São Paulo, cidade violentada

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Como começou a selvageria ontem. Que é o Movimento Passe Livre. O jogo duplo da mídia e o peso da tarifa

Por Alessandra Alves, Andressa Pellanda, Bárbara Libório, Cleyton Vilarino e Túlio Bucchioni | Imagem: Drago, do SelvaSP

No início da grande manifestação de ontem, ainda em frente ao Teatro Municipal, tudo seguia pacífico, exceto pelas inúmeras revistas feitas pelos policiais prendendo qualquer um que estivesse com algo que considerassem suspeito, inclusive vinagre. A substância é utilizada para se proteger dos efeitos das bombas de gás. O intuito era claro: haveria repressão e era preciso deixar os manifestantes o mais indefesos possível das investidas da tropa. Pela manhã, o tenente-coronel Marcelo Pignatari, comandante das operações policiais afirmava que não deixaria os manifestantes “à vontade pela cidade”. Após os últimos protestos – o de ontem foi o quarto, em dez dias, contra o aumento das passagens de ônibus e metrô – o prefeito da cidade Fernando Haddad e o governador do Estado, Geraldo Alckmin, reiteraram que não negociariam com “vândalos”. Referiam-se a grupos minúsculos que, nos atos anteriores, atingiram ônibus e vitrines.

Nesta última manfestação, nem isso ocorreu. A marcha seguiu organizada, sem qualquer violência. Menos de dois quilômetros depois, quando os manifestantes já caminhavam havia cerca de 30 minutos, a palavra de ordem do grupo de mais de dez mil pessoas (que o governador definiu como “pequeno, mas violento”) era um apelo: “sem violência”.

Foi exatamente ali, em meio a estes pedidos por paz, que começou a selvageira da Polícia Militar (PM). A tropa de choque deu tiros e atirou bombas de gás contra a multidão. O empurra-empurra era inevitável e por pouco não houve pisoteamento e tragédia. O intuito da PM era claro: impedir que os manifestantes chegassem até a avenida Paulista, sede de algumas das principais empresas brasileiras. Para isso, passaram a lançar mais bombas de gás. A população dispersou-se em diversos grupos, cada um com centenas de manifestantes.

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Alguns poucos tentaram improvisar, como defesa, barricadas de sacos de lixo, as quais se ateava fogo. De nada serviram. A polícia continuava atirar bombas de gás e a encurralar os manifestantes. “Nessas horas você perde a coragem ou o que quer que seja e pensa ‘quero ir pra casa’. Mas eu não tive essa opção, não tinha por onde ir que não tivesse fumaça”, contou a repórter Amanda Previdelli, em sua conta no Twitter. Foram muitos os relatos de pessoas feridas e não conseguindo respirar. “Quando tacaram bomba na praça, eu subi para fugir do gás denso, mas não deixaram a gente fugir. Atrás de mim caiu uma bomba, só vi a fumaça. Virei, na minha frente caiu outra, cheguei a vê-la bem perto”, relatou Amanda: “o que fizeram com o povo ao meu redor foi desumano”. Mais de cem pessoas ficaram feridas.

Os diversos grupos continuaram tentando chegar até a avenida Paulista, já bloqueada pela polícia. Ali, uma cena de guerra estava montada. Os estudantes que saíam de uma faculdade eram revistados um a um. Jornalistas foram agredidos e a tropa de choque seguia em uma caçada por manifestantes já dispersos. Um grupo de pouco mais de vinte pessoas que gritava em coro “sem violência” teve como resposta balas de borracha e bombas de gás. As imagens nos telejornais se inverteram e o prefeito Fernando Haddad voltou atrás sobre as ações policiais. No final da noite, ele criticou a ação da PM. “A imagem que ficou foi de violência policial”, afirmou em coletiva logo após os protestos. Geraldo Alckmin reafirmou que os manifestantes são violentos. Ambos reafirmaram que não vão reduzir a tarifa do transporte e São Paulo e um novo protesto está marcado para segunda feira. Cerca de 23 mil pessoas já confirmaram presença, pelo Facebook, em menos de 24 horas.

O MPL e a reivindicação pela tarifa zero

O Movimento Passe Livre, principal articulador dos protestos contra o aumento das tarifas do transporte coletivo em diversas cidades brasileiras, teve sua origem em uma revolta popular espontânea, na cidade de Salvador, capital da Bahia, em 2003. A partir deste episódio, que ficou conhecido como “A Revolta do Buzu”, o movimento toma proporções nacionais e, no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, em 2005, institucionaliza sua organização em torno da concepção do direito de ir e vir como um direito básico que deve ser assegurado pelo Estado, assim como a educação e a saúde pública.

O movimento reivindica a mudança do modelo de transporte público privado, que atualmente funciona sob a forma de concessões, para um modelo público que possa garantir o passe livre para toda a população. Bastante heterogêneo em sua composição e em termos de concepções teóricas e práticas, ainda que tenha como característica comum a reivindicação da ação direta nas ruas, o MPL parece contar com membros que flertam desde com o marxismo e a organização partidária até com o anarquismo.

Em São Paulo e em outras capitais, a bandeira da tarifa zero e a organização contra aumentos no preço do transporte público encontra um grande espaço de ressonância principalmente entre a juventude. E a composição dos manifestantes é absolutamente heterogênea. É engano grave pensar que se trata de uma onda de protestos oriunda da classe média – como tentam sustentar a mídia comercial.

Jogo duplo da mídia e papel das redes

Em meio aos protestos e embates da última semana, a mídia ganhou um capítulo à parte. De um lado, uma cobertura que evidencia o vandalismo e a violência dos manifestantes, pouco citando a operação violenta da PM. De outro, prisões e agressões que repórteres e fotógrafos sofreram enquanto tentavam, de alguma maneira, acompanhar o que acontecia.

A secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP) ainda não contabilizou o número de jornalistas detidos nos quatro protestos. No entanto, sabemos que profissionais dos veículos Terra, Aprendiz e Carta Capital foram levados à delegacia. Piero Locatelli, repórter da Carta Capital, ficou detido até o início da noite, por portar vinagre.

Sete jornalistas da Folha de S. Paulo foram agredidos pela polícia. Dois deles levaram tiros de borracha nos olhos.  Um fotógrafo da agência Futura Press foi atingido da mesma maneira e corre o risco de perder a visão.

Nas primeiras manifestações, a mídia, o governo e boa parte da população afirmavam, em coro, sua oposição aos protestos. Os atos de vandalismo eram inaceitáveis.As manchetes dos principais jornais da cidade evidenciavam as depredações e danos ao patrimônio público paulistano, minimizando o número de militantes e o tamanho da manifestação.

Nas redes sociais, entretanto,  houve uma imensa propagação de fotos, vídeos e relatos de manifestantes que estavam presentes nos protestos, declarando que todo o vandalismo e violência foram incitados pela repressão violenta da PM. Depois dos acontecimentos de ontem, pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha, revelou a reviravolta: 55% dos paulistanos se dizem a favor dos atos de protesto, ainda que 78% ache que os manifestantes foram mais violentos do que deveriam.Apenas hoje, depois do quarto ato – o mais violentamente reprimido – é possível vislumbrar na mídia relatos sobre a repressão e violência policial, que transformaram as ruas da cidade em um campo de batalhas.

Reações no mundo

Em nota divulgada ontem(13/5), durante os protestos, a Anistia Internacional demonstrou preocupação com o aumento da violência na repressão aos protestos e com o discurso das autoridades paulistas, “sinalizando uma radicalização da repressão e a prisão de jornalistas e manifestantes, em alguns casos enquadrados no crime de formação de quadrilha”. Ressaltou que o transporte público acessível é de fundamental importância para que a população possa exercer seu direito de ir e vir. “É fundamental que o direito à manifestação e a realização de protestos pacíficos seja assegurado”, afirmou.

Reportagem do The New York Times de hoje (14) destacou que os protestos ocorrem em um momento delicado para os líderes políticos, já que estão lidando com preocupações sobre a inflação alta e o crescimento econômico lento, além de “estarem tentando promover o Brasil como destino seguro e estável antes da Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas de 2016”, que serão realizadas aqui.

População inflada e transporte urbano em caos

Com 11,2 milhões de habitantes somente na capital (e outras 8 milhões na região metropolitana), São Paulo tem os meios de transporte saturados.Segundo artigo publicado em 2011 pela relatora especial da Organização das Nações Unidas para o direito à moradia adequada, Raquel Rolnik,  os paulistanos gastam uma média de 2 horas e 42 minutos todo dia em deslocamentos diários; em um ano, são 27 dias perdidos em congestionamentos.

O excesso de carros esclerosou a metrópole. Em 2011, o Departamento de Trânsito de São Paulo (Detran) computou uma frota de 7 milhões de veículos, dos quais 5,11 milhões são carros. Proporcionalmente ao número de habitantes (11,3 milhões), a média em São Paulo é de um carro para cada 2,2 pessoas. Os congestionamentos chegam constantemente a 115 Km no fim da tarde. Hoje, a maior metrópole do país possui apenas dez corredores de ônibus, sendo que o último foi inaugurado há sete anos.

Outro fator importante para a mobilidade urbana paulistana é o preço do transporte público. Em São Paulo, as linhas de ônibus são operadas por oito concessionárias privadas, que atendem diferentes regiões da cidade. A SPTrans, uma autarquia municipal, que gere o transporte público da cidade. Nos últimos 15 anos, o custo da passagem de ônibus triplicou. Em 1998, o bilhete custava 1 real. preço que chegou a R$3,00 em 2011, com um aumento  (11,11%) bem acima da inflação do período (6,03%). Em 2013, o prefeito eleito, Fernando Haddad (PT) anunciou o aumento da passagem para R$3,20 – aumento (6,4%) que ficou abaixo da inflação registrada nos últimos dois anos (14,4%) – o que faz São Paulo ter a passagem de ônibus mais cara do Brasil.

Apesar de se tratar de uma diferença R$ 0,20, o aumento consumirá uma parcela maior da renda dos trabalhadores. Quem recebe um salário mínimo no Estado de São Paulo (R$ 755, um pouco acima do salário mínimo nacional de R$ 678) e utiliza um ônibus e um metrô para ir e retornar do trabalho terá um gasto de R$ 200, o que equivale a 26,4% de sua renda total. A insatisfação com o aumento do preço do transporte desencadeou protestos em diversas outras capitais brasileiras (Rio de Janeiro, Goiânia, Natal e Porto Alegre) para reivindicar a redução do custo da passagem. O Movimento Passe Livre, grupo presentes em diferentes estados e dedicado ao debate em torno da mobilidade urbana, articulou a maior parte deles.

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Andressa Pellanda é jornalista e atua em organizações da sociedade civil. É membro da Campanha Nacional pelo Direito à Educação e da Aliança pela Infância. É correspondente no Brasil do Le Journal International.

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