Roteiro para um filme francês

(Chéri à Paris, por Daniel Cariello)

Mathieu, Arnaldo e Lucille caminham tranquilamente às margens do Sena, em uma tarde de outono. Mathieu e Lucille são parisienses e Arnaldo é brasileiro. É ele quem escorrega em uma casca de banana e despenca no rio, só tendo tempo de se agarrar a uma prancha de madeira que passava por perto.

Arnaldo – Ei, me ajudem, não sei nadar.

MathieuMeu são Sartre! Que coisa mais irresponsável, Arnaldô. Você deveria ter pensado nisso antes, deveria ter aprendido a nadar quando era tempo. Agora quer que a gente aja para remediar uma atitude que você não tomou.

Lucille – Tão brasileiro isso, Arnaldô…

Arnaldo – Me ajudem a sair, a água tá fria.

TEXTO-MEIO

Mathieu – Mas é claro que a água está fria, estamos no outono. Acabaram as cerejas, acabou o calor, acabaram os sorrisos.

Lucille – Agora vamos todos nos fechar aos poucos em nossas individualidades invernais.

Arnaldo – Fechem-se, abram-se, tranquem-se, explodam-se. Mas me tirem daqui!

Mathieu – Não é tão simples, Arnaldô. Eu não tenho autorização para entrar nesse rio.

Lucille – Eu também não.

Arnaldo (já batendo o queixo) – Na…não têm o quê?

Mathieu – Autorização, Arnaldô. É preciso entregar um dossier e uma carta de motivação na prefeitura de Paris, explicando por que eu quero mergulhar no Sena. Com um pouco de sorte, a resposta sai em menos de 3 semanas.

Lucille – E não é certo que ela seja positiva.

Mathieu – Mas aí cabe sempre recurso.

Arnaldo (segurando-se à prancha com dificuldade) – Preciso de ajuda…

Lucille – Mas que vergonha, Arnaldô. Você só enxerga o próprio umbigo? A França precisa de ajuda, os pobres desse país precisam de ajuda, os desempregados precisam de ajuda. E você falando apenas do que você necessita?

Mathieu – Franchement, Arnaldô, está na hora de cada um de nós começar a pensar mais no coletivo.

Arnaldo (já engolindo água) – Me tirem… daqui…

Lucille – Arnaldô, é por causa de gente como você que esse país está afundando. Sempre “eu, eu e eu”.

Arnaldo (só com a boca de fora) – Rápido… (blub) Ajudem… (blub)

Mathieu – Voilà! Tive uma ideia brilhante para mudar essa situação!

Lucille – O que é?

Arnaldo faz um esforço para tirar a cabeça da água.

Mathieu – Uma ação conjunta.

Lucille – E o que seria? Juntarmos nossos cintos e fazermos uma corda para resgatar o Arnaldô da água?

Arnaldo batalha para se agarrar novamente à prancha.

Mathieu – Melhor, Lucille, muito melhor.

Lucille – Você me segura pela cintura enquanto eu me inclino para puxar o Arnaldô?

Arnaldo, olimpicamente exausto, levanta a mão, esperando o socorro que irá salvá-lo.

Mathieu – Ainda melhor.

Lucille – E o que é, Mathieu?

MathieuVamos fazer uma passeata para reclamar das condições de higiene da nossa cidade. Onde já se viu, cascas de banana no chão em plena Paris? Imagina se sou eu quem tropeço e caio nesse rio?

Lucille – Ou eu?

Mathieu – Marchons!

Lucille – Allez!

Arnaldo – Blub…

Leiam aqui o primeiro roteiro para um filme (chato) francês


Daniel Cariello, editor da revista Brazuca, é colaborador regular daBiblioteca Diplô/Outras Palavras. Escreve a coluna Chéri à Paris, uma crônica semanal que vê a cidade com olhar brasileiro. Os textos publicados entre março de 2008 e março de 2009 podem ser acessados aqui.

TEXTO-FIM
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Daniel Cariello

Daniel Cariello é colaborador de Outras Palavras e, antes, do Diplô Brasil, desde 2008. Já lançou dois livros de crônicas, Chéri à Paris (2013) e Cidade dos Sonhos (2015), ambos best sellers na Amazon. Foi cronista de Veja Brasília e Meia Um. Este texto faz parte de seu novo projeto, Cartas da Guanabara, com crônicas cariocas. É editor do selo literário Longe.

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