Sonham os androides com carneiros elétricos?

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Rachael, a replicante de Blade Ranner

Onde se fala de maçãs, repressão e suicídio e se relembra o óbvio muitas vezes esquecido: foi preciso uma serpente para nos dar a vida

Crônica de Nuno Ramos de Almeida, do Jornal I, em Lisboa

Numa cidade abafada pelo brilho poluente dos neons, um homem testa uma mulher. São 30 perguntas. As respostas são escrutinadas eletronicamente, através da dilatação da íris da interrogada. O teste Voight-Kampff é usado para perceber a humanidade das pessoas e entender a diferença que separa um ser humano de uma criatura com inteligência artificial. Voight-Kampff nunca existiu: é uma criação do escritor Philip K. Dick, no seu livro Do Androids Dream of Electric Sheep?, que foi adaptado ao cinema por Ridley Scott com o nome de Blade Runner.

Mas se o autor com nome germânico é do simples domínio da ficção, o teste baseia-se no teste de Turing, criado por Alan Turing e divulgado em 1950 num artigo com o título “Computing Machinery and Intelligence”. O famoso texto começa com esta frase: “Proponho a seguinte questão: podem as máquinas pensar?”

Se as máquinas pensassem, poderiam ser humanas, como afirma Descartes no seu “penso, logo existo”. E o que define esta humanidade? Sobre as máquinas, não há certezas, mas sobre certos humanos, a vida de Turing mostra que eles não pensam e menos ainda são humanos.

Alan Turing matou-se com uma maçã envenenada. Injetou-lhe cianeto e deu-lhe uma dentada. Parece que gostava da história da “Branca de Neve”. Mas morreu como a humanidade começou na Bíblia, quando Adão e Eva comeram a maçã proibida da árvore do conhecimento e descobriram o sexo, a morte, a diferença entre o bem e o mal, o livre arbítrio e o conhecimento. O que levou um gênio que não tinha feito 42 anos a matar-se, no dia 7 de Junho de 1954?

O ser humano genial que tinha lançado as bases da inteligência artificial, que tinha ajudado os aliados a derrotar a Alemanha nazista, ao descobrir a chaves do sistema de encriptação das comunicações alemãs, o Enigma, e que lançou as bases do Colossus, o primeiro computador digital, não queria viver mais.

Em 1952, Turing tinha sido condenado pelo crime de “prática de comportamento de grande indecência entre homens”. Era homossexual. No princípio dos anos 50, o governo britânico concluiu que a homossexualidade ajudava à infiltração comunista no Reino Unido, devido à deserção para Moscou de vários agentes secretos britânicos que trabalhavam para os soviéticos, membros do famoso círculo de Cambridge, alguns deles homossexuais. Iniciou-se uma caça às bruxas: cada ano, mais de 5 mil pessoas foram condenadas por “indecência”.

TEXTO-MEIO

Alan Turing foi demitido do seu emprego e, para escapar a uma pena de prisão longa, teve de aceitar ser castrado quimicamente. Durante um ano sofreu um tratamento que o transformou fisicamente e o destruiu lentamente. Preferiu pôr fim a si mesmo.

O jovem que chegou a professor do King’s College com 22 anos teve muitos problemas de aprendizagem e ultrapassou-os com a ajuda de uma pessoa de quem gostava, tragicamente morta quando ele tinha 16 anos.

Turing sabia, por experiência de vida, aquilo que nos faz humanos e aquilo que nos faz transcender as nossas próprias limitações. Não é por acaso, que no final de Blade Runner, a replicante Raquel descobre que é muito mais humana que muitos: conseguia amar.

TEXTO-FIM

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Nuno Ramos de Almeida

Nuno Ramos de Almeida é jornalista português, editor-executivo do Jornal I (www.ionline.pt).

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