Sinais de um país que não morreu

Ao enfrentar políticas que tornaram país muito desigual,  juventude acampada em Telavive retoma sonhos de paz, democracia e igualdade

Por Amos Oz | Tradução: Sérgio Storch

Israel nunca foi um Estado igualitário. Mas em seu apogeu era mais igualitário que a maior parte dos Estados no mundo. Nem a pobreza era aguda, nem a riqueza, ostentatória. A responsabilidade social em relação aos empobrecidos e necessitados aparecia tanto no plano econômico quanto no emocional.

No alvorecer de Israel, quem trabalhava – e quase todas as mulheres e homens trabalhavam muito duramente – podia alcançar um padrão de vida razoável para si e sua família. Os novos imigrantes, os refugiados da II Guerra Mundial e os abrigados nos campos de imigrantes tinham direito a ensino público, serviços de saúde e moradia. Quando jovem, o pobre Israel era um grande empreendedor social.

Tudo isso foi destruído nos últimos 30 anos, quando os governos ligados ao grande capital estimularam e atiçaram as leis econômicas selvagens do “agarre o que você puder”.

TEXTO-MEIO

Os protestos que agora estão se espalhando nas ruas e praças de Israel são bem mais que simples reivindicações contra a falta de moradias. Seu núcleo é a resposta e indignação frente à indiferença do governo em relação ao sofrimento das pessoas, a hipocrisia contra a população trabalhadora e o ataque à solidariedade social.

As visões estimulantes dos acampamentos que se espalham pelas cidades de Israel, dos médicos marchando em favor de seus pacientes e das manifestações e passeatas são por si mesmas um renascimento da fraternidade e do compromisso mútuo. Afinal de contas, antes de “justiça social” e “abaixo o governo”, o que esses manifestantes estão dizendo é “Somos irmãos”.

Os recursos para assegurar justiça social em Israel podem ser encontrados em trẽs lugares:

Primeiro, os bilhões investidos nos assentamentos em território palestino – o maior erro e a maior injustiça na História de nosso Estado;

Segundo, as gigantescas somas destinadas às escolas religiosas (yeshivás) ultra-ortodoxas, onde gerações de indolentes e ignorantes são ensinados a desprezar o Estado, a sociedade e a realidade do século 21.

Terceiro, e talvez mais importante, o apoio fanático do governo neoliberal de Netanyahu e de seus antecessores ao enriquecimento desenfreado dos milionários e de seus círculos íntimos às custas da classe média e dos pobres.

Não nos esqueçamos de onde vem a riqueza que alimenta os assentamentos, as yeshivás e as contas bancárias dos ricaços. Vem do trabalho e talento criativo de milhões de israelenses, que carregam em seus ombros a única riqueza de um Estado pobre em recursos naturais mas muito rico em recursos humanos.

Nem partidos nem as organizações tradicionais da oposição estão por trás dos protestos. O movimento nasceu da paixão e entusiasmo de centenas ou milhares de jovens, que ao despertar reuniram o que a sociedade tem de melhor.

É muito comovente ver os ativistas de muitas gerações, que durante muito tempo foram vozes pregando no deserto, passarem horas nos acampamentos dos jovens, que conduzem com maturidade os novos protestos.

Gente como eu, que se manifestou durante longos anos contra a política dos governos de Israel, abraçamos maravilhados e com amor esta nova geração, que supera as anteriores.

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Amos Oz

Amos Oz é escritor israelense e co-fundador do movimento pacifista Paz Agora. Escreve sobre as agruras presentes e passadas de Israel. Em romances como "Conhecer uma mulher" (1992), "Pantera no porão" (1999) ou "Meu Michel" (2002); explora a persistência do amor durante a guerra.

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