Um leão por dia

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Já vi todos usarem a expressão, e não devemos fazer um campeonato de misérias e ansiedade. Cada um é infeliz à sua maneira

Por Priscila Figueiredo | Imagem: Francisco de Zurbaran, Hercules enfrentando o Leão de Nemeia (1634)

Um de meus irmãozinhos, de quem estive distante por um tempo, talvez toda a vida, um dia me contou, como se fosse uma banalidade: “Mato um leão por dia”. E foi como uma pancada, ou uma luz fortíssima. Conhecia a expressão, sem dúvida, mas não tinha deparado com quem pegasse o boi a unha, para usar outra imagem, isto é, quem a pessoalizasse, a encarnasse, tão assim na cara dura. Boi a unha, cara dura… podia ser um provérbio. Bem, provavelmente tinha deparado, ah sim tinha, mas por alguma razão “as portas do real” não se abriram das outras vezes. Assim era, dia após dia, me contou, e então eu pus a fera, tradicionalmente imaginada e sob as chicotadas do sol, na planície de combate, forrada por arbustos que não crescem já para não formar a acolhedora sombra, como bancos sem encosto nos nossos poucos jardins públicos. Estimei ainda seus músculos e peso, que em alguns casos chega a ultrapassar duzentos quilos. Vi-a aproximar lentamente a enorme cara de meu irmão, cheio de terror e estafa, tomado pela mesma hesitação da véspera — conseguirei? O calor parece mais infernal, o felino talvez mais sagaz ou mais selvagem — um e outro atributo vêm a ser iguais nessa hora extrema — e seu contendor está mais fraco, quase entregando os pontos… Mas eis que vê nascer em si, como tantas vezes, uma força suplementar, chacoalha os ombros e as mãos e então aplica no formidando animal por todas as razões invencível a muito precisa chave de braço de que não se sabia mais capaz — e fazia só um dia que aplicara a última. É que cada novo potente adversário, pelo novo pânico que inaugura, apaga a memória do êxito anterior. Ou a verdade é que essa memória não parece ser de grande ajuda, pois o leão nunca é exatamente o mesmo, embora o pareça, e essa pequena diferença é quanto basta para termos a impressão de estar diante de algo inteiramente novo, de modo que a energia e a inteligência despendida no dia anterior podem não ser suficientes agora.

Como diz o Emicida: “A cada queda no ring, um novo inimigo nasce”. Um filme de terror mais que de boxe. No entanto pode-se deslizar para o drama de cativeiro: “Mas sigo na Babilônia matando um leão por dia”. Daniel na cova dos leões, José no Egito ou na Babilônia – o fato é que a imagem de luta direta com a natureza puxa facilmente todos os cativeiros arcaicos, e a intuição do rapper logo o percebeu. Só pode acalmar os aflitos nesse vale de lágrimas do Velho Testamento a oração, ensinada muito adiante, no Evangelho: “Peço ao pai nosso que me livre do leão de cada dia”. Boa paráfrase, que tem o efeito de prolongar o desespero, pois o leão é bem mais incontornável que as tentações. Livrar-se dele parece coisa possível só no fim dos tempos. Fim dos tempos ou ao menos deste tempo, que já se estende demais, invasivo como um torniquete.

TEXTO-MEIO

O plano era ser feliz, canta o mesmo artista, que conclui: seguimos matando um leão por dia. Quem? Emicida, o Mosca, Dona Santa, a sua quebrada. Meu irmão também.  Zagueiros bem pagos. Os vendedores de seguros, os managers, os publicitários, os motoboys, os advogados empregados. Os biscateiros. A dona da banquinha de bolos na frente do colégio, do posto de saúde, do ponto de ônibus. O bancário, o taxista, o médico de convênio. A manicure, a faxineira. Já vi todos usarem a expressão, e não devemos fazer um campeonato de misérias e ansiedade, não agora. Consideremos neste momento que todos sentem haver um leão, todos sentem uma extraordinária fadiga, muito abatimento, muito constrangimento, venha de onde vier. O leão do manager é o mesmo do Emicida? Ponhamos que sim, pois a imagem selvática da fera vem justamente tirar a especificidade de diferentes trabalhos, braçais ou intelectuais, bem remunerados ou não, chefiados ou autônomos, produtivos ou não-produtivos, prestigiosos ou não. O bicho veio para confundir. Em todas as atividades referidas e certamente em outras a pressão pode ser torturante, e a insegurança é grande: o funcionário de escritório não sabe se a meta do mês, inegociável, será cumprida; o taxista teme não conseguir fechar as contas, pagar a faculdade da filha, a prestação do carro, os dentes novos da mulher e, porque foi tocado desse temor, bota o carro na rua duas horas mais cedo que o habitual até a coisa se regularizar. Quem sabe em dois meses ele possa voltar a sua carga horária normal. Mesmo assim ele prefere não bater ponto nem dar satisfação a chefe. E no meio dessa autonomia toda ele mata um leão por dia. O bancário já prefere a segurança do emprego em registro, e apesar disso segue matando um leão por dia, às vezes dois, arrisco. Não, não sou eu que digo, é o que se começa a dizer. Cada um é infeliz a sua maneira.

TEXTO-FIM
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Priscila Figueiredo

Priscila Figueiredo é poeta e crítica, professora de Literatura Brasileira na USP, autora de "Em busca do inespecífico" (Nankin, 2001), sobre Mário de Andrade, e "Mateus" -- poemas (Bem-te-vi, 2011).

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