Rindo de quê?

Tudo é estridente, enfático e redundante em “Até que a sorte nos separe”, uma comédia quadrada e eivada de clichês

Por José Gerado Couto*, do blog IMS

Não vi De pernas pro ar, grande êxito de bilheteria, mas suspeito que não seja uma lacuna muito grande na minha formação, a julgar por esta outra comédia do mesmo diretor (Roberto Santucci), Até que a sorte nos separe. Podem me chamar de rabugento e mal-humorado, mas vi poucos filmes tão desagradáveis quanto este último, que, ao que parece, também é um sucesso.

O gênero a que se filia é a screwball comedy, a comédia maluca de casal que teve seu auge na época da Depressão norte-americana pelas mãos de diretores como Leo McCarey, Frank Capra, Howard Hawks e George Cukor. No Brasil, um exemplo bem-sucedido é Se eu fosse você, de Daniel Filho.

Trata-se aqui, em resumo, da história de um casal (Leandro Hassum e Danielle Winits) que ganha uma fortuna na mega-sena e a dissipa em alguns anos, por conta de um exacerbado consumismo exibicionista. Tudo é estridente, enfático e redundante no modo como essa comédia se desenrola, do roteiro eivado de clichês (tudo bem um ou outro, mas não todos juntos) à mise-en-scène quadrada, passando pelas atuações histriônicas, típicas de programas humorísticos de TV.

TEXTO-MEIO

Com exceção das imagens aéreas do Rio, logo no início, não há no filme um único plano criativo ou original. Minto. Há um: a cena em que o casal de vizinhos rivais dos protagonistas (Kiko Mascarenhas e Rita Elmor) discutem no banheiro e a câmera está posicionada onde seria o espelho, com os atores vistos em diagonal, falando para fora do quadro (como se falassem um para a imagem do outro no espelho). Uma passagem banal, mas que fornece um certo alívio por sair do tedioso campo/contracampo da maior parte da narrativa.

No mais, é uma obviedade atrás da outra. Se a mulher quer seduzir o marido para que este a engravide, o que ela faz? Veste um corpete preto com rendas vermelhas, uma máscara e faz “miau”. E pela enésima vez no cinema recente, somos forçados a ver um homem obeso (o protagonista) expor-se ao ridículo de dançar com uma roupa colante numa aula de aeróbica. E o embate entre o gordo expansivo (Hassum) e o magro metódico (Mascarenhas) provoca saudades de John Candy e Steve Martin em Antes só do que mal acompanhado (1987), de John Hughes.

Até uma piada potencialmente boa, a do boneco sentado na cadeirinha de bebê de um carro para enganar possíveis assaltantes, é conduzida de modo burocrático e esticada até perder a graça por completo.

Mas os espectadores – uma parte deles, pelo menos – riem, o que explica a boa bilheteria do filme e comprova que o humor, de fato, é uma coisa subjetiva. Riem, por exemplo, quando o protagonista, abalado pela notícia de que a mulher está grávida, rouba a máscara de oxigênio de um paciente numa maca de hospital, deixando o infeliz arfando à beira da morte – e a mesma gag é repetida na sequência dos créditos finais. Riem quando Danielle Winits espanca um ladrão em sua casa com um pé de cabra, deixando o sujeito cheio de hematomas e sem um par de dentes. Posso estar enganado, mas acho que esses risos são o produto de uma sensibilidade moral e estética (de)formada por anos e anos de “videocassetadas” e episódios de Jackass.

Mas o que há de pior são os momentos sérios, com musiquinha edificante e discurso de autoajuda. Por exemplo, quando a protagonista, que fez dezenas de plásticas e passa o tempo todo comprando joias, perfumes e roupas, quando não está no salão de beleza, diz ao marido: “Você não vê a mulher que eu sou? Pensa que sou uma perua fútil?”

Preocupante é ver produtores sérios e competentes envolvidos com essa coisa. Mais preocupante ainda é saber que vem aí De pernas pro ar 2.

Para não cair em depressão, e lembrar que o humor pode ser outra coisa, aqui vai um trecho de Levada da breca, de Howard Hawks, realizado há 74 anos – e mais novo que Até que a sorte nos separe:


*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS.

Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.