Resistência palestina: agora, no coração de Israel

Em 15/10, na fronteira com a Faixa de Gaza, jovens árabes enfrentam gás lacrimogênio das forças de segurança. Telaviv trata-os como cidadãos de segunda categoria. Eles solidarizam-se com quem vive em territórios ocupados

Em 15/10, próximo à Faixa de Gaza, jovens árabes-israelenses enfrentam forças de segurança. Telaviv trata-os como cidadãos de segunda categoria. Eles solidarizam-se com quem vive em territórios ocupados

Quem são os jovens “árabes israelenses”, que se levantaram mesmo sem liderança política. As chances de uma “3ª Intifada”. Por que Telaviv perdeu o rumo

Por Élisabeth Marteu, no Orient XXI | Tradução: Inês Castilho e Antonio Martins

várias semanas, os palestinos de Israel mobilizam-se para apoiar a revolta popular lançada no início de setembro, em Jerusalém Oriental em torno da defesa do status quo que rege o acesso ao Nobre Santuário, ou Monte do Templo. As manifestações organizadas em Nazaré, Sakhnin, Oum Al-Fahm ou Rahat levantam a questão de uma eventual rebelião, agora no próprio interior de Israel. Telaviv acusa os principais líderes políticos palestinos de fingir ignorar que os árabes vivendo em Israel são parte do povo palestino. Esse movimento, que vai bem além da problemática dos lugares santos, apoia-se em Jerusalém como ponto de convergência de todas as frustrações dos palestinos, de Gaza à Cisjordânia, passando por Neguev e a Galileia.

Ninguém sabe se as violências atuais tomarão a forma de um levante coletivo duradouro ou se reduzirão a intensidade para recomeçar mais fortes no próximo incidente. Elas marcam, pelo menos, o início de uma nova forma de expressão popular para os palestinos, baseada quase exclusivamente às vezes em atos de violência (inclusive individual) e na dificuldade de encontrar formas de expressão política e de líderes capazes de canalizá-la. Para piorar o sentimento geral de medo e o abismo irreversível entre judeus e árabes no seio do Estado israelense, a participação dos “árabes israelenses”, ou “palestinos de 1948” nesse movimento confirma o fracasso da política comunitária israelense. Sem falar do ideal inextricável e ilusório de estabelecer um Estado judeu e democrático, é preciso frisar que nada foi feito para impedir que os cidadãos árabes acabassem por se rebelar. Preferindo apostar em acordos confessionais e medidas pontuais de assistência, Telaviv não quis ver um fato evidente: os árabes que vivem em Israel são parte do povo palestino e sua identificação com a causa nacional é tanto mais forte que, depois de 1948, Israel os trata como cidadãos de segunda classe e “inimigos internos”.

Sua participação nas revoltas não é nova. Eles sempre manifestaram solidariedade com os palestinos dos territórios ocupados, em particular durante a primeira e a segunda Intifadas – nesta, 13 manifestantes foram mortos na Galileia, em outubro de 2000. Sua mobilização política, além disso, passou por uma grande evolução na virada dos anos 2000, quando emergiu uma geração militante engajada ao mesmo tempo em partidos e num ambiente associativo plural e dinâmico. Aquilo que foi definido por alguns como um processo de “palestinização” foi na verdade a chegada, ao espaço público, de uma geração que assumiu sua identidade palestina e lidou bem melhor que as anteriores com as engrenagens do sistema político israelense.

Apesar dos alertas lançados pelo Shin Bet – o serviço interno de vigilância de Israel – há muitos anos, os governos israelenses, de direita e centro-esquerda, preferiram marginalizar os palestinos israelenses. As medidas tomadas para desenvolver o setor econõmico árabe, à falta de uma verdadeira política de igualdade, não foram suficientes para responder ás frustrações de uma população beduína que se sente expropriada, de uma sensibilidade local que se sente rebaixada ou de uma juventude que deseja externar sua solidariedade com os palestinos de Ramallah, Nablus e Gaza.

Mais visíveis que no passado, os líderes políticos palestinos de Israel assumiram, nos últimos meses, um novo lugar na luta, no próprio coração de Jerusalém. O primeiro-ministro Benyamin Netaniahu foca sobre eles sua atenção, ao tomá-los como responsáveis pelas violências, ao não poder culpar a Autoridade Palestina e o Hamas – estes dois movimentos foram forçados a deixar a cidade, no começo da segunda Intifada. Dois personagens são particularmente denunciados: Hanin Zoabi, do partido nacionalista árabe Tajamu (ou Balad) e Chikh Rael Salah, líder da ala norte do Movimento Islâmico.

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Dois líderes políticos árabes

Hanin Zoabi, primeira mulher eleita deputada por um partido árabe em Israel, tornou-se conhecida desde sua participação na Flotilha da Liberdade, em 2010. Desde então, não deixou de provocar debates no Parlamento, realçando sua identidade palestina, denunciando a política israelense de apartheid nos territórios ocupados e defendendo abertamente a solução de um só Estado democrático para israelenses e palestinos, do Mediterrâneo à Jordânia. Ao romper tabus políticos, muitas vezes em discursos inflamados, ela atiça a raiva de uma grande parte dos israelenses. Netanyahu pediu recentemente, ao Procurador Geral, que a processe, por seu apelo em favor de uma “intifada popular”

Por meio do Movimento Islâmico, os árabes israelenses também tiveram um papel direto nas manifestações no coração da velha Jerusalém. Rael Salah tornou-se uma figura indispensável da ação islâmica assistencial e cultural na cidade. A ala norte do Movimento Islâmico mobiliza-se há mais de quinze anos em torno da questão dos lugares santos, sob o slogan “Al-Aqsa está em perigo”. Sua ação em Jeresalém Lestes intensificou-se depois da partida forçada da Organização pela Libertação da Palestina (OLP) e do Hamas. Salah constituiu a organização dos Mourabitoun, ou Sentinelas (para homens) e Murabitat (para mulheres), reunindo gente (na maior parte originária das regiões árabes de Israel) encarregada de estar todos os dias presente à Esplanda das Mesquitas. Levados a Jerusalém quotidianamente, por ônibus fretados pelo Movimento Islâmico, as Murabitat jogaram papel decisivo na denúncia do não respeito do status quo da área por Israel. Após choques com a polícia israelense, Netanyahu acusou-se de estar na raiz das feridas da cidade velha e decidiu proibir sua presença, em 8 de setembro.

Um “Estado de todos os cidadãos”

As forças políticas árabes reúnem 13 deputados no Knesset (o Parlamento) e um Alto Comitê encarregado de funcionar como instância representativa. Há mais de quinze anos, seu discurso coloca em questão os fundamentos ideológicos, e em parte durídicos, do Estado de Israel. Estas forças não questionam publicamente a existência de Israel. Ao invés disso, estão de acordo em reivindicar que este se converta em “Estado de todos os cidadãos”. Apesar de seu ativismo, não chegam a coesionar um movimento maciço em seu redor. Uma parte importante da população árabe considera-as ineficazes na proteção de seus direitos e interesses, em especial devido a sua marginalização no Parlamento

Surgiram, inclusive, divergências no seio da classe política, em especial em Nazaré, onde o prefeito acusou Ayman Odeh (líder do Partido Comunista e da Lista Árabe Unida no Parlamento) de colocar a cidade sob pressão mais intensa e de afugentar os turistas e visitantes judeus. Ao convocarem manifestações – como no Dia de Cólera, em Nazaré, em 10 de outubro, ou em Sakhnin, em 13 de outubro, com participação de 20 mil pessoas –, os partidos políticos árabes foram, eles próprios, ultrapassados. Em consequência, os apelos à calma de alguns líderes podem não ser suficientes para deter a espiral de violências que eclodiu em Alufa, em 9 de outubro (uma mulher maorta com uma faca à mão), Hadera, em 11 de outubro (um ônibus conduzido por um árabe, lançado sobre quatro cidadãos judeus) ou em Bee Sheva, em 18 de outubro (um beduíno apunhalou um soldado).

Uma revolga interna ingovernável

A exemplo do que ocorre em Jerusalém e na Cisjordânia, a juventude árabe israelense não espera nada de seus líderes políticos e mobiliza-se sozinha – seja em bases coletivas ou individuais. Mesmo o Movimento Islâmico, que desfruta de largo apoio popular, graças a sua ação social e seu boicote às eleições israelenses, não é capaz de se converter em ator político hegemônico. Os nacionalistas, assim como os islamitas, são sempre palestinos de Israel e sua audiência não costuma ultrapassar os limites dos espaços israelenses. Já contestados entre os cidadãos palestinos, os movimentos não conseguirão tornar-se o centro nevrálgico de uma Intifada palestina.

Expressando-se em manifestações ou em ataques espontâneos, com armas brancas, a atitude futura dos palestinos israelenses dependerá essencialmente da evolução dos acontecimentos em Jerusalém Leste e na Cisjordânia. Mais que nunca, utilizam-se os mesmos modos de agir dos palestinos dos territórios ocupados. A articulação de um contínuo de ações, ou de um mimetismo insurrecional, inquieta em particular os serviços israelenses de vigilância e controle social – porque se exprime no coração do território israelense e é agora tão imprevisível como o que se passa dos territórios palestinos ou nos bairros árabes de Jerusalém.

As autoridades israelenses sabem que esta ameaça potencial interna seria ainda mais desestabilizadora, porque haveria enorme dificuldades para repetir os métodos repressivos empregados na Cisjordânia ou em Jerusalém Leste (bloqueios, pontos de controle, muros de separação, destruição de casas etc). Haveria risco real de incendiar, em seu conjunto, as cidades árabes israelenses. Por enquanto, os serviços de polícia estão orientados a evitar qualquer escalada conflitiva. Enquanto isso, as respostas propostas por certos setores – retirada da cidadania israelense, toque de recolher nas áreas árabes, recondução dos empregados árabes a escolas etc – confirmam: Israel ainda não sabe como gerir 20% de sua população.

TEXTO-FIM
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