Um diálogo sobre a liberdade

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Crônica de conversa com F.M., filho abastado da elite financeira paulistana convertido, pelas ruas, em anarquista, filantropo e Ninja

Por Andressa Pellanda | Imagem: Leo Eloy, do SelvaSP

“Cheguei aqui em baixo, como faço para subir?”, enviei no celular. Depois de dois minutos na frente do prédio, com o porteiro me encarando pela janelinha da portaria, recebo uma resposta: “de elevador”. Um misto de riso e raiva me tomou por alguns segundos, até eu receber uma nova mensagem, me indicando que o porteiro, na verdade, já tinha sido avisado da minha vinda.

Subi os inúmeros andares daquele prédio da Avenida Paulista, me perguntando o que me aguardava. Toquei a campainha e uma mulher atendeu: “Você veio falar com o F.M., não é?!”. Confirmei com a cabeça e me sentei no sofá escuro, de frente para a porta-janela. Entreaberta, escancarava uma vista rubra indescritível da São Paulo ao entardecer daquela quarta-feira de primavera.

TEXTO-MEIO

Falava ao telefone. Logo me vieram os detalhes que primeiro me chamaram a atenção nele. Estava sentado na carteira, na aula de ciência política, com seu celular – tecnológico e branco – plugado na tomada, carregando. Um adesivo em preto-e-branco revelava: “Ninja”. Só acreditei depois da confirmação: “Você é mesmo mídia Ninja?!”. Eu nem sabia como denominar. “Sim, sou colaborador”, respondeu. “Você me daria uma entrevista?”, perguntei surpresa. “Posso falar de mim como ativista”, concordou. E foi assim que fui parar ali, umas semanas depois. E foi ali que conheci essa pessoa, no mínimo, interessante.

Ao dar uma volta rápida pelo terraço, sentindo aquele mar de prédios, de gente, de coisas acontecendo em volta e abaixo de mim, várias peças já foram se encaixando. Aquele ângulo era, mesmo, privilegiado. Entramos na sala ao lado, sentei à mesa, ele no parapeito da janela. “Se importa se eu fumar?”, perguntou. Fiz sinal negativo com a cabeça. A postos, pedi para que começasse do começo.

7 de maio 1955. Seu avô materno era citado no Correio da Manhã, em uma nota sob o título “Diretório Paulista do PSB”, que anunciava novos postos dentro daquele partido socialista. Seu nome vinha precedido de “primeiro tesoureiro”. Vieram, nove anos depois, os tempos de chumbo. O avô foi preso seis vezes nesse período. A democracia restaurada, voltou para seu sítio, com o nome da família alemã: “Sítio Minha Montanha”.

Ao seu outro avô – apesar de levar o mesmo primeiro nome que o socialista – não aprazia ver seus parentes de barba já que, dizia, “isso era coisa de comunista”. Enquanto diretor da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), aumentou exorbitantemente os lucros da entidade, sob o mito de economizar até a luz do corredor. Dos filhos dessas duas figuras nasceu F.M. que, em suas próprias palavras, era “um playboyzinho de merda”.

Sua característica “de merda” permaneceu até o dia 22 de abril de 2000. O Brasil comemorava seus cinco centenários. A Rede Globo, para a ocasião, presenteou os brasileiros com relógios de contagem regressiva, desenhados pelo estrangeiro Hans Donner. Naquele dia, manifestações cercaram os relógios comemorativos pelo país. “Não teve como eu não me envolver com a política de rua, porque os protestos passavam na minha porta”, começou.

F.M. morava perto da avenida Faria Lima, onde ficava um dos dois relógios de São Paulo. “Lembro de escutar de casa : ‘Fora já, fora já daqui, o FHC e o FMI!’. E eu queria entrar lá no meio para ver o que estava acontecendo.” Mesmo sem entender o que sucedia, teve o ímpeto de participar daquilo. E resolveu ir, pela primeira vez, para a rua. “Eu fui lá, joguei pedra na polícia, quase quebrei o pé porque fui chutar o relógio. Estava achando tudo aquilo o máximo. Até cheguei a me apaixonar por uma punk linda. Eu era moleque, né?!”. Tinha 18 anos e foi a primeira vez também que tomou contato com o Choque. “Mais aí eu voltei pra casa”, ressalvou.

“Eu me identificava muito com a rua”, me disse F.M. com o olhar convicto. Ao que acrescentou: “acho que sempre tive uma veia meio de sociólogo”, explicando que, para ele, isso significa sair para ouvir as histórias das pessoas. Pessoas que não fazem parte de seu círculo social. Ao que continuou: “até porque eu sou um playboyzinho de merda”. Voltou seu rosto para mim, com um olhar de simplicidade: “Queria perceber essas pessoas, de igual pra igual”.

Pouco tempo depois, mudou-se para a Espanha, onde permaneceu por quatro anos. Durante cerca de um mês deles, viveu em uma ocupação, virou um “perroflauta” – designação dada pelos espanhóis a moradores de rua, que vivem em grupo e com seus cachorros, e possuem um estilo de vida de poucos bens. Acabou parando lá por conta de um amigo malabarista que ali morava na época. Não escreveu, nem filmou, nem registrou nada. “Eu tenho essa maluquice na minha cabeça. Pra mim, prender as coisas com a câmera faz você perder a visão do que você está vendo”. Foi assim que F.M., então redator publicitário, tomou contato com esse sistema de autogestão e de pouco consumo, que apesar de “não se poder chamar de anarquia”, é um novo modus operandi.

Ao trilhar o caminho de Santiago de Compostela, olhou para dentro de si e elaborou uma resolução decisiva: “eu resolvi que nunca mais ia pensar para vender sabonete”. Voltou para o Brasil e refez sua vida. Dessa vez, foi morar mais próximo à Avenida Paulista e tornou aos protestos. “A manifestação está passando na porta da sua casa e você fecha a porta? Não é possível que você seja tão insensível assim”, enfatizou.

Foi na manifestação “Fora Feliciano” que conheceu grupos anarquistas com os quais dialoga até hoje. Começou, então, a ligar seus “radares para o ativismo de rua”. Durante as manifestações de junho viu, da sua janela, as arbitrariedades das forças do Estado. “No quarto ato, na quinta sangrenta, eu não aguentava mais ver os caras apanhando e quis sair para ver o que estava acontecendo”. Quando colocou o pé pra fora de casa, sua primeira visão foi a de um policial militar da tropa de choque jogando uma bomba de gás lacrimogêneo ao seu lado. “Puta que pariu! Que merda é essa?!”, reagiu, dando a volta no quarteirão, de volta à sua casa.

A rua não era o único espaço de embate do qual F.M. participava de forma cada vez mais intensa. “Meu Facebook era cheio de gente que falava pra dar borrachada nesses moleques. Eu falava ‘tem gente que está tentando fazer alguma coisa pra mudar a sociedade e você fica aí andando de carro blindado e mandando descer o cacete na pessoa?!’.” Ansioso e irritado, enchia os posts do Facebook com comentários ardentes.

As manifestações, cada vez mais frequentes em seu cotidiano, trouxeram-lhe uma nova resolução: iria usar seu capital excedente para ajudar esses ativistas. “Seja da causa LGBTT, seja da causa dos japoneses, seja da causa dos cachorros”. Resolveu nomear isso de “filantropia política” e assim o fez. Entrou em contato com membros de movimentos sociais e de grupos ligados às manifestações, para oferecer aportes financeiros. “Os caras me ligam dizendo que precisam imprimir 500 lambe-lambes e eu vou lá e pago os lambe-lambes”.

Foi em um momento de revolta em uma das manifestações que resolveu, então, virar Ninja. “Eu estava acompanhando o Carioca no dia em que ele foi preso, no Rio de Janeiro, arrumei o telefone do Torturra, entrei em contato, e virei um Ninja”, contou, transparecendo sua animação e contando que fica conectado 24h. “Realmente, só falta plugar um cabo na sua cabeça”, pensei comigo mesma, lembrando de seu hábito de carregar o celular todas as aulas e de seus posts sem horários nas redes sociais. Sua primeira cobertura foi no dia 26 de julho, dia em que onze agências bancárias foram depredadas.

“Foi muito violento, me senti praticamente estuprado”, definiu para mim F.M., ao falar de seu primeiro contato com a tática black bloc. Confrontou-se com um deles, perguntando os motivos da depredação do patrimônio. “Sua resposta me quebrou: ‘Aqui, os bancos funcionam, os orelhões funcionam, os faróis funcionam. Onde eu moro, o banco não funciona, o orelhão não funciona, o farol não funciona, e eu ainda apanho à noite porque eu sou negro. É a minha hora de devolver para o Estado o que ele nunca me deu”. Foram alguns segundos de silêncio antes de ele continuar, com afinco, a história. Olhando para meu papel, disfarcei o olhar marejado.

Contava da sua aproximação, aos poucos, com aquele grupo e de sua cada vez mais profunda compreensão sobre aquele movimento, que acabou por chamar de “revolução” durante a entrevista. “Eles querem fazer as pessoas entenderem que existe uma sociedade alternativa que quer ter os seus direitos, que quer viver sem moedas, sem polícia”, esboçou a explicação.

“Mas o que são ‘ativistas’?”, perguntei, percebendo a palavra repetitiva em seu vocabulário. “É qualquer pessoa que tenha o dom da transformação social”, respondeu sem titubear. “Mas é só o dom?”, indaguei na lata. “A palavra certa não é ‘dom’… Como se fala quando se faz muito bem uma coisa? Talento!”. Explicou que sua definição de ativismo engloba o talento para a transformação social através da política. “Para o ativismo acontecer, você precisa de ação, de articulação, do trabalho de base, e da mídia”, concluiu F.M., como se explicasse uma tese.

Descrente na mídia hegemônica e com o intuito de unir os pilares de seu conceito de ativismo, criou, juntamente com um grupo de pessoas, o Motins. Talvez sem perceber, o “contar do começo” sua história de ativismo finalizou na explicação desse novo projeto. Trata-se de um veículo de mídia que, além de noticiar acerca da “política das ruas” e dos “movimentos de transformação social”, quer ser um meio de educação e orientação para esse ativismo.

“O Motins é um meio de educar as pessoas para, entre aspas (sic), o ‘ativismo político’ e para, entre aspas também (sic), ‘viver nas franjas da lei’, em prol de algo maior, em prol de um discurso, em prol de um controle de lead“, delineou. Sua ideia é que, juntamente às postagens noticiosas, sejam publicadas sugestões de ações sobre o tema, que rendam cobertura midiática, dando capilaridade àquele ativismo.

Perguntei de onde surgiu o nome. “Movimento Transmidiatico de INteligência Social”, respondeu. “Mas Movimento Organizado de Transformação INterpeSsoal é mais bacana”, acrescentou, explicando que gosta de inventar siglas. “Não é que a ideia partiu disso, só é mania minha ficar criando siglas”, acrescentou, burlesco que é.

O sentido da liberdade

“É meio romântico”, iniciou sua resposta à minha indagação sobre o sentido para sua vida do que me contara até ali. Muitas ideias, palavras, frases e até certas emoções boiavam em mim depois de quase duas horas de conversa e tanta informação junta. Cheguei até a me aprumar na cadeira, esperando a conclusão.

“Eu sempre senti que me faltava alguma coisa. Eu nasci com um privilégio que, por muito tempo, foi pesado nas minhas costas. Sempre me senti culpado. Eu não consigo passar por um mendigo que está no frio e não dar um casaco para o cara. Sempre me senti na obrigação de devolver isso para a sociedade. E o que eu ando fazendo tem… – titubeou – tem me dado muito prazer”. “É mais uma coisa de troca?”, perguntei. “É mais uma coisa de troca”, concordou, nu e cru.

Dizia Locke que a liberdade parte do indivíduo. Já para Bakunin, “somente no seio da sociedade e mediante a atividade comum de toda a sociedade e o homem se converte em homem, chega a ter consciência e também, a possibilidade de realizar toda a sua condição humana (…) assim pois, a liberdade não é em absoluto questão de isolamento, mas, pelo contrário, de integração. (…) Essa minha liberdade, que desta forma me é confirmada pela liberdade de todos, entende-se até o infinito”.

TEXTO-FIM

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Andressa Pellanda é jornalista e atua em organizações da sociedade civil. É membro da Campanha Nacional pelo Direito à Educação e da Aliança pela Infância. É correspondente no Brasil do Le Journal International.

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