Amargo regresso a uma comunidade miserável

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Com enorme força dramatúrgica e criatividade ímpar, “Krum” expõe sufocante mediocridade de seres humanos prisioneiros de uma vida sem escolhas

Por Wagner Correa de Araujo

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KRUM está em cartaz no Rio de Janeiro (breve, em São Paulo): de quinta a domingo, às 20h, no Oi Futuro Flamengo (Rio). Temporada curta: até 26 de abril. Endereço: Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo (Metrô Largo do Machado).

“Eu deveria quem sabe agora deixar cair uma lágrima por causa dessa espécie infeliz”. Quando um dos personagens profere esta frase, com seu cortante niilismo, é como se estivéssemos a escutar Schopenhauer: “O destino é cruel e os homens dignos de compaixão”.

Ansiedade, alienação, tédio, miséria, perpassam assim por todos os seres que povoam esse pequeno, sórdido e absurdo universo de Krum. Este texto dramatúrgico, do autor israelense Hanoch Levin (1943-1999), é completado na simbologia de seu subtítulo – “Ectoplasma, peça com dois casamentos e dois funerais”.

A resignação, disfarçada pela ilusória perspectiva de mudanças, aproxima-os irremediavelmente de uma postura filosófica de auto negação, no eterno retorno do fim que não leva ao nada. Aqui a difícil condição de suportar a condição humana não conduz a qualquer espécie de felicidade ou legado.

TEXTO-MEIO

O anti-herói Krum (Danilo Grangheia) retorna à casa materna com um mala de roupas sujas, mãos vazias e nada mais. Sua vã tentativa de escapar da sufocante mediocridade de uma comunidade provinciana coloca-o, novamente, diante desses habitantes / prisioneiros da ausência de escolhas oferecida pela vida.

E em confronto com a mãe (Grace Passô) ecoando seu insistente jargão de cobrança ao filho – “O mundo só tem isso para te dar” – e também de sua antiga amante Tudra (Renata Sorrah), que expõe com palavras e canto, este em alemão, a poesia amarga de sua dilacerada intimidade, em exponencial atuação.

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Qualidades interpretativas presentes ainda no enfermiço Tugati (Ranieri Gonzalez) e sua mulher Dupa (Inez Viana) que troca a frustração matrimonial por uma fugaz e fria aventura sexual com Bertoldo (Rodrigo Bolzan). Ao lado do caráter risível de um casal, fazendo o falso intelectualismo de Dolce (Edson Rocha) esconder as vulgaridades de Felicia (Cris Larin), em meio ao cerimonial de casamentos e funerais.

Enfim, uma simbiótica orquestração estética de performances, tendo no podium teatral a carismática regência do diretor Márcio Abreu. Aqui, entre solos e conjuntos, sob os precisos efeitos blackouts da iluminação claro/escura (Nadja Naira), recatados figurinos (Ticiana Passos) e décors teatrais (Fernando Marés), propícios sobremaneira a este painel dostoievskiano de humilhados e ofendidos.

Destaque ainda para a expressiva gestualidade (Márcia Rubin), em especial na grotesca mecanicidade da discoteca, e para as preciosas interferências sonoras de ruidosos tremores como “ectoplasmas”, intermediados pelos cantos a capela do elenco, entre o romantismo, o sacro e o pop/rock (Felipe Storino).

Tudo enfim convergindo palco / plateia para uma melancólica catarse, perante a imobilista indiferença de uma sociedade cruel em que o ato de “viver é muito perigoso” sempre, e onde com a morte: “Você não vai perder nada, Tugati, pode acreditar. Olha bem pra gente, olha pras nossas vidas, olha pras nossas casas…”

TEXTO-FIM

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Wagner Correa de Araújo

Jornalista especializado em cultura, roteirista, diretor de televisão, crítico de artes cênicas. Dirigiu os documentários "O Grande Circo Místico" e "Balé Teatro Guaíra 30 Anos" . Participou como critico e jurado de festivais de dança e cinema, no Brasil e na Europa.