Taxi Driver, cinema profético

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Volta, quarenta anos depois, filme que expõe desamparo do indivíduo diante de um mundo hostil, em que as velhas referências familiares, sociais e políticas caducaram. Para Travis, o personagem, saída é violência. Mas e se houver outros caminhos?

Por José Geraldo Couto, no blog do IMS

Martin Scorsese realizou obras marcantes em vários gêneros, do drama de época à releitura bíblica, da comédia surrealista ao thriller, do musical ao filme de gângsteres. Mas ficará na história do cinema sobretudo por duas obras-primas incontornáveis: Taxi Driver (1976) e Touro indomável (1980), ambos protagonizados por Robert De Niro.

Taxi Driver, que volta aos cinemas brasileiros em “cópia nova” (expressão que é um paradoxo em tempos de projeção digital), não perdeu nem um pouco do frescor e da contundência. Pelo contrário, a saga suja do taxista solitário que se arvora em anjo exterminador para “limpar a sujeira do mundo” parece hoje ainda mais atual do que na época em que surgiu.

Conjunção de talentos

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Foi um desses casos da história do cinema em que tudo parece ter-se encaixado à perfeição: do roteiro de Paul Schrader (o primeiro de uma profícua parceria com o diretor) à surpreendente escalação da atriz-mirim Jodie Foster como prostituta, da fotografia “quente” de Michael Chapman à música envolvente de Bernard Herrmann (a última que compôs), da ambientação noturna numa Nova York infernal à soberba atuação de De Niro.

Como em quase todo grande filme, entrelaçam-se nele várias dimensões: a psicológica, a política, a social, a moral e, em última instância, a espiritual. Uma visão de mundo e, ao mesmo tempo, uma visão de cinema.

É curioso que essa ambígua e inquietante parábola tenha resultado da parceria entre dois homens marcados por uma profunda formação religiosa: o calvinista Schrader e o católico Scorsese. Desde as imagens dos créditos de abertura – um táxi amarelo emergindo lentamente da bruma e das trevas – sabemos que o drama que acompanharemos se desenrolará ao mesmo tempo numa cidade muito concreta – a Nova York dos anos 1970 – e num outro território, que pode ser chamado de metafísico, moral ou espiritual.

Como em vários filmes de Scorsese, trata-se de uma descida aos infernos seguida de uma redenção irônica e duvidosa. No caso, sem querer estragar surpresas (afinal, a obra tem 41 anos de idade), a queda é de um jovem ex-fuzileiro naval, Travis Bickle (De Niro), que não consegue dormir e, por isso, emprega-se como taxista no período noturno. Ignorante, sem perspectivas, movido por confusos conceitos patrióticos e religiosos, ele se enoja com a “escória” que povoa as ruas nova-iorquinas, apaixona-se por uma assessora de senador (Cybill Shepherd), tenta salvar uma ninfeta da prostituição e das drogas.

Profético

Visto retrospectivamente com os olhos de hoje, Taxi Driver impressiona por sua qualidade profética, por ter detectado em seu contexto histórico pulsões e neuroses que só fariam crescer nas décadas seguintes: a alienação do indivíduo urbano bombardeado por mensagens político-publicitárias; o apelo fácil do moralismo repressor, da xenofobia, do racismo; a tentação da justiça com as próprias mãos, ou antes, com as próprias armas; o culto às celebridades, sejam políticos, esportistas ou assassinos psicopatas.

O mais interessante é que não é um filme perfeito, no sentido de obra precisa, “redonda”, sem desequilíbrios ou pontos sem nó. Há uma deliberada “sujeira” na incorporação de elementos casuais da vida urbana, e um desajuste estético flagrante entre as cenas diurnas e as noturnas. O próprio Scorsese, em entrevistas posteriores, reconheceu como discutível a opção de abandonar em alguns momentos o ponto de vista do protagonista – por exemplo, numa conversa entre funcionários do comitê de campanha do senador, ou no diálogo íntimo entre a prostituta mirim e seu cafetão (Harvey Keitel).

O diretor aparece em cena duas vezes: a primeira numa breve cameo appearance à maneira de Hitchcock, como um cabeludo meio hippie na  calçada por onde passa, vaporosa, a personagem de Cybill Shepherd; na segunda, ele é o passageiro engravatado que vai de táxi até o prédio onde sua esposa está com o amante negro. Esta última participação – que se choca com a primeira – foi uma solução de última hora, pois o ator escalado teve problemas de saúde e o próprio Scorsese precisou substituí-lo. Sua atuação é passável.

Chama a atenção também, a par da atualidade do tema e da abordagem, a inventividade de certas soluções de mise-en-scène e construção visual, como na sequência em que Travis chega à garagem de táxis e a câmera se afasta dele, num giro de 180 graus pelo ambiente, para depois reencontrá-lo em outro ponto. Em várias outras passagens há esse movimento de afastamento e aproximação ao protagonista, construindo uma espécie de “discurso indireto livre” análogo ao da literatura. Nesse aspecto, talvez a narração em off por Travis seja uma redundância desnecessária, uma muleta dispensável – apesar do sugestivo tom de filme noir que ela introduz.

Sequências antológicas

Algumas sequências ficaram célebres: Travis falando sozinho diante do espelho (“Are you talking to me?”), o banho de sangue final nas escadas e corredores de um hotel sórdido e mal iluminado, o lento plano em câmera alta, vertical, revelando o que restou da apoteose de violência.

Se em sua época o filme recebeu leituras apressadas e burras, que viam seu protagonista como um herói vingador da estirpe de Dirty Harry ou do Charles Bronson de Desejo de matar, hoje fica mais clara a visão ao mesmo tempo crítica e compassiva da dupla Schrader/Scorsese: compaixão pelo personagem em sua solidão e alienação, crítica incisiva à sociedade que produziu – e continua produzindo – imbecis perigosos como ele. Se Travis Bicker vivesse hoje, certamente seria eleitor de Donald Trump – ou de Jair Bolsonaro.

 

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.

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