente despedida de um objeto que certamente deixaria saudades, não durou muito tempo. Alguns minutos depois, o aparelho toca novamente.

– Escuta aqui. Quem você pensa que é, hein?

O vendedor e pai do meu amigo não entendeu tchongas.

– Hã?

A voz brava continuou.

– Bancando o espertinho pra cima do meu filho, né? Querendo vender um carro para um rapaz cego. Não tem vergonha não? O que ele faria com uma kombi, se não pode dirigir?
– Desculpa. Mas, veja bem, como podia saber que ele era cego?
– Pois ele é.
– Sinto muito pelo transtorno e por ele também, que sem a compra vai ficar a ver navios.
– O quê? Tá de gozação com a minha cara?
– Não, eu disse que ele não vai ficar a ver navios. Ou melhor, vai ficar a não ver navios. Quer dizer, vai navegar a ficar vendo…

O cidadão desligou na cara, bufando. Menos de um minuto depois, a campainha do telefone é ouvida de novo.

– Olha só, aqui é o cego. E sou eu quem decido o que quero comprar ou não. Dinheiro eu tenho. Você quer vender o carro ou não quer?
– Quero, claro.
– Então vou passar com um amigo amanhã de manhã pra pegar.
– Tá bom. E sei que não é meu problema, mas abre o olho com o seu pai, viu?
– Hã?
– Ops, nada.

Na manhã seguinte, o comprador e o seu colega batem à porta da casa. De fato, o sujeito não enxergava absolutamente nada, mas estava determinado a fechar o negócio. Tateou a lataria da kombi, sentiu o VW da frente, acariciou os faróis, chutou os pneus, alisou os vidros, apalpou os bancos de couro, sentou na posição do motorista, virou o volante para os dois lados, pisou nos pedais, encaixou uma ou duas marchas, girou a chave, apertou a buzina, ligou o rádio e desceu do carro mais do que satisfeito.

– É perfeito!

Guardando no bolso o cheque pelo pagamento, o pai do meu amigo dirigiu-se ao acompanhante do cego.

– É você quem vai dirigir, né?

O cara não falou nada.

– Ei, perguntei se é você quem vai dirigir o carro.

Continuou sem resposta, até o cego intervir.

– Você está perdendo seu tempo, ele é surdo e mudo.

E os dois montaram na kombi verde felizes da vida, levando adiante o destino psicodélico daquele veículo.

Daniel Cariello, editor da revista Brazuca, é colaborador regular daBiblioteca Diplô /Outras Palavras. Escreve a coluna Chéri à Paris, uma crônica semanal que vê a cidade com olhar brasileiro. Os textos publicados entre março de 2008 e março de 2009 podem ser acessados aqui.

TEXTO-FIM
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Antonio Martins

Antonio Martins é Editor do Outras Palavras

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