Shakespeare, muito além do purismo ou tradição

Ricardo lll, em cartaz na Cidade das Artes, sexta, sábado e domingo, 20h.

Ricardo lll, em cartaz na Cidade das Artes, sexta, sábado e domingo, 20h.

No Rio, montagens simultâneas de peças do grande dramaturgo revelam sua contemporaneidade – e importânca de encená-lo sem dogmas

Por Wagner Correa de Araújo

William Shakespeare é destes autores cujo pensamento criador tem tal tônus de universalidade que, mesmo apesar do fator cronológico e da ambientação histórica, tem resistido à onda de adaptações a contextos contemporâneos, ora na transposição de épocas, ora na concisão de seu vasto mundo personalístico nas falas solitárias de uma voz singular, sem perder nunca seu eco coletivo.

Vejam-se inúmeros exemplos, desde o Romeu e Julieta, em clima de sotaque cordelístico, na concepção de Gabriel Vilela ou no minimalismo didático do Ricardo lll, de Gustavo Gasparani, até a apropriação terceiro milênio do Hamlet, na exuberante concepção de Aderbal Freire Filho.

Para polemizar mais o cenário brasileiro shakespeariano, vai começar a temporada de outro Hamlet, segundo Dominic Dromgoole para o Shakespeare’s Globe Theatre, em que há priorização do ator e da palavra em detrimento da grande visão cenográfica de rigorismo temporal, dividindo os simbólicos personagens por atores de diversas etnias e países dos cinco continentes.
Tendo em vista a crise ocasionada muitas vezes, especialmente entre artistas, puristas e pesquisadores, acirrados seguidores da tradição, alcançando significativa parcela da crítica, além da audiência consumidora deste polêmico pequeno grande mundo, continua prevalecendo sempre o vivenciamento político, social e filosófico do público e do privado, extraordinariamente equilibrados na escrita cênica do dramaturgo inglês.

TEXTO-MEIO

Tragédias de família para um solista

Duas tragédias de W. Shakespeare conquistaram o público carioca pela forma peculiar como foram encenadas. Tanto o Ricardo III, dirigido por Sérgio Módena, como Rei Lear, comandado por Elias Andreato, reduziram seu extenso cast de personagens a um único protagonista, mantendo as linhas mestras da narrativa dramatúrgica original.

Ricardo III, na concepção de Gustavo Gasparani/Sérgio Módena, conseguiu, com uma voz única, contar e representar um dos mais sanguinários enredos shakespearianos, de uma forma didática, com uma tal clareza e interatividade, que a plateia sai do teatro, como íntima expert dos passos dessa intrincada trama de histórias paralelas.

Em cena, a violenta disputa por um mesmo trono opondo duas linhagens aristocráticas tendo à frente a controvertida e sombria figura de Ricardo III.

Já no Rei Lear, o seu reino é doado por ele, na extrema velhice, a suas três filhas, deixando-se ludibriar com a gananciosa cordialidade das duas mais velhas Goneril e Regan, ao desprezar a mais nova – Cordélia –, pela sua incisiva recusa da falsa apologia ao amor paterno.

Rei Lear, em cartaz no Teatro dos Quatro, quinta a sábado, 19h; domingo, 20h30m

Rei Lear, em cartaz no Teatro dos Quatro, quinta a sábado, 19h; domingo, 20h30m

Na montagem de Elias Andreato, a partir da criação de Geraldinho Carneiro, o único protagonista é um ator (Juca de Oliveira), que divide sua trajetória dramática por seis personagens, centralizados em torno de Lear, o velho monarca.

Em apenas 60 minutos, ele assume um papel de contador de histórias, muito próximo de uma leitura dramatizada, na qual as diversas facetas expressivas, as marcas vocabulares e o clima emocional são alcançados num exacerbado exercício de troca de personagens.
Com uma cenografia minimalista (Fábio Namatame), incidental trilha sonora (Daniel Maia) e discretos efeitos de luz (Wagner Freire), paira acima de tudo a palavra e o gestual deste mistificador-mor da arte cênica: Juca de Oliveira.

E se nessa adaptação é minimizada a dimensão política e o tônus filosófico da tragédia clássica original, por outro lado, aquelas muitas vidas concentradas instantaneamente num só sujeito individual, refletem enfim, um trágico/poético retrato shakespeariano da própria condição humana:

“Fugaz como o som, passageira como a sombra, curta como o sonho, rápida como o relâmpago na noite escura”

Tudo por Dinheiro numa Tragicomédia de Erros

O personagem e o tema que conduzem ao enredo dramatúrgico de Shakespeare em Timon de Atenas, vem de referências clássicas da literatura e da filosofia greco-latina. A peça é uma das menos conhecidas e menos representadas do bardo inglês em seu formato clássico, sendo inclusive atribuída grande parte de sua autoria ao seu contemporâneo Thomas Middleton.

São estes fatores que fizeram de Timon de Atenas um dos textos mais adaptados a outros contextos em relevantes montagens contemporâneas que vão do teatro shakespeariano de Stratford-upon-Avon a Peter Brook. Sendo a mais recente, em 2012, pelo National Theatre de Londres, que serviu de esteio para a versão brasileira, com o comando de Bruce Gomlevsky.
Concentrando sua ação praticamente na conduta de um nobre cidadão ateniense do terceiro milênio respeitado, no seu staff e na comunidade urbana, por seu comportamento permanentemente aberto a benfeitorias, benesses e empréstimos financeiros em que tudo é pelo dinheiro, de apenas um para o favor de todos.

Timon de Atenas, em cartaz no Teatro Maison de France, quinta e sexta, 19h30m; domingo, 18h.

Timon de Atenas, em cartaz no Teatro Maison de France, quinta e sexta, 19h30m; domingo, 18h.

Atendendo a essa frenética demanda de ascensão só quando lhe faltam os recursos na queda, é que se sente vítima solitária de interesseiros e bajuladores, subitamente desaparecidos no seu estado de miséria e terror.

Com seu sotaque tragicômico, o texto traz uma amarga reflexão sobre a mediocridade da condição humana diante da finitude da grandeza de Timon (Vera Holtz), que é apenas material pela ótica do interesse pessoal e do egocentrismo.

Para acentuar o centrismo do personagem protagonista, os outros atores são como coadjuvantes classificados em ordem de importância mais pela atividade profissional que exercem do que por sua nominação (poetas, filósofos, pintores, senadores, criados, cobradores, ladrões e prostitutas).

Tudo, mesmo com a incisiva trilha de Marcelo Alonso Neves, a climática luz (Elisa Tandela), o acerto dos figurinos (Rita Murtinho) e a boa surpresa das falas em envolventes performances como as de Tonico Pereira (o filósofo) e do contraponto feminino de Alice Borges (a criada) não consegue coibir um certo ritmo repetitivo e incômodo, na estranheza do conflito entre o texto original e a ambientação cênica.

No entanto, na medida das medidas, todos os olhos estão hipnotizados, isto sim, com a exacerbada presença cênica de Vera Holtz, na sua expressiva dualidade interpretativa, entre o seu inicial e carismático lado magnata e, a posteriori, na crueldade de vítima da ingratidão.

Afinal, mesmo apesar de ocasionais embates contraditórios, como não poderia coexistir em Shakespeare a ruptura das circunscrições de tempo, idade, etnias, pensares, diante de sua própria e pronta resposta de que:

“O mundo inteiro é um palco e todos os homens e mulheres são meros atores”.


MAIS:

O Encontro com Shakespeare, que se realiza na Cidade das Artes, Rio, possui uma programação bastante interessante. Além do Hamlet, com o Shakespeare’s Globe Theatre, inclui a apresentação das peças Ricardo III ( direção Sérgio Módena) e Timon de Atenas (direção Bruce Gomlevsky).

Essa agenda ocorre entre os dias 28/11 e 02/12, em horários diversos, no Teatro de Câmara. Contempla ainda um workshop do dramaturgo Sérgio Módena e outro da crítica e especialista em Shakespeare, Bárbara Heliodora, ambos no Teatro de Câmera, no mesmo período. Para conferir todo o cardápio clique aqui.

 

 

TEXTO-FIM
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Wagner Correa de Araújo

Jornalista especializado em cultura, roteirista, diretor de televisão, crítico de artes cênicas. Dirigiu os documentários "O Grande Circo Místico" e "Balé Teatro Guaíra 30 Anos" . Participou como critico e jurado de festivais de dança e cinema, no Brasil e na Europa.