Reacionarismo: a marca das nossas comédias recentes?

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Na aparência, ingenuidade de O Carteiro difere da malícia high-tech nas comédias da GloboFilmes. Mas há algo comum a estas obras…

Por Bruno Carmelo, editor do Discurso-Imagem.

Quando fui assistir ao filme O Carteiro, comédia dirigida por Reginaldo Faria que estreia nesta sexta-feira nos cinemas, a primeira reação foi a surpresa. E não foi uma surpresa boa: a produção é de uma precariedade lamentável, a direção de arte e a direção de fotografia parecem feitas por técnicos em suas primeiras experiências cinematográficas. O roteiro, sobre uma ciranda de amores em um vilarejo no sul do país, é bastante ingênuo. Mas o fato é que a comédia parece buscar justamente isso: uma certa ode à simplicidade (ou primitivismo), à vida campestre, aos amores puros, religiosos. Com seus bons homens brutos e suas doces mulheres ingênuas, O Carteiro é uma homenagem contemporânea ao bom selvagem.

Pensei na estranheza de se produzir uma obra dessas nos dias de hoje. As comédias populares de sucesso, para o bem ou para o mal, parecem ter abraçado a pós-modernidade. De Pernas Pro Ar brinca com a forma dos vibradores, Até Que a Sorte nos Separe retrata a vida de alta tecnologia da nova burguesia. Não seria anacrônica a comédia de Faria, em seu estilo burlesco, à la Trapalhões, em pleno 2013? Uma comédia sem malícia, sem telefones celulares, que prefere parodiar o circo à Internet?

Ora, algo incomoda, da mesma maneira, nestes dois opostos das comédias nacionais. Algo parece diametralmente afastado da realidade, tanto para o filme que aposta no refúgio bucólico e campestre, quanto para os outros, que adotam uma crônica high-tech e inconsequente. Sob desculpa da caricatura e do humor (“É só piada, não é sério” é a desculpa típica do humor), estas produções acabam veiculando uma mesma ideia de ser humano.

Ambos são igualmente reacionários, no sentido estrito do termo: Alice (Ingrid Guimarães) de De Pernas pro Ar sofre com o excesso de trabalho e descobre, no final dos dois filmes, que o correto é ser uma boa mãe e boa esposa; Tino (Leando Hassum) perde sua fortuna e redescobre os valores da família e do amor em Até Que a Sorte nos Separe. Já o paspalhão Victor (Candé Faria), o carteiro que manipula as cartas dos moradores, nunca descobriu a ganância nem o excesso de trabalho, porque nesta história tanto o trabalho empresarial quanto o próprio capitalismo parecem dar seus primeiros passos.

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Victor seria um ancestral romântico de Alice ou Tino. O carteiro seria o bom selvagem ainda na natureza, enquanto os dois seres gananciosos representariam este mesmo homem, contaminado pela sociedade. A ideia, no fundo, é a mesma. Ao invés de uma visão crítica (fundada na razão), essas produções apresentam um cunho moral, defendendo a pureza dos sentimentos acima da materialidade da vida contemporânea. “Amor é melhor que dinheiro”, aprendem Alice, Tino e também Victor – cujo principal rival, um homem arrogante que deseja sua namoradinha virginal, vem justamente da cidade. Tanto na chave minimalista quanto na ostensiva, tanto a pequena produção (O Carteiro) quanto os opressores produtos da Globo Filmes, existe esta crença, tão antiga e tão moderna, de que o cinema deve ensinar as pessoas a amar. E não há nada mais sagrado, nem mais profano, do que uma arte de massa querendo pregar ao público os valores da humanidade.

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Bruno Carmelo

Mestre em teoria do cinema pela Universidade Sorbonne Nouvelle - Paris III, e autor de duas dissertações sobre a crítica de cinema. Trabalha como editor e crítico de cinema no site AdoroCinema.