Razão impossível: As Noites de Flores, de Cesar Aira

 

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Em romance de escritor argentino, realidade surpreendente choca-se com imagens previsíveis da TV – e é como se, por isso, fosse viva, porém inverossímil

Por Bruno Lorenzatto

“As correspondências arte-realidade o tinham absorvido.
E já havia deixado de lhe importar que arte fosse inexistente e a realidade casual.
A convergência criava uma forma distinta de realidade na qual tudo era contíguo.”

Cesar Aira

TEXTO-MEIO

Cesar Aira, “o segredo mais bem guardado da literatura argentina”. Tal é o modo como foi chamado pelo suplemento de um jornal espanhol, indica Carlito Azevedo, poeta, crítico e editor carioca, ao comentar a obra do escritor latino-americano. Conterrâneo de Jorge Luis Borges e Júlio Cortazar, Aira — hoje com mais de 60 livros publicados –  dá continuidade à notável tradição literária argentina. Uma literatura reconhecida por sua inventividade e riqueza estética, tanto formal como temática.

Como se sabe, a literatura é uma prática que resiste ou contesta a tagarelice, o senso comum, o discurso repetitivo e vazio que as instituições que regulam a vida não cessam de proferir. “A cultura é a regra; a arte, exceção”, dizia Godard em Je vous salue salue, Sarajevo (1993).

O espaço literário inventado por Aira em As noites de Flores – livro publicado no Brasil em 2006 – é aquele onde a narrativa faz a arte confundir-se com a realidade, subvertendo ambas: a arte condicionada pelos editais, cooptada pelo mercado, e a realidade inventada pela televisão, onde domina a ausência de pensamento e crítica. A ficção descreve uma realidade irredutível ao discurso televisivo ao mesmo tempo em que questiona certa visão elitista da arte como cultura, como modo de integrar-se à sociedade e a seus valores. Mas também coloca sob suspeita certo procedimento da arte contemporânea, aquele que faz coincidir “qualquer coisa com qualquer outra coisa”.

A ficção se passa no bairro de Flores, região acossada pela crise econômica na Argentina. A especulação imobiliária que segrega o bairro, o aumento da violência, a miséria e a decadência da classe média constituem a paisagem socioeconômica de Flores. Um casal de meia-idade faz entregas noturnas em domicílio para uma pizzaria para complementar a renda. Um sequestro que acaba em tragédia e estranhas coincidências ocorrem.

Por fazer a pé o serviço, o casal via “a coisa tal como ela era” nas ruas do bairro, de modo que podia em parte escapar da “indistinta área da realidade onde estava a televisão e as fantasias coletivas.” Lugar onde o medo é veiculado e através do qual é transformado em afeto determinante da subjetividade. Uma realidade inverossímil – e que desconcerta por suas novidades – é contraposta ao mundo criado pelas imagens obsessivas da TV, que transformam a diversidade dos fatos numa repetição do mesmo: ali nenhum princípio é questionado, tudo está ordenado segundo regras e valores bem estabelecidos. Mesmo os acontecimentos com maior potencial de surpreender, espantar e suscitar pensamento e crítica, estão inseridos em modelos simplificadores e preconcebidos. Voltando a Godard, a televisão é a cultura; as “noites de Flores”, exceção.

No bairro argentino as noites se desdobram de maneiras imprevisíveis e regidas inteiramente pelo acaso. No mesmo bairro, na mesma rua ou na mesma casa, os lugares se multiplicam, como realidades paralelas. Tudo dependerá do lugar em que se encontra, do que pode ver e saber cada personagem, que por acidente descobre, ao mesmo tempo que o leitor, outros mundos possíveis.

Um hábil narrador-observador, numa linguagem sóbria e objetiva, descontroi os fatos que narra e conduz o leitor através de acasos a verdades no interior da narrativa, que confundem mais do que esclarecem. Em “13 variações sobre Cesar Aira”, Carlito Azevedo conta que o poeta Anibal Cristobo atribuía a Aira a seguinte tese: “a literatura é o contrário da psicanálise, pois enquanto esta parte de um mal-entendido para chegar a uma verdade, aquela parte de uma verdade para chegar a um mal-entendido.” Em As noite de Flores (2004), Cesar Aira parece colocar em prática essa ideia de literatura – que é também um modo crítico de pensar sobre as coisas.

Um recurso comum na literatura é criar expectativas de resolução para algum conflito para depois surpreender com o desfecho. Cesar Aira não percorre este caminho fácil. O autor surpreende sem criar expectativas – inesperadamente refuta o que antes parecia evidente, abrindo novos horizontes de compreensão / incompreensão para os episódios narrados.

No decorrer da história, dados que sequer despertavam a menor margem de dúvida, pois apareciam como pontos estáveis da narrativa – iremos descobrir com certo assombro –, não passam de mal-entendidos. No entanto, a descoberta de uma verdade ou de outra irá não apenas reorganizar os fatos, mas também tornar tudo mais estranho e absurdo. As verdades dentro da ficção, das quais tomamos conhecimento na evolução do livro, não vêm para apaziguar a história, ao contrário: o caos será pouco a pouco (ou repentinamente) instalado. Uma certeza dá lugar a outra certeza; mas nada poderá garantir que esta última não constitui um novo engano; até que ordem das coisas culmine num estado crítico que beira o disparate, o irracional.

Uma vez que o leitor só tem acesso a certas verdades – que nos conduzem a mal-entendidos – por redes complexas de acasos que revelam fatos improváveis, um abismo vertiginoso de desconhecimento é pressentido. A parte do que não é dado a conhecer parece aumentar a cada vez que uma nova “verdade” surge. O paradoxo de Aira: quanto mais eu sei, talvez menos eu saiba.

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Textos
As noites de Flores, de Cesar Aira. Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2006.
13 variações sobre Cesar Aira, Carlito Azevedo, Flip 2007.

TEXTO-FIM
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Bruno Lorenzatto

Licenciado em história e mestre em filosofia pela PUC-Rio