Rio de Janeiro: as dores do assembleísmo

Acampada na Cinelândia deflagra novas formas de viver a liberdade. Mas adotou busca obsessiva de consensos e adora reuniões intermináveis

Por Bruno Cava | Foto: Rodrigo Torres

Depois de três dias intensos de ocupação na Cinelândia, mais uns tantos de articulação prévia e labirínticos debates online, vale pensar a partir da Acampada do 15-O no Rio de Janeiro.

Antes de tudo: pra mim, está sendo a coisa mais sensacional do mundo. É um evento constituinte que deflagra novas verdades políticas, novas formas de viver a liberdade e agenciá-las. O salto qualitativo em relação às redes no Facebook é estar ao mesmo tempo na praça e na internet.

TEXTO-MEIO

Hoje à noite, coloquei-me à parte do circuito oficial de assembleias e grupos de trabalho (os GT). É incrível como o tempo das assembleias consome totalmente. Mas hoje, juntei-me a um grupo heterogêneo, que se encontrou para compartilhar experiências e inquietações. Foi uma espécie de pós-GT. Nele, pude presenciar em ação na praça figuras singulares, como o dérmico Patrick Sampaio, e Maurício Rocha, com seu charme deleuziano, entre outros.

Percebo que tenho em comum com outras pessoas certa insatisfação, que está no ar. Certo sentimento de insuficiência ante a forma predominante de organização e produção da acampada. Não falo do endereçamento de questões práticas, mas da questão política, que é tão essencial quanto.

Em primeira formulação, diria que é um desconforto crescente diante da obsessão em construir o consenso. Perante a importância conferida a coletivizar todo o processo. Essa afirmação quase dogmática que é necessário discutir tudo em assembleia, para que todos participem, que assim todos poderão tomar parte na decisão coletiva. Que somente a assembleia delibera em nome do todo. A discordância aqui não está no poder deliberar, mas nessa fixação no todo. É o fetiche do todo, como se o coletivo fosse a oposição ao indivíduo, seu ego, seus interesses privados e potencialmente antissociais. Como se o coletivo não fosse a própria condição de existência do indivíduo.

Essa insatisfação não significa uma dissidência, iniciar uma disputa intestina pelo poder. Não se trata de bombardear o quartel-general, nem de tensionar. Mas de compor outros modos de cooperar, criar e assim fortalecer o movimento. Esses modos já existem desde o início, minoritários, pouco pensados e debatidos. Está em habitar as margens, em devorar amorosamente a organicidade em construção.

A assembleia jamais se livrará do “quem somos, de onde viemos e pra onde vamos?” Parece presa a essa necessidade de recomeçar a todo momento o modo de se identificar como algo razoavelmente bem definido. Na necessidade de constituir-se. Uma pulsão de identidade. Uma necessidade de pertencimento, de fazer parte de algo maior (o todo) — e destarte se definir refletivamente, como parte do todo. A solução para os dilemas, até agora, se resolve na assembleia dita soberana, alfa e ômega da acampada no Rio. Algumas pessoas sentem que é isso que qualifica o movimento em Wall Street e do 15-M, o assembleísmo. Ontem, por exemplo, saí moído de um dia inteiro em debates e discussões atrás de consensos e pautas mínimas, para depois ser novamente moído em assembleia, para ampliar e passar tais consensos. Isso não tem como ser o esqueleto de uma democracia real, baseada no comum produtivo, mas meramente formal-deliberativa, fundada num método regrado e minucioso de discussão e decisão. Dissocia forma e conteúdo e, nessa manobra mesma, a questão política não pode emergir.

O fato é que não há consenso nem nunca haverá e nada de produtivo pode sair dessa busca. Não existe uma pauta consensual. Existem pontos em comum, mas não um consenso. Tentar formular esse comum por meio das assembleias apenas o exaure em palavras de ordem e slogans, como “anticapitalismo” ou “autogestão”. Essas palavras nada significam sem as lutas reais que as preenchem de sentido e potência de vida. E aí só o dissenso produz. O dissenso no sentido daquilo que nos distancia. Ser generoso com essa distância, amar o distante, cria o que não éramos e que não seremos.

Essa tentativa de responder à fixação de pertencimento — e, de certa forma, à grande imprensa que representa a sociedade na opinião pública, que pauta alguns mesmo que seja como negação — engessa o que o movimento tem de movimento. Fica estático: estatiza-se. Assim, no futuro, pode começar a enrijecer estruturas de comando, que se mistificam em nome do consenso e do todo. E aí pode acontecer de a acampada fechar-se sobre si, refletir sobre si, como se houvesse um dentro, como se primeiro fosse necessário se definir (o dentro) para então se relacionar com as questões políticas do global e do local (o fora).

E aí acontece de exaltar a segurança do nosso espaço. Nosso cantinho querido. E também a abstrusa proposta, porém bem recebida, de reprimir práticas que a ordem estatal reprime. Justamente porque ela reprime, diga-se o que se quiser sobre estratégia e tática. E pretendem que as pessoas se policiem umas às outras, em nome do coletivo. Mas se pensarmos e agirmos como a polícia, nos tornamos polícia. Ipso facto. E uma onipresente, de vigilância e delação mútuas. Não existe alternativa à ordem que seja mais fascista do que a que propor uma sociedade em que todos somos polícia coletiva uns dos outros, em vez de um mundo em que não precisemos de algo como o policiamento.

Essas limitações ainda são muito incipientes e chega a ser injusto criticar a acampada, de dentro. Mas dá pra identificar tendências e riscos bastante reais. E que, portanto, precisam ser criticadas, precisamente para o movimento movimentar-se ainda mais. Essa crítica não é destrutiva. É propor a algumas pessoas, que estejam já com a inquietação, que deslizem das assembleias e dos GT, para produzir também noutro plano. E evitar ser consumido ao ecoar disciplinadamente falas atrás de consensos. Sim, é uma oficina para os que nunca saíram do condomínio, mas como exercício de democracia é quase nada.

Mas é claro que a acampada é muito mais, que corre em paralelo e mais além disso tudo, que é preciso identificar os agenciamentos e os excessos além das estruturas decisórias e pulsões de identidade, embora muitos dos mais ativos talvez não confiram tanta importância a essa margem. Penso que o caso é aproveitar e aguçar aquele excedente que já transborda das dinâmicas, das muitas pessoas se encontrando e vivendo nas brechas e interlúdios da assembleia. Esse excedente, no fundo, é a própria acampada como acontecimento. Logo, é preciso fortalecer essas dinâmicas.

Por isso, o movimento não precisa se constituir. Ele não tem limites, não começou aqui e agora e vai terminar ali e mais tarde. É exatamente o que não se constitui nem tem contornos e, assim, incomoda e agride o poder constituído. Ele não tem um dentro, um o que somos e o que queremos. O movimento já está fora, já nasceu como um fora. Ele é a própria membrana entre dentro e fora. Ele já é constituinte nessa pele de cobra. Ele é rede (de afetos, de informações, de narrativas, de singularidades) em fermentação. Global enquanto repercute os afetos proliferados pelo que está acontecendo no mundo. Local enquanto atravessado pelas lutas reais e movimentos sociais da cidade do Rio de Janeiro, do Brasil, da América Latina. Por isso, ele já acontece, às escâncaras, antissistêmico, repensa por si mesmo as categorias políticas e contesta por si mesmo as políticas públicas, na dupla dimensão global e local. Quando nega isso, porque não há consenso, apenas nega que seja o acontecimento global e local que o dá vida. E assim se mortifica num assembleísmo do consenso.

Até as pedras do calçamento já sentem que se está querendo além da representação e da ordem político-econômica do modo capitalista, — na prosopopéia hiperbólica do Maurício, o militante dândi. Disse bem: o caso agora é como colocar os problemas, numa política sem vergonha de ser política. E isso passa, eu penso, pela própria forma de organizar e produzir , aliás, é isso mesmo o problema mais candente agora. Colocar bem um problema, colocá-lo politicamente, não só vence a dialética irresolúvel entre teoria e prática, bem como as armadilhas da dialética entre estratégia e tática, entre fins e meios. E colocar bem um problema passa pelo dissenso. E desse dissenso, a reconfiguração daquilo que deu a partida às acampadas em primeiro lugar. Portanto, sem dissenso, não se produz nada: será uma terapêutica e eterna discussão sobre o mesmo, o que somos, de onde viemos e pra onde vamos. Perda de tempo vivo, de trabalho vivo.

Repensar continuamente a acampada, também para deconstruí-la, para ir mais além, e sobretudo participar produtivamente, estar lá no excedente, na dimensão simultaneamente global e local da coisa, e focado na colocação de problemas políticos para um outro mundo, uma política nova e um direito novo, — eis aí o grande desafio.

TEXTO-FIM
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Bruno Cava é escritor, engenheiro e bacharel em direito. Mestrando em filosofia política do direito, autor de "A Vida dos Direitos" (2008), escreve em vários sites e publica o blogue Quadrado dos loucos.