Tudo na vida é passageiro

Chéri à Paris relata como um pequeno entrevero pode se transformar em amizade elogo depois—novamente em briga na capital francesa

Por Daniel Cariello*, Chéri à Paris

Francês adora discutir, mas detesta perder a classe.

– Táxi!

TEXTO-MEIO

– Ei, ele é meu.

– Não, é meu, eu vi primeiro.

– Você viu primeiro, mas fui eu que chamei antes.

– Você chamou antes, mas eu já pensava em chamá-lo há tempos, mesmo antes dele aparecer. Táxi em Paris é tão raro quanto um sorriso.

– Agora é tarde, é meu.

– Eu não vou sair da frente.

– Ah, vai sim. Senão eu bufo.

– Pois eu sei bufar também, ó: buffff.

– Se é assim, eu digo: você é chato!

– Oh!

– E repito: chato, cha-tão!

– Pois prepare-se que agora vou te ofender pra valer.

– Estou preparado.

– Você é um limitado.

– E você é um tolo.

– Tolo, eu? Melhor do que ser um inútil.

– Prefiro ser inútil do que um bobalhão como o que vejo na minha frente.

– E eu…

– Ei, olha, aquela mulher acabou de entrar no nosso táxi e ele arrancou. Foi embora.

– Zut.

– Buffff.

– Outro táxi a essa hora vai ser impossível.

– Vai mesmo.

– Não tenho mais escolha, vou voltar pra casa andando, sob a chuva.

– Pra que lado você vai?

– Bastille.

– Vem aqui, vamos dividir meu guarda-chuva. Eu vou pro mesmo lado.

– Merci. Você até que é um cara bacana.

– Você também é gentil. Ao contrário daquela senhora sem classe que roubou o meu táxi.

– Seu? Era meu.

– Coisa nenhuma, eu vi primeiro.

– Viu, mas fui eu que chamei.

– Chamou de metido que é, pois eu pensei em chamá-lo antes.

– Você é mesmo um bobo.

– Pelo menos não sou besta.

– Ei, estúpido, não mexe esse guarda-chuva, tô me molhando.

– Quieto, reclamão.

——–

(*) Daniel Cariello, editor da revista Brazuca, é colaborador regular do Outras Palavras. Escreve a coluna Chéri à Paris, uma crônica semanal que vê a cidade com olhar brasileiro. Os textos publicados entre março de 2008 e março de 2009 podem ser acessados aqui

TEXTO-FIM
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Daniel Cariello

Daniel Cariello é colaborador de Outras Palavras e, antes, do Diplô Brasil, desde 2008. Já lançou dois livros de crônicas, Chéri à Paris (2013) e Cidade dos Sonhos (2015), ambos best sellers na Amazon. Foi cronista de Veja Brasília e Meia Um. Este texto faz parte de seu novo projeto, Cartas da Guanabara, com crônicas cariocas. É editor do selo literário Longe.

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