Um sombrio campo de batalha

Por Syed Saleem Shahzad, do Asia Times Online (publicado em 20/01/11) | Tradução: Coletivo Vila Vudu

Eventos dos últimos dois anos sugerem que os planos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) de reduzir o número de soldados no Afeganistão esse ano não são o começo do fim das operações de combate. Parecem ser, antes, o início de novo plano que visa a facilitar a participação cada vez mais ampla de aliados regionais como a Rússia e as repúblicas da Ásia Central, na campanha para derrotar a resistência islâmica.

Já há operações de colaboração no Afeganistão entre agentes das equipes de combate ao tráfico de drogas da OTAN e Rússia; e foi bem recebida, em 2008, a proposta do presidente Islam Karimov do Uzbequistão, de que as capitais ocidentais instituíssem um grupo “6+3”, para equacionar os problemas no Afeganistão. Nessa iniciativa se incluiriam países da Ásia Central, os EUA e a OTAN. O Uzbequistão vai-se envolvendo cada vez mais nos projetos de reconstrução no Afeganistão. Tudo isso obriga a pensar num ‘mapa do caminho’ de operações contra o tráfico de drogas no qual se reunirão mais aliados no Afeganistão, acompanhando o processo de redução do número de soldados da OTAN que se inicia esse ano.

O conselho do alto comando dos Talibã na província de Helmand no Afeganistão percebeu esse movimento para envolver os atores regionais e, em resposta, enviou alguns de seus principais comandantes para o norte do Afeganistão de onde, no final de 2001, os Talibã foram expulsos pelas milícias da Aliança do Norte apoiadas pelo exército dos EUA durante a invasão que levou à queda dos Talibã em Cabul. Dentre as cidades-destino, estavam Kunduz, Baghlan e Mazar-i-Sharif.

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A ala internacional da Al-Qaeda, o movimento Jundallah, também preparou estratégia específica para o norte do Afeganistão e as repúblicas da Ásia Central, para fazer gorar ainda no broto qualquer envolvimento mais profundo dos atores regionais.

A resposta dos militantes portanto envolve uma estratégia internacional da al-Qaeda e planos locais dos Talibã nativos, que por enquanto estão separados, mas adiante, em outro momento do processo devem fundir-se. Essa fusão será semelhante à que ocorreu nas áreas tribais que unem Paquistão e Afeganistão, onde três diferentes forças antiamericanas – o tribalismo pró-islâmico, os Talibã e al-Qaeda – inicialmente orientadas para direções opostas, acabaram por fundir-se no que é hoje o neo-Talibã.

Uma nova geração local tribal e outros paquistaneses e afegãos absorveram a ideologia da al-Qaeda e decidiram lutar simultaneamente tanto no plano regional como no front internacional.

Os Talibã decidiram concentrar suas forças do norte na província de Baghlan, por causa da considerável população pashtun, além de tadjiques, uzbeques e hazaras. Os pashtuns foram mandados para Baghlan pelo rei Zahir Shah (que reinou de 1933 a 1973), para constituir ali um corpo de eleitores – que foi agora conquistado pelos Talibã.

A al-Qaeda escolheu Baghlan pela localização estratégica, próxima das repúblicas da Ásia Central, nas quais a al-Qaeda apoia grupos islâmicos locais de oposição, sobretudo no Uzbequistão e na Chechênia.

Sombrio campo de batalha

A estrada de Kabul em direção ao norte atravessa muitos túneis estreitos e escuros nas montanhas, antes de chegar às amplas planícies poeirentas. O céu é de um azul brilhante e, cerca de 200 quilômetros adiante, vimos acima de nós um balão espião. Chegávamos ao nosso destino – a cidade de Qarah Daqa, vizinha da base militar de Baghlan hoje entregue a soldados húngaros.

O Pentágono usa dúzias de balões para atender à crescente necessidade de manter vigilância ininterrupta sobre os guerrilheiros, sempre com câmeras de vídeo. O jornal Army Times citou Ashton Carter, principal agente comprador de armas do Pentágono, que teria dito que os balões equipados com câmeras super potentes são indispensáveis, porque não é possível fabricar com a necessária rapidez grande número de aviões-robôs não tripulados, como os Predators. Os balões espiões são o mais novo exemplo de o quanto os equipamentos-robôs, não pilotados e operados à distância, estão revolucionando a guerra moderna – disse Peter Singer, diretor da “21st Century Defense Initiative”, grupo de pesquisa da Brookings Institution.

Ao nos aproximarmos da base, nosso motorista teve de reduzir a velocidade, porque pelo menos 80 carros-tanques da OTAN carregados com óleo e gasolina estavam chegando à base, passando pelos postos de segurança. Os tanques haviam deixado a fronteira do Uzbequistão nas primeiras horas da manhã, e chegaram a Qarah Daqa, perto da capital Pol-e-Khumri da província de Baghlan, às 2h da tarde.

Os comboios só podem viajar à luz do dia, porque as noites são perigosas demais. São escoltados por guardas de empresas privadas de segurança, mas quando chegam a Qarah Daqa, onde pernoitam, a polícia afegã local também garante melhor proteção contra ataques dos guerrilheiros – além dos balões espiões.

Qarah Daqa é palavra da língua uzbeque, mas a população local – hoje não mais de 1.000 habitantes – são todos pashtuns. A cidade fica a sete quilômetros de distância da capital Pol-e-Khumri e é formada de casas idênticas, todas construídas de tijolos de barro e pedras. As melancias e melões da região são famosos em todo o Afeganistão, pelo gosto doce, típico. Algumas famílias criam gado. Com o cultivo de frutas, são as únicas fontes de renda para os moradores.

Os moradores sabiam de minha chegada e haviam organizado uma hujra – uma espécie de reunião de vizinhos, onde todos se sentam à noite para conversas.

Como se vê em muitas outras vilas em Baghlan, os moradores de Qarah Daqa fugiram para o Paquistão durante os dez anos da ocupação soviética iniciada em 1979, mas mesmo assim tiveram papel ativo na resistência nacional contra os soviéticos. Muitos moradores foram combatentes do grupo Jamiat-e-Islami Afghanistan e lutaram sob o comando de Ahmad Shah Massoud, líder legendário da Aliança do Norte.

Haji Habibur Rahman fala, dando-me boas vindas. É um malik (chefe tribal) e usa turbante branco; destaca-se entre todos os que estão na sala, pelo porte aristocrático.

“No último ano, os Talibã reagruparam-se de modo muito forte em todas as vilas da província de Baghlan” – disse ele, depois.

“Por que voltaram, depois de oito anos?” – perguntei.

“Um mau sistema de justiça, que não funciona, alterou a rotina da vida. As disputas judiciais arrastavam-se por anos. Essa é a principal causa pela qual os Talibã foram bem recebidos” – disse-me Rahman.

E continuou: “Os Talibã jamais chegaram a ser impopulares na nossa área. Saíram daqui porque foram derrotados pelos norte-americanos. Mas eram populares em 2001, como continuam populares até hoje.

“Moulvi Younus é encarregado do distrito de Pol-e-Khumri. É filho de uma das tribos locais. Os Talibã o nomearam governador [sombra] de Baghlan. Ele governa a província com uma shura-e-rahbary [conselho de líderes]. Há representantes em todas as províncias. Todos temos os números dos [telefones] celulares de todos. Se há algo que tenha de ser resolvido, encaminhamos o caso aos representantes, eles se reúnem, resolvem tudo, com rapidez e onde estiver o problema” – Rahman explicou.

Mohammad Islam, bem mais jovem, acrescenta: “[Depois de 2001] Os Talibã partiram para os distritos do sul do Afeganistão, deixaram de se dedicar ao norte do Afeganistão. Enquanto isso, aconteceram duas coisas.

“Primeiro e mais importante, a ocupação estrangeira tornou-se fortemente impopular no Afeganistão. Os professores e intelectuais islâmicos na província claramente declararam que estávamos em guerra, o Islã contra os infiéis. Ao mesmo tempo, os jovens sentiram que o governo esquecera deles, que não havia nenhum projeto de desenvolvimento na província.

“Os Talibã perceberam o que estava acontecendo e o conselho do comando, em Helmand, mandou para cá os comandantes que trabalharam durante alguns meses, até organizar os jovens. Primeiro, Qari Jabbar foi nomeado governador, mas foi assassinado. Agora, o governador é Moulvi Younus.”

Os pashtuns são a classe dirigente no norte do Afeganistão desde o tempo do rei Shah, apesar de serem minoria étnica. Durante o governo dos Talibã (1996-2001) essa posição foi consolidada; mas depois da derrota dos Talibã, os pashtuns não só ficaram sob a dominação dos grupos tadjique e uzbeque majoritários, mas se tornaram suspeitos de colaborar com os Talibã e punidos.

Tudo isso agora mudou. Os moradores pashtuns de Baghlan citam exemplos, ao longo do ano passado, de combatentes uzbeques saídos das áreas tribais do Paquistão, e assassinados em Kunduz e Baghlan, mas não veem aí alguma  tendência, porque toda a oposição na área controlada pelos Talibã é local, e até guerrilheiros do  Hezb-e-Islami Afghanistan de Gulbuddin Hekmatyar foram expulsos.

Sinal de que os Talibã estão no controle é que, das 18h às 6h da manhã, todos as empresas de telefonia celular desligam suas torres de transmissão, porque os Talibã descobriram que, durante a noite, o governo rastreia os sinais de telefonia celular para rastrear os Talibã e seus esconderijos. Se as torres não fossem desligadas, os Talibã estariam sofrendo mais.

O governo afegão, além de países da Ásia Central, sobretudo o Uzbequistão, estão extremamente preocupados com a situação no norte do Afeganistão – e, ao que parece, com muita razão.

Syed Saleem Shahzad é o editor-chefe da sucursal paquistanesa do Asia Times Online e autor do livro Dentro da Al-Qaeda e o Talibã – 11/9 e Além (ed. Pluto, Reino Unido, no prelo). E-mail de contato: [email protected]

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Syed Saleem Shahzad

Syed Saleem Shahzad é chefe do departamento Asia Times Online no Paquistão e autor do livro "Inside Al-Qaeda and the Taliban, beyond 9/11", publicado pela Pluto Press, Reino Unido.