Rio, eu te amo, entre o cinema e o turismo

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Produção coletiva registra beleza esplendorosa da cidade mas esconde o Rio real, sua pulsação, sua humanidade única e contraditória

Por José Geraldo Couto, no blog do IMS

O Rio de Janeiro continua lindo. Sobretudo quando mostrado em plano geral, do alto, na contraluz de um amanhecer ou de um crepúsculo. É essa a imagem preferida de Rio, eu te amo, novo produto da franquia “Cities of love”, que já tinha homenageado Paris (em 2006) e Nova York (em 2008).

A cidade real, com sua pulsação, sua humanidade única e contraditória, só aparece aqui e ali, quase por acidente, nos dez segmentos dirigidos por cineastas do Brasil e do exterior. No todo, é um pouco mais que um filme superficial e turístico.

Produções coletivas, assinadas por diretores muito diferentes entre si, costumam ter altos e baixos. A tentação é dizer que em Rio, eu te amo só existem baixos, mas isso seria sacrificar a justiça para não perder a piada. Há pelo menos três momentos de cinema em meio aos cartões postais, situações-clichê e diálogos tolos.

Vampiro brasileiro

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O mais interessante deles é, de longe, o segmento “Vidigal”, centrado num garçom (Tonico Pereira) que vira vampiro e ataca as boazudas da região onde vive e trabalha. Dirigido pelo sul-coreano Im Sang-soo, pouco conhecido por aqui, curiosamente é o mais “brasileiro” dos episódios, por seu humor chanchadesco, seu erotismo maroto, seu pendor pelo trash. Poderia ter sido feito por um Ivan Cardoso.

Vincent Cassel no papel do escultor de areia

Mas há graça também em “Musa”, de Fernando Meirelles, um curta sem palavras protagonizado por um escultor de areia da praia (Vincent Cassel) que se apaixona por uma garota de quem só vemos a parte inferior das pernas. As imagens fragmentadas, em sua maioria em plongée vertical, com intervenções musicais e sonoras inventivas, configuram um balé de seres e objetos que fazem pensar em Jacques Tati, se me perdoam o sacrilégio.

Por fim, tem seu interesse também, pela estranheza brutal, o segmento “Texas”, do mexicano Guillermo Arriaga, história de um boxeador (Land Vieira) que perdeu o braço num acidente, mas mesmo assim participa de lutas clandestinas para custear a operação que pode fazer sua esposa paraplégica (Laura Neiva) voltar a andar. O próprio local onde se realizam as lutas – uma piscina olímpica vazia transformada em arena selvagem – é um dos achados do filme.

Panfleto e conforto

O mais constrangedor dos segmentos talvez seja o de José Padilha, no qual um homem (Wagner Moura) que acabou de perder a namorada sobrevoa o Rio de asa-delta e tem uma conversa dura com o Cristo Redentor, a quem acusa de ignorar a miséria e a violência que reinam “lá embaixo” na cidade. É de um primarismo de panfleto colegial.

No mais, é um desfile de paisagens, alguns atores famosos (Harvey Keitel, Fernanda Montenegro, Rodrigo Santoro) e belas canções de Tom Jobim, Wilson Batista, Cartola, Luiz Gonzaga e Gilberto Gil. Em suma, até pela presença do diretor de fotografia Ricardo Della Rosa em todos os episódios (exceto “Texas”, fotografado por Adrian Teijido), predomina o padrão Conspiração Filmes, ou seja, agradável, bem acabado e frequentemente insosso.

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.