Sobre universidades, princípios e dinheiro

150608-Dinheiro3

Como as corporações aproveitam-se da insegurança e hesitação dos estudantes para colocá-los em postos bem-remunerados porém medíocres. Por que é possível resistir

Por George Monbiot | Tradução Inês Castilho

Buscar iluminação, intelectual ou espiritual. Fazer o bem. Amar e ser amado. Criar e ensinar. Estes são altos propósitos da humanidade. Se há sentido na vida, encontra-se aqui.

Aqueles que são graduados pelas melhores universidades têm mais oportunidades que a maioria de se identificar com tais propósitos. Por que, então, tantos acabam em empregos destrutivos e sem sentido? Finanças, consultoria administrativa, publicidade, relações públicas, lobbies: essas e outras ocupações inúteis capturam milhares dos estudantes mais brilhantes. Graduar-se para assumir esses postos, como muitos fazem todos os anos, é amputar a vida próximo à raiz.

Vi acontecer com meus colegas. Gente que gastou os anos anteriores expressando visões de um mundo melhor, falando sobre seus grandes projetos criativos, de aventura e descobertas, foi tragada por corporações que acenavam com dinheiro como isca para tolos. Primeiro, a vítimas dizem que farão aquilo por um ou dois anos, até “pagar as dívidas”. Logo acrescentam: “… e meu crédito imobiliário”. Então mudam pra “só quero juntar o suficiente pra não ter mais de me preocupar”. Uns anos mais tarde, “estou fazendo isso por minha família”. Agora, na meia idade, respondem: “Aquilo? Foi apenas fantasia de estudante”.

Por que não escaparam, ao perceber que estavam sendo sugados para longe dos seus sonhos? Tive oportunidade de ver as horas obscenas que alguns novos trainees necessitam trabalhar – às vezes 15 ou 16 horas por dia – como forma de reorientação, de lavagem cerebral. Você é privado do tempo, do sono e da energia que precisa para ver além do lugar em que foi mergulhado. Você perde o rumo e os laços com o mundo em que vivia antes, e fica imerso na cultura empresarial que o cerca. Depois de dois anos nisso, muitos se perdem para a vida toda.

TEXTO-MEIO

O emprego no mercado financeiro caiu, desde a crise de 2008. Entre as universidade que pesquisei com o excelente pesquisador John Sheil, a proporção de graduados que assume um emprego em consultorias financeiras e administrativas vai de 5% em Edimburgo a 13% em Oxford, 16% em Cambridge, 28% na London School of Economics e 60% na London Business School. Mas, a julgar pelo número de candidatos e o rigor do processo de seleção, essas empresas ainda colhem muitos dos formandos mais inteligentes.

O recrutamento começa com um tipo particular de sedução. As empresas patrocinam equipes esportivas e eventos, promovem festas, oferecem comida e bebida, enviam cartas escritas à mão, utilizam estudantes como embaixadores para oferecer apoio e amizade. Persuadem quem ainda está estudando de que, mesmo que não se vejam como consultores ou banqueiros (poucos o fazem), esses trabalhos são trampolins para a carreira que realmente querem. Tornam simples a inscrição inicial; respondem imediatamente e com entusiasmo a sinais de interesse. Oferecem segurança e reconhecimento quando as pessoas estão mais inseguras e com medo do futuro. E acena-se com a chave de um mundo mágico: estágios remunerados, as promessas de salários espetaculares dentro de um ou dois anos. Atrair e fisgar são parte de uma ciência refinada.

Temos uma vida apenas. Não se pode comprá-la de volta, a despeito de quanto dinheiro se tenha. No que diz respeito à autodeterminação, autonomia e papel social, muitos dos que entram nessas trabalhos e nunca voltam à tona poderiam igualmente ter caído mortos na graduação. Eles perderam tudo com o passo em falso, dado num momento único de liberdade.

John Sheil e eu enviamos perguntas a oito das universidades britânicas com os mais altos salários médios de graduados: Oxford, Cambridge, Imperial, o LSE, a London Business School, Warwick, Sheffield e Edinburgh. Perguntamos se elas tentavam conter esse recrutamento pródigo e defender os estudantes das blitz de sedução. Com uma notável exceção, as respostas variaram entre débeis e sombrias. A maioria não ofereceu evidência de que tivesse qualquer preocupação anterior sobre estes temas. Onde esperávamos que houvesse profunda reflexão, encontramos um vácuo intelectual.

Eles citaram seu dever de imparcialidade, que, acreditam, previne-os de procurar influenciar as escolhas dos estudantes. Explicaram que muitas carreiras são oferecidas aos estudantes. Mas parecem confundir imparcialidade com passividade. A passividade diante de forças desiguais é tudo, menos imparcial. A imparcialidade demanda um esforço ativo para criar equilíbrio, resistir ao poder, informar sobre o lado escuro do conto que está sendo construído na mente dos alunos de graduação pelos cultos mais ricos do mercado financeiro.

A Universidade de Oxford nos perguntou, “não é preferível que [o mercado financeiro] recrute formandos com pensamento critico e engajamento social, suficientemente capazes para responsabilizar seus empregadores quando possível?” Essa é uma versão da mais desesperada tentativa que faziam meus amigos da faculdade para justificar suas escolhas em favor do status quo . “Vou reformar o sistema a partir de dentro” Esse pensamento mágico revela um equívoco profundo sobre a natureza e o propósito de suas ocupações. Elas exigem prestar contas ao lucro, ao ambiente regulatório, às demandas dos acionistas, e não à consciência dos funcionários. Todos sabemos como tratam quem expõe, de dentro, suas mazelas. Por que razão “formandos com pensamento crítico e engajamento social” deveriam ser enviados a essa missão suicida? Penso que essas universidades estão falhando em sua responsabilidade de cuidar.

O herói dessa história é Gordon Chesterman, chefe do serviço de carreiras da Cambridge, e única pessoa com quem conversamos que parecia já ter refletido acerca das questões colocadas. Ele me disse que seu departamento tenta conter a influência dos empregadores mais ricos. Envia regularmente mensagens aos estudantes, dizendo: “se não deseja tornar-se um executivo de banco, você não é um fracasso”. Promove um evento denominado “Mas eu não quero trabalhar no mercado financeiro”. Impõe uma taxa aos empregadores ricos que agem para recrutar estudantes e usa o dinheiro para pagar a passagem de trem de ONGs que desejam apresentar-se. Mostrou-se indignado por ser forçado pelo governo a oferecer dados sobre os salários iniciais de formandos. “Penso que é modo muito contundente e inadequado [de comparação], que faz soar sinais de alarme em minha mente.”

Em outros lugares, neste momento vulnerável e crucial, os alunos de graduação devem confiar em sua própria vontade, em formação, para resistir à pressão dos colegas, ao instinto de rebanho, ao fascínio do dinheiro, à bajulação, prestígio e segurança. Estudantes, rebelem-se! Sigam seus sonhos, por mais difícil que seja, ainda que o sucesso possa parecer incerto.

TEXTO-FIM
The following two tabs change content below.

George Monbiot

Jornalista, escritor, acadêmico e ambientalista do Reino Unido. Escreve uma coluna semanal no jornal The Guardian.