Um veneno chamado vaidade

Por David Bromwich, London Review of Books | Tradução: Caia Fittipaldi,  Vila Vudu


Tudo leva a crer que a guerra do Afeganistão sobreviverá ao governo Obama e, se acontecer, a principal razão foi Obama ter escolhido Robert Gates para seu secretário da Defesa. Gates trabalhou sob as ordens de William Casey, diretor da CIA à época do escândalo Irã-Contras. Sua nomeação por Ronald Reagan para dirigir a CIA foi cercada de suspeitas de que teria sido cúmplice de operações clandestinas na Nicarágua. Bush-pai depois o renomeou e o manteve no governo. Gates foi considerado escolha segura por George H.W. Bush, porque sabia dos segredos; e Bush confiava que não os revelaria. Quando Bush-filho, depois da eleição de 2006, apareceu com o nome de Gates para substituir Donald Rumsfeld na Defesa, com certeza tinha em mente sua história de lealdade à família Bush. Tendo de preocupar-se com Abu Ghraib e Bagram e Guantánamo, Gates era o homem em quem Bush podia confiar. Além do mais, Gates poderia ajudar a neutralizar e conter a pressão incessante de Cheney e seu círculo, que exigiam ataque ao Irã. Supõe-se em geral que Gates, com Condoleezza Rice, conseguiram neutralizar Cheney e deram a Bush o apoio institucional para resistir a ele.

Obama, segundo dizem todos os relatos, tornou-se amigo de Gates: os dois partilham certo tipo de reserva e uma imagem pública de homens públicos contidos, de mentalidade moderada. Mas não mostrou os mesmos sinais de amizade com Hillary Clinton. Considerada retrospectivamente, a nomeação de Clinton como secretária de Estado causa, de fato, perplexidade. Nada sugere que, ao nomeá-la, Obama estaria removendo a ameaça que ela representaria no Senado, como contrapeso à autoridade do presidente. Até a ideia de que ela representaria qualquer tipo de ameaça é descabida. Hillary Clinton é praticante devota da lealdade Democrata, de fato muito mais que o próprio Obama; no Senado ela o ajudaria, como voz clara, desafiadora e com alta credibilidade, em várias questões (como fez várias vezes, antes de ser candidata à presidência). Praticamente achincalhada no papel de primeira dama, tornou-se voz respeitada pela imprensa, no Senado. O low profile de Hillary no gabinete surpreendeu todos. Mas a extraordinária insistência de Obama para pôr-se, ele mesmo, no centro do palco manteve à distância todos os competidores.

Só agora começamos a saber, de fontes como o livro de Bob Woodward, Obama’s Wars, sobre outros dos escolhidos do presidente, escolhas sempre estranhas, e sobre como o presidente trata esses assessores. O general James Jones, com quem Obama jamais se encontrara, foi convidado para o posto de conselheiro de Segurança Nacional. Depois de escolhido, praticamente nunca se reuniu a sós com o presidente. Para a CIA, Obama escolheu Leon Panetta, ex-deputado que foi chefe de gabinete de Bill Clinton. Panetta era completo estranho no mundo da espionagem: qualquer um poderia prever que ficaria intimidado ante os comandados e por-se-ia a defender seus feitos presentes e passados, com a ansiedade de quem precisa afirmar-se ante os próprios olhos. Panetta acreditava que de nada lhe serviria discutir com os generais, ou dedicar a eles qualquer trabalho além de uma “revisão” superficial. O dever dos Democratas é dar a eles o que querem: Panetta é homem desse tipo. Hillary Clinton também apoiou os generais, David Petraeus e Stanley McChrystal e o chefe do Estado-maior almirante Mullen, quando exigiram mais 40 mil soldados no Afeganistão. De fato, ela os apoiou com mais empenho que Gates. Jones tentou ajudar Obama intermediando contatos com o Pentágono, mas Obama optou por trabalhar a seu modo e não lhe deu qualquer chance.

De todos os que Obama nomeou, as nomeações que mais lhe custaram em termos de credibilidade com os liberais que o apoiavam foram as de Lawrence Summers e Timothy Geithner, o principal conselheiro econômico e o secretário do Tesouro. Geithner tem ar de moço que se empenha em defender interesses dos mais velhos: um office-boy. Os mais velhos, nesse caso são os presidentes do Goldman Sachs, da AIG e de outros grandes bancos e grandes financeiras. Geithner, no reforçou no banco central de Nova York – ou, melhor dizendo, deixou correr solta – a política permissiva das hipotecas que Summers implantara nos anos finais do governo Clinton. E Summers, rejuvenescido pela agressividade e brilho de Geithner, chegou tão altamente recomendado que Obama não teria como não nomeá-lo. O novo presidente deixou-se persuadir pela crença de seu conselheiro de que havia poucas pessoas nos EUA que conseguiriam desfazer os danos provocados pela crise das hipotecas; e era a mesma gente que causara a crise. A equipe econômica de Obama, com a “equipe reserva” de executivos do Goldman Sachs, teria conseguido sair-se melhor se tivesse sido mesclada com economistas com outro tipo de visão, como Joseph Stiglitz e Paul Krugman. Mas Obama pouco sabia de economia e acreditou no que lhe disseram os ortodoxos. Teria sido mais prudente, considerando-se só a necessidade de prudência, que Summers tivesse sido ouvido antes, informalmente. Mas Obama muito visivelmente sempre anseia por legitimidade.

Obama é presidente que não gosta de ser portador de más notícias – diferente nisso, por exemplo, de Nixon ou de Bush-filho. É característica que pouco o ajudou, porque Obama assumiu em tempos excepcionalmente difíceis e teve pouca sorte ao longo dos dois primeiros anos. O Afeganistão caiu aos pedaços logo nos primeiros meses, e a retomada da confiança dos consumidores, que resistiram a recomeçar a gastar, demorou mais do que o previsto. Mas Obama queria apresentar qualquer coisa que parecesse ser “realizações”. Esse desejo generalizado parece ter sido mais importante para ele do que qualquer efetiva “realização”. Surpreendeu seus próprios apoiadores, quando decidiu que a reforma da saúde pública seria sua primeira iniciativa. Matéria recentemente publicada de Ryan Lizza na revista New Yorker mostrou que nos primeiros dias de governo, a equipe de Obama discutia se o primeiro tema seria a reforma da Saúde ou o combate ao aquecimento global (eufemisticamente renomeado e hoje conhecido como “mudança climática”). Lizza escreveu que jogaram as duas ideias contra a parede, para ver qual grudaria no Congresso, e a reforma da Saúde grudou. Obama então mudou tudo e passou a agir como se sempre tivesse sido dedicado apóstolo da reforma da Saúde. A paixão pela fama – ocupar o lugar central e, também, realizar o feito mais importante – é maior, em Obama, do que alguém jamais supôs. Mas é homem de instinto político fraco. Post recente de William Galston em blog do New Republic lembra que na primavera de 2009, quando Obama aprovou os bônus para os banqueiros que haviam destruído a economia em 2008, fê-lo sem qualquer suspeita de que aquelas recompensas enfureceriam muitos. Simplesmente, seguiu o conselho de Summers e Geithner.

Nesse ponto, as acusações de elitismo contra Obama, parecem ter alguma base real. Obama partilha com seus assessores econômicos a crença de que a riqueza é criada por bancos e financeiras, de cima para baixo: economia rica começa com gente que faz dinheiro, não com trabalhadores que fazem produtos. Quanto a decidir entre legislação ambiental e a reforma da Saúde, alguém bem lhe poderia ter perguntado: “Mas por que pensar nisso agora? Por que não se concentrar no colapso financeiro? Fale ao povo, faça com que confiem no presidente e, depois, veremos o que mais se consegue.” Na glória e no calor da vitória, Obama jamais deu qualquer sinal de considerar essa outra via. Escolheu a reforma da Saúde pela mesma razão pela qual o casal Clinton, antes, fizera a mesma escolha: Obama entendeu que seria a única, das grandes leis, com chance de ser aprovada.

TEXTO-MEIO

Do que escreveram Lizza, Woodward e outras fontes, começa a emergir a imagem de um presidente estranhamente dividido. Há nisso claro contraste com George W. Bush, que sabia que não estava à altura e delegou a presidência a outros. Com Obama, ninguém jamais sabe quem está no comando. Parece ser presidente que delega muito, como Reagan, e, apesar de sua capacidade para compreender a política ser muitíssimo superior à de Reagan, ambos manifestam o mesmo desprazer ante o trabalho diário de governar. Tem visão grandiosa, mas explica mal, insuficiente e inadequadamente. Defendeu a reforma da Saúde como ação para garantir um direito humano fundamental e disse que o programa também ajudaria a equilibrar o orçamento. São possíveis boas razões, mas, em diferentes momentos, Obama só falou de uma delas como razão principal. Há muita diferença entre explicar uma ideia com clareza e costurar juntas cinco ideias plausíveis. Obama mantém uma lista de suas realizações e – segundo Peter Baker em perfil recentemente publicado na New York Times Magazine – entende que já fez 70% do que esperava fazer nos primeiros dois anos. Jay Gatsby também fazia listas, e é fácil lembrar a “concepção platônica” de Gatsby sobre si mesmo. O que perturba é saber se, comprovadamente, aquela autoimagem de Gatsby não se modificou nem na derrota.

Depois que seu partido foi duramente batido nas eleições de 2/11, Obama tem dado sinais de que pode vir a concordar com a manutenção dos cortes de impostos para os 1% mais ricos: exatamente o que, antes das eleições, disse que jamais faria. Obama não gosta de ver-se próximo de derrotas. Moderou muito o apoio que dera a vários candidatos democratas – Martha Coakley em Massachusetts, Arlen Specter na Pennsylvania, Blanche Lincoln no Arkansas – antes das eleições, quando se convenceu de que tinham pouca chance de vitória. Autorizou seu secretário de Imprensa Robert Gibbs a declarar, no início do verão, que os Democratas provavelmente perderiam a Câmara de Deputados. Esse grau de autopreservação é traço desagradável em políticos. A qualquer momento, pode ocorrer uma pergunta ao Partido Democrata: por que temos de ser mais leais a ele, do que ele a nós?

Nos discursos de Obama, a palavra “eu” (que aparece muito) e a palavra “Democrata” (que aparece raramente) quase nunca aparecem próximas. Em teoria, Obama é modesto; na prática, é snob. Sua postura, irrepreensível, é sempre elegante, mas jamais cálida, e fala de cima para baixo com os eleitores. Em setembro, numa reunião de cidadãos, tentando mostrar empatia com os doidos anti-impostos, Obama disse: “Está no nosso DNA, certo? Quero dizer, entramos em cena porque o pessoal do outro lado do Atlântico andava oprimindo gente sem oferecer-lhes representação.” O pessoal do outro lado. Oprimindo gente. Que conversa é essa? Obama é presa de uma obscura aversão por chamar as coisas pelo nome. Nesse caso, a tendência a nada especificar impediu-o de dizer palavras simples e úteis: “Jorge III” e “nenhum imposto sem representação”: marcadores vívidos da história dos EUA, que todos conhecem.

Sua eloquência encontra a chave natural não em explicações, mas em declarações de propósito. Obama quer para ele o crédito pelas mais altas intenções, até quando concede que lhe falta vontade para ir da intenção ao gesto. O problema é que político que diz o que quer fazer, mas não faz, fica exposto a ataques pelos dois lados: desaponta quem o apóie e, ao mesmo tempo, informa aos inimigos que aquilo que o impediram de fazer era o que ele mais gostaria de ter feito. A conduta de Obama em relação a Binyamin Netanyahu é perfeita ilustração disso. Mas há caso igualmente revelador no livro de Woodward, quando Obama diz aos generais: “Para mim, seria muito mais fácil sair e dizer, num discurso: ‘Querem saber? O povo americano está cheio dessa guerra. Vamos mandar os 10 mil treinadores, porque é o único jeito de cairmos fora de lá.” Deu bandeira. Dito de outro modo, entregou a dignidade da posição que é sua, sem qualquer recompensa proporcional ao sacrifício.

Obama falou à opinião pública norte-americana sobre segurança da extração de petróleo em alto mar, dia 2/4: “De fato, aliás”, disse ele, “esse tipo de perfuração raramente leva a vazamentos. A tecnologia está muito avançada”. Dia 20/4, aconteceu o desastre da Deepwater Horizon, a sonda da British Petroleum. Dia 29/4, Obama falou pela primeira vez sobre o vazamento; e dia 2/5 visitou a Louisiana pela primeira vez. Na campanha presidencial, tratara a resposta desinteressada de Bush à catástrofe do furacão Katrina como sinal da incompetência daquele governo. Ali estava Obama, ante desastre de magnitude semelhante, no mesmo estado; e evitava qualquer contato direto com o problema. A fala do Salão Oval dia 15/6, sobre o vazamento, talvez tenha marcado o momento em que sua imagem pública afinal começou a despencar. A fala foi formal, sombria e super editada:

“Boa noite. Enquanto falamos, nossa nação enfrenta uma multidão de desafios. Em casa, nossa absoluta prioridade é nos recuperar e reconstruir depois de uma recessão que tocou a vida de todos os norte-americanos. Do outro lado do mundo, nossos bravos soldados e bravas soldadas enfrentam a al-Qaida onde quer que esteja. E agora há pouco voltei de uma viagem à costa do Golfo, para falar-lhes sobre a batalha que lá travamos contra um vazamento de petróleo que ataca nosso litoral e nossos cidadãos.”

A catástrofe ambiental foi posta em pés de igualdade com a catástrofe humana das guerras do Iraque e do Afeganistão e o desastre social do colapso financeiro: como se nos três casos se tratasse de acidentes naturais, fora de qualquer controle humano, a serem encaradas, as três tragédias, com rigoroso estoicismo e firme determinação de oferecer ajuda. Mas as guerras foram causadas por Cheney e Bush; o colapso (que “tocou a vida” de tantos), pelos aproveitadores da bolha das hipotecas e seus parceiros comerciais; e o vazamento de petróleo, pelos erros de uma gigante do petróleo que nada e ninguém regula ou controla. Obama não conseguiu dizer essas simples palavras. E a metáfora que mais claramente evoca guerras ficou reservada para o petróleo vazado – “que ataca nosso litoral e nossos cidadãos” – como se vazasse por decisão do próprio petróleo.

A fala terminou em tom solene, com uma alusão ao costume da “Benção dos Navios” por sacerdotes de diferentes religiões, na partida para o mar. “A cerimônia” disse Obama de sua mesa presidencial, “ocorre nos bons tempos e nos tempos difíceis. Foi realizada depois do Katrina, e outra vez há poucas semanas, no início da temporada mais difícil que aqueles pescadores jamais enfrentaram. Mesmo assim, eles vieram e oraram.” Nesse ponto, ninguém, que tivesse meia orelha e coração conteve um suspiro: É Bush! Variações da palavra ‘oração’, foram quatro; ‘bênçãos’ apareceu três vezes nas últimas 150 palavras da fala; ‘deus’, três vezes.

Obama buscou o mesmo efeito de comparável solenidade no discurso de 26/8, em que anunciou o fim das operações de combate no Iraque. Anunciou que a guerra do Iraque “tornara os EUA mais seguros”.  Sem dúvida considerou necessário, no momento em que dava por oficialmente encerrada a guerra, afagar e confortar os soldados e suas famílias, que tanto sacrificaram; mas a necessidade de dar satisfações a qualquer tipo de público é compulsão contra a qual já deveria ter sido alertado, por exemplo, pelos erros de Bill Clinton. Bastaria que um dos assessores lembrasse Obama de que, em setembro de 2007, ele dissera exatamente o contrário: “a guerra do Iraque nos tornou nação menos segura do que éramos antes do 11/9.” O que terão pensado os soldados e suas famílias, ao ler, lado a lado, os dois discursos?

Recentemente, ouvi gravações de algumas das conferências de John Kennedy com a imprensa, e chamou-me a atenção, não o charme pessoal e absoluto controle que tinha sobre os jornalistas, traços de que muito já se falou, mas a agilidade mental e ritmo conversacional das respostas. As respostas de Kennedy são objetivas, claras e detalhadas, e embora vez ou outra acrescente opiniões pessoais, o Congresso é sempre tratado como parceiro com igual poder. Algumas vezes soa irritado, mas nem por isso perturbado. Fala sem interromper-se, expondo a ideia do começo ao fim, mesmo que a ideia lhe tenha ocorrido naquele instante. Quem observe as falas de Obama vê que é sempre lento, formal e que tem dois registros de dicção: um que reserva para interlocutor pressuposto sábio, mas abstrato; o outro para gente bem-intencionada, mas ou muito jovem ou muito velha, incapaz de sobreviver sem ajuda-salvação. No idioma superior, Obama fala de uma “crítica” à política, de “linhas tendenciais”, de modos pelos quais “incentivar” melhor atenção à população e da “priorização” dos passos da assistência governamental para mostrar que “estamos fazendo todo o possível para acelerar a criação de empregos”. É a linguagem do tecnocrata, o homem à cabeceira da mesa de reuniões. No idioma inferior, repetem-se os “o pessoal”,  “gente que se opõe a mim”, “um monte de gente”, intercalados com expressões regionais de apoio conversacional como “quase sempre”.

Em termos retóricos, o mais grave erro de avaliação que Obama cometeu – e causa, pelo menos em parte, do desastre eleitoral de 2/11 – foi supor que conseguiria levar as pessoas a admirar e solidarizar-se com o governo, apesar de o presidente estimulá-las a desdenhar e depreciar a política. Ao pôr-se acima da política, Obama abriu caminho para movimento insurgente que se pôs abaixo da política. Obama faz lembrar Reagan, que sempre falava de “Washington” em tom de assumido desagrado. A diferença é que Reagan sabia tão pouco dos detalhes do governo, que o desprezo pela política soava consistente. Em Obama, a mesma postura é transparentemente postiça, sem autenticidade. Numa democracia como a  norte-americana, e em qualquer governo representativo, qualquer sinal de desprezo pela política faz o povo salivar, na ânsia por remédios drásticos. Mesmo agora, quando deve aos Democratas o voto que pôs fim à carreira de vários deputados e senadores, Obama ainda tenta transferir para “o Congresso” (sem especificar partido) a culpa pelo ressentimento popular.

Burke ofereceu alerta memorável contra essa falácia da antipolítica, em carta publicada em Bristol em 1777. “O que vocês hoje são”, escreveu a um grupo de constituintes, “mais cedo ou mais tarde o Parlamento deve ser. Desejo portanto que vocês, pelo menos, não se deixem enganar pelo estilo, hoje tão comum, de pressupor que todos os parlamentares sejam corruptos. Esse tipo de invectiva generalizada não tem efeito algum, que eu saiba, além de levá-los a menosprezar a própria instituição que, façam o que fizerem, vocês terão de preservar religiosamente. É isso, ou desistam de vez de serem algum dia povo livre. Qualquer manifestação sobre a corrupção indiscriminada da Casa dos Comuns fará com que, no longo prazo, os Parlamentos sejam desprezados”.

Nos EUA em 2010, os Republicanos foram os maiores beneficiários desse tipo de “invectiva generalizada”. A eleição comprovou-o, acima de qualquer dúvida.

Havia esperanças extraordinárias associadas à eleição de Obama. Estão desaparecendo dolorosamente, mas ainda persistem, porque não há alternativa. O Partido Democrata conta com oradores melhores e pensadores que pensam com mais clareza que Obama, políticos dedicados ao trabalho de fazer e de explicar a política: dentre outros, ocorrem-me agora os nomes de Sherrod Brown e Sheldon Whitehouse, senadores respectivamente de Ohio e Rhode Island; ou Ed Rendell, governador da Pennsylvania, o qual tem se referido com bom-humor aos membros do Tea Party como “aqueles miolo-mole”, “malucos” e “doidos varridos”. São políticos que têm o tempero que falta a Obama. Mas nenhum deles é admirado e glamurizado pela imprensa corporativa, como Obama.

Como Obama conseguirá recuperar-se? Vozes da esquerda têm recomendado que procure inspiração em Franklin Roosevelt. FDR também enfrentou crise social grave, e soube liderar o país na travessia para tempos melhores. Mas há uma contradição que impede que Obama siga essa via: Obama nunca mais conseguirá separar-se bem claramente dos banqueiros. O momento para denunciá-los foi fevereiro e março de 2009. Agora, passou. Criticar e por-se repentinamente em posição oposta à que Obama adotou até agora pareceriam reações oportunistas, irracionais. Infelizmente, o presidente Obama vai-se tornando cada dia mais parecido com Lyndon Johnson. Grandes programas sociais são lançados para unir o país no plano interno, criando uma imagem de sociedade com novos padrões de conduta generosa e solidária; ao mesmo tempo, nos bastidores, o presidente e seus generais, aplicadamente, dão andamento a uma guerra herdada, que o presidente soturnamente já reconhece que talvez venha a ser seu legado.

Os Republicanos conquistaram mais de 60 lugares na Câmara de Deputados; são hoje 239 votos, contra 185. É vantagem tanto mais confiável, quanto mais os deputados sabem que vêm para reforçar uma disciplina de partido que lhes dá ares de Partido Comunista dos anos 1940s. Comprometido no Afeganistão, Obama perdeu a chance de propor bela alternativa aos cortes nos programas sociais que os Republicanos com certeza proporão: por que não fechar algumas dúzias das 800 bases militares norte-americanas que há pelo mundo? Tivesse preservado para si essa saída, Obama teria conseguido manter com ele, pelo menos, seus apoiadores mais jovens, os que, desde a primária de Iowa, adotaram-no como candidato pacifista e antiguerra. Mas Obama optou pela via oposta; e se, no plano doméstico, governou como homem da esquerda liberal, sua política exterior mostrou marcada continuidade do que Bush fez. O resultado é que, como se não bastasse ter perdido a confiança dos independentes, Obama começa a perder a confiança também dos Democratas. Pesquisa realizada pela AP dia 30/10, mostrou que 47% do partido espera que surja candidato desafiante nas primárias em 2012.

Parte disso tudo é exaustão. O presidente ocupou todas as ondas de rádio e telas de televisão durante dois anos, e alguma deflação sempre haveria, mesmo que novembro tivesse sido menos terrível. Mas Obama prejudicou o Partido Democrata ao não conseguir nem explicar nem defender seus programas com clareza e paixão, apesar de ter forçado os deputados e senadores a se comprometerem em votações difíceis. Obama parou de defender os próprios programas, porque para ele matéria votada é assunto encerrado. A verdade é que, como o comprova a influência do movimento “Tea Party” sobre o Partido Republicano, a aprovação de uma lei é só o começo. A reforma da Saúde pública, Medicare, e a Lei de Direitos Civis de 1964 só foram ratificadas pelas manifestações populares que aconteceram depois da aprovação formal. Até há dois meses, a resposta mais combativa que Obama encontrara para enfrentar os desafios da oposição foi “Estou esperando para ver que ideias eles trarão.” Mesmo agora, se se pode levar a sério suas declarações, Obama ainda acalenta renovada esperança de encontrar apoio bipartidário depois das eleições. Dia 4/11, Obama disse que esperava que os partidos deixassem de lado as ‘implicâncias’ das últimas semanas.

A verdade é que Obama expôs-se ao pior do que os Republicanos são capazes, por ter adotado tom conciliatório nos primeiros dias do governo. No instante em que pisou na Casa Branca como presidente, disse que não investigaria os feitos do governo anterior. Foi como assegurar a Bush e Cheney pleno indulto por toda e qualquer transgressão conhecida ou suspeita, sob a hipótese de que, depois dos ataques de 11/9, todo e qualquer feito do governo dos EUA seria resposta legal por definição, mesmo que terrível, em contexto de grave emergência, dada por servidores públicos bem-intencionados. Para Obama, imediatamente depois da posse, o indulto talvez tenha parecido gesto de magnanimidade, sinal de não-agressividade, a contrastar com a selvageria do círculo de Cheney. Mas a decisão de começar por implantar a justiça levou a resultado não esperado: nenhuma das pessoas das quais Obama teria muito a temer jamais o temeu ou temerá. Também tornou pouco realista e pouco confiável tudo quanto Obama tenha a dizer sobre seu profundo senso de justiça – justiça que, como Obama sugeriu, deveria ser superior a qualquer “arranjo” para criar melhores condições de governança ou na política nacional. Ao ecoar a ideia de que segredos de Estado teriam prioridade até no caso em que impedissem investigações aprofundadas sobre tortura e maus tratos a prisioneiros, o governo Obama validou o que Bush e Cheney alegaram: que agiram para defender os interesses superiores do Estado. Assim, Obama desperdiçou a única chance que teve para impedir, por vias legais, que aqueles atos continuassem a se repetir.

Se, algum dia, alguém tiver de determinar quando acabou a esperança de que as guerras tivessem fim, evidência crucial a ser exibida serão as  “ordens finais” que Obama ordenou que todos os participantes de sua revisão do Afeganistão, de 2009, aprovassem. O texto, incluído no livro de Woodward, é estranho conjunto de diretivas acordadas, escritas em jargão jurídico, simultaneamente vagas e imperativas. Contratos são contratos porque são cogentes: se um contrato não é cumprido, o próprio contrato prevê medidas legais a serem tomadas, como pena ou para reparação de danos. Aquelas ordens finais são um simulacro de contrato: uma lista de noções que manifestam um  “compromisso” com um consenso que jamais visou obrigar alguém a fazer ou não fazer coisa alguma. Ainda assim, Obama supôs que meras fórmulas verbais reforçariam o acordo que forjara entre Petraeus, McChrystal e Mullen, que queriam guerra total de contraguerrilha no Afeganistão, e Eikenberry, Lute, Brennan e Biden, que queriam o fim do envio de soldados para lá. O palavreado é formal gerencial: “soldados dos EUA no início de 2010, para a finalidade de degradar os Talibãs e fixar condições para transição acelerada”; “alavancar o potencial das forças de segurança locais”; “trabalhar com Karzai no que for possível; contorná-lo quando necessário”; “implementação de um compacto pós-eleitoral”; “priorização de abordagem geral”; “início da transferência da liderança da responsabilidade pela segurança”; “governança infranacional efetiva”. Nada poderia ser menos preciso, mais obscuro, mais contaminado de metáforas e escapismo burocrático. Nenhum dos termos tem sequer traços de objetividade e precisão. Mas Obama defendeu agonicamente cada detalhe da fraseologia; como se entre “degradar” e “romper” [ing. ‘degrade’ (e) ‘disrupt’] houvesse toda uma complexa metafísica da diferença entre paz e guerra; a palavra “transferência” [ing. ‘transfer’] exigiu firma reconhecida de um governador.

Talvez se exija a audácia de De Gaulle na Argélia, ou de Eisenhower na Coreia, para por fim a essa guerra. Difícil imaginar que ato assim firme parta de presidente sem a estatura militar daqueles dois. Mas é preciso considerar, contra a coragem que a retirada teria exigido, todos os riscos da perigosa opção de Obama, na direção de apoiar a minoria militar que exigia a escalada. De fato, Obama fez aumentar o perigo, ao nomear David Petraeus, o general que tem a “melhor mídia” dos EUA, como comandante em campo no Afeganistão e autoridade que supervisionará a revisão da guerra, esperada para o mês que vem. Obama jamais acreditou que faria o que os generais recomendaram. Deve ter pressentido o risco de que arruinariam o resto de seu governo. O discurso ao receber o Prêmio Nobel, que chegou na fase final daquelas discussões, foi, nesse sentido, uma espécie de consolo. Afirmou lá uma visão benigna da política de guerra dos EUA desde 1945 e dos EUA como guardiões do mundo.

A próxima questão a ser enfrentada por um presidente que hoje comanda duas guerras, meia dúzia de superbases, uma embaixada do tamanho do Vaticano e outra que provavelmente será ainda maior virá dos israelenses, sobre o Irã. Obama continua cedendo na direção de ação coercitiva, mas cede lentamente. E tentou obrigar os israelenses a negociar um fim para a ocupação da Cisjordânia e a criação de um Estado palestino. Na cabeça de Obama são dois movimentos claramente relacionados. Republicanos com ambições presidenciais acompanham tudo atentamente. Sarah Palin, mês passado, em West Virginia, deu uma pista de o quanto a questão a preocupa, ao exibir na lapela um broche com as duas bandeiras entrelaçadas, dos EUA e de Israel.

O presidente de quem tanto depende é homem estranho, mais estranho do que qualquer um de nós percebeu que fosse, quando votamos e o elegemos. O momento em que mais se aproxima do que talvez seja é quando ele promete.

TEXTO-FIM
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David Bromwich

David Bromwich é professor de Letras da universidade norte-americana de Yale. Publica críticas e resenhas sobre o Romancismo na literatura, assim como a filosofia e a política no século XVIII. Seus ensaios são publicados frequentemente em revistas inglesas e norte-americanas, como The London Review of Books, The New York Review of Books e The New Republic.

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