Revolução nos dias de hoje?

Dez diretores foram convidados a realizar um filme sobre os 100 anos da Revolução Mexicana. O resultado, amargo e lúcido, permite pensar sobre como a arte reflete a memória coletiva de um povo.

Por Bruno Carmelo, editor do blog Discurso-Imagem.

Às vezes a situação política de um país realmente não ajuda a carreira comercial de um filme. Pouco após a diretora americana Kathryn Bigelow ter que renunciar ao seu projeto de filme de ação sobre a busca por Bin Laden (por razões óbvias), foi a vez deste filme mexicano, Revolución, concebido para estrear durante o ano do México na França, ser completamente ignorado desde que os incidentes democráticos entre os dois países (em função do caso Florence Cassez) impediram as comemorações. Uma estreia sem nenhuma publicidade, sem o apoio de nenhum cinema “de arte”, apenas algumas poucas salas de exibição corajosas.

Uma pena, diga-se de passagem, já que este filme curioso teria tudo para conseguir uma boa visibilidade. Ele consegue reunir dez dos nomes mais importantes do cinema nacional (Amat Escalante, Carlos Reygadas, Diego Luna, Fernando Eimbcke, Gael García Bernal, Gerardo Naranjo, Mariana Chenillo, Patricia Riggen, Rodrigo García e Rodrigo Plá) e lhes confere carta branca para criar curtas-metragens sobre o tema “o que resta da Revolução Mexicana atualmente”, neste ano que comemora os 100 anos deste movimento popular pelos direitos dos trabalhadores.

TEXTO-MEIO

Com total liberdade mas provavelmente um orçamento bastante limitado, os diretores partiram em busca de saídas criativas, e todas curiosamente pessimistas, amargas. Este tipo de filme-comemoração geralmente acaba se tornando uma oportunidade para que os diretores minimizem os fatos passados para retratar o presente, e esta obra não é uma exceção. Talvez seja esta uma postura política das mais interessantes: pensar como os dias atuais também poderiam (ou não) reclamar seus direitos e marcar a história.

O resultado exclui portanto as referências diretas aos fatos históricos. A revolução é citada de maneira metafórica, pela luta de classes (R-100, La tienda de raya) pelo embate México-Estados Unidos presente em três curtas (com a presença de símbolos cristalizados do colonialismo cultural como Big Mac e Coca-Cola), pelas injustiças sociais ao trabalho. Quatro dos dez curtas escolhem crianças ou jovens para retratar este tema – maneira de afastá-los das memórias fatuais que não conheceram. As verdadeiras comemorações do evento são mostradas como vazias, folclóricas, unicamente eleitorais (La Bienvenida, 30/30). Nem saudosista, tampouco histórica, esta lembrança do passado nacional apresenta uma certa militância apartidária, mas reivindicativa e anticonformista.

Dois curtas ousam retratar o furor revolucionário, na forma mais do que no conteúdo. Trata-se dos dois realizadores mais acostumados a retratar a violência explícita em seus filmes: Amat Escalante (Los Bastardos) e Carlos Reygadas (Batalla En El Cielo, Japón). O primeiro cria em El Cura Nicolás Colgado uma espécie de conto surrealista, que se inicia como drama regional e histórico em terras áridas e termina com uma absurda incursão ao mundo de hoje, de maneira brutal e com o impacto de um belo filme de horror – nunca um McDonald’s havia sido mostrado de maneira tão assustadora.

Carlos Reygadas decide mostrar uma festa entre amigos no curta Este es mi reino (imagem acima). Esta estranha reunião se aparenta a um grande churrasco em família, exceto pelo fato que existem pessoas de todas as raças, classes, cores, idades. Convivem à mesma mesa o mendigo e algumas madames bebendo champanhe. Aos poucos, as pessoas começam a destruir um carro. Não se tem maior contexto sobre a simbologia deste carro, sobre a motivação da reunião e da destruição, mas com uma câmera na mão o diretor persegue este movimento de grupo, esta pequena reunião destinada a representar o México todo, onde as vontades de algum são validadas pelos atos dos outros, e em breve o grupo inteiro se entrega abertamente à destruição e ao fogo. Nada mais será dito: o movimento rumo a uma revolução encontra-se todo contido ali.

Pode-se reclamar da heterogeneidade, algo mais que natural num filme coletivo, e pode-se também acusar estes diretores de terem “evitado o tema” para aplicar suas temáticas e formas de predileção. Mas do personagem que mata outros homens para roubar seus carros e salvar o amigo enfermo (R-100) aos fantasmas revolucionários que cavalgam em câmera lenta numa rua dos Estados Unidos, entre carros e semáforos (La 7th y Alvarado), este coletivo mostra principalmente uma força sintomática, uma vontade de evitar a armadilha saudosista para refletir, ao contrário, sobre o fato que ainda falta muito a fazer. E isto sim, é uma boa maneira de relembrar a força de uma manifestação popular.

 

Revolución (2010)
Filme mexicano dirigido por Carlos Reygadas (Este Es Mi Reino), Rodrigo Plá (30/30), Amat Escalante (El Cura Nicolás Colgado), Mariana Chenillo (La Tienda de Raya), Patrícia Riggen (Lindo y Querido), Gael García Bernal (Lucio), Diego Luna (Pacífico), Gerardo Naranjo (R-100), Fernando Eimbcke (La Bienvenida), Rodrigo García (La 7th y Alvarado).

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Bruno Carmelo

Mestre em teoria do cinema pela Universidade Sorbonne Nouvelle - Paris III, e autor de duas dissertações sobre a crítica de cinema. Trabalha como editor e crítico de cinema no site AdoroCinema.