Tenderhacker: Piratarias de gênero

Por Dolores Galinho e Fabiane Borges

Em 2003, S., então presidente da associação de travestis de Mato Grosso, morre em função da aplicação de silicone líquido – industrial – no tórax . Em 15 de julho de 2008, a travesti lavradora mato-grossense B. também vem a óbito pelo mesmo motivo.

Trajetórias que adquirem visibilidade ao modo infame, isto é, quando interceptadas por aparatos de poder-saber, neste caso: o dispositivo médico (internação, diagnóstico), legal (autópsia, inquérito policial) e espetacular (notícia).

B. e S. morrem no afã da posse de seios fartos. Acessamos suas vidas por meio de notícias esparsas fixadas na internet, esta é a versão circulante. As notícias curtas fazem falar e ver: – atravessam territórios estriados e as atam a minha trajetória. É difícil instituir resistências em meio a um poder-corpo: Que fácil seria, sem dúvida, desmantelar o poder se este se ocupasse simplesmente de vigiar, expiar, surpreender, proibir e castigar, mas não é simplesmente um olho nem uma orelha: incita, suscita, produz, obriga a agir e a falar. Para cada configuração de saber-poder, corpos são configurados – o corpo heterossexual, do condenado, do/da hermafrodita. Como sondar e viabilizar resistências e saídas no próprio campo dos condicionantes, das múltiplas conexões que nos enredam?

S. e B. performam por meio da manipulação precária de uma substância, o silicone. Enfrentam-se a políticas diluídas, imiscuídas, no orgânico – não há inimigos externos, nem tampouco, alianças às claras. É um jogo farmacológico e químico – uma ficção somática — não porque deixe de ter realidade material, mas porque se constitui por repetições performativas de processos de construção política. Se na prisão, imagem emblemática dos dispositivos disciplinares, o controle é ortopédico, na sexopolítica contemporânea o controle se dá de modo aberto, contínuo por meio de uma farmacopéia. Na dose certa, remédio; em excesso ou ordenação adversa, veneno.

TEXTO-MEIO

A leitura das notícias conduz a um agenciamento sócio-técnico permeado de seringas, cola rápida ou esmalte de unha para fechar o ponto de incisão, toalhas borradas e à circulação clandestina de um material sintético – um código político de acesso. O espaço para reconversão dá-se no corpo, mais precisamente, sob a pele. O silicone transpassará a pele, como esclarecem as distintas advertências médicas. Precariamente, S. e B. pirateiam políticas de gênero.

O termo pirataria remete à reapropiação – perversão de fluxos de mercadorias nos mares – muito além da classificação jurídica como roubo. Pirataria de gênero, por sua vez, remete à reconversão ativa de códigos bio-normativos. No movimento de software ou cultura livre, que ganha força no final dos anos oitenta, piratas são alçados a figuras de borda capazes de desestabilizar as codificações que restringem a circulação de conhecimento. Ao invés do copyright (direito autoral e propriedade intelectual), o copyleft (livre distribuição de conhecimentos desde que sem finalidade lucrativa). Por deslocamento e trocadilho, à expressão todos os direitos reservados, opõe-se a expressão todos os direitos invertidos. Como paródia, o ícone do copyright é invertido, o “C” passa a ser grafado da esquerda para a direita.

Eu não quero morrer, só quero ser outro, eu não quero morrer, só quero outro corpo, sem seios e sem pelos, com seios grandes e pernas peludas, com cara de vaca, quero ser hermafrodita, quero ter três genitálias, quero me parecer com um ET e extirpar todo e qualquer órgao sexual, eu não quero morrer. Quero ter testa com chifres e um rabo longo de jacaré, eu não quero morrer, só quero ser outro. Copylefty de gênero, quero outro nome, você me ajuda doutor?

Passemos a uma segunda pirataria de gênero.

Em outubro de 2006, Beatriz Preciado, teórica queer, professora universitária, que divide seu tempo entre Paris, Estados Unidos e Espanha, dá início ao uso de testosterona em gel por meio de um protocolo doméstico, o que resultará na escrita do livro Testoyonqui, publicado em 2008. Ela escreve: “Eu pertenço a este grupo de usuários da testosterona. Somos usuários copyleft: quer dizer, consideramos os hormônios como biocódigos livres e abertos, cujo uso não deve estar regulado nem pelo
Estado, nem pelas companhias farmacêuticas. Como se tratasse de uma droga pesada, espero estar sozinha em casa para prová-la”.

Hormônios, do grego horman, excitar, por em movimento. Em 1905, lembra Beatriz Preciado, concomitantemente à escrita dos Três ensaios sobre a sexualidade, de Freud, Starling e Bayliss, aprofundavam a compreensão do indivíduo moderno como um entramado de substâncias que percorrem circuitos – emitem, receptam, decodificam informações bioquímicas. Na auto-intoxicação voluntária de testosterona, passamos a uma pirataria de gênero que opera em um nível distinto do silicone – contesta os controles hormonais sobre o corpo.

Se na ortopedia disciplinar, a vigilância dá-se por meio do isolamento em celas, agora cada corpo passa a ser uma cela. O dispositivo (circular) da pílula marca o compasso da administração diária – relógio em miniatura a marcar o tempo por meio da administração medicamentosa. A experimentação sobre a alma humana pode se dar no precioso lugar do corpo individual, sob a supervisão do próprio indivíduo e em benefício da emancipação sexual do corpo controlado.

Acerca do protocolo de auto-administração de testosterona, Beatriz Preciado salienta que tomar testosterona não muda o sexo, pode modificar (a depender da dose), o modo como o gênero é codificado sexualmente. Não vou dizer que sou igual a vocês, que me deixem participar das suas leis, nem que me reconheçam como parte da sua normalidade social. Mas que aspiro a convencê-los de que são, em realidade, como eu. Estamos tentados pela mesma deriva química.

As piratarias de gênero que mencionei ao longo da fala de hoje (uso de silicone, hibridação entre corpo e aparatos obsoletos bem como o uso de testosterona fora dos protocolos médicos) adquirem sentido num contexto no qual o corpo é uma linha privilegiada de subjetivação. No contexto das biosociabilidades contemporâneas [isto é das sociabilidades que emergem da relação entre capital, biotecnologias e medicina], tais agenciamentos operam em contraponto às práticas voltadas à normalização e obtenção do corpo e saúde perfeitos.

Nas práticas bioascéticas – apolíticas e individualistas – perdemos o mundo e ganhamos o corpo. No caso das piratarias de gênero, não se trata de personalizar o corpo por meio de novos aditivos, mas de desterritorializá-lo. A apropriação queer da performatividade parodia e expõe tanto o poder vinculante da lei heterossexualizante como a possibilidade de expropriá-la. O corpo, nas auto-experimentações fora dos protocolos médicos, adquire sentido na justa medida em que se liga a outros corpos e, mais propriamente, às políticas de construção. O aparato corporal, longe de ser uma superfície, é resultado de processos de materialização e negociações tensas sobre suas fronteiras.

Assim, aos contornos da definição de pirataria de gênero, acrescentamos a inversão de códigos, uma segunda característica, também derivada das contaminações entre políticas queer e de cultura livre – o compartilhamento e logo, o inacabamento. Não há alternativas subversivas para “além”, “fora” ou “antes” do poder. No compartilhamento incessante há cópias e cópias, não havendo um original no qual possa ser buscada a razão de ser das modificações sucessivas. Como lembra Butler, o queer é para o hetero não o que uma cópia é para o original, mas em vez disso, o que uma cópia é para uma cópia.

REVERSÃO DE CÓDIGOS (pirataria) e COMPARTILHAMENTO (inacabamento) –
Abertura aos padrões de códigos médicos, genéticos, o acesso livre aos meios de produção do próprio corpo. Compartilhamento de experiências laboratoriais proliferação de saberes sobre nosso próprio código-fonte. Éticas convergentes debatidas coletivamente. linhas por meio das quais é possível fazer proliferar a contaminação entre políticas queer e copyleft.

TEXTO-FIM
The following two tabs change content below.