Quero que você cresça logo

Por Daniel Cariello (Chéri à Paris)
Imagem: apdk (No Flickr, liberado em Creative Commons)

Quero que você cresça logo pra você dar seus primeiros passos e poder andar de mãos dadas comigo na rua, você se esticando toda e eu me abaixando, até você ficar cansada e abrir os bracinhos pra mim, pedindo colo sem precisar dizer uma só palavra.

Quero que você cresça logo pra gente passear no parque, fazer piquenique, montar na gangorra, girar no roda-roda até ficar tonto e sair tropeçando, bater um pique-pega, construir castelo de areia, destruir castelo de areia, subir no escorregador pela parte de descer, esquecer o baldinho e a pazinha num canto, voltar mais tarde pra procurá-los e aproveitar pra brincar um pouquinho mais. E à noite te contar mais uma história pra você dormir e depois deixar a luz do corredor acesa, pois você tem medo dos monstros.

Quero que você cresça logo pra te levar com a sua mãe pro cinema e ler pra você as legendas em voz alta, atrapalhando todo mundo ao lado, inclusive a sua mãe, enquanto a gente ataca um balde de pipoca com muita manteiga, deixando mais da metade cair no chão, e depois sair da sessão com a barriga doendo de tanto rir daquele filme bobo, procurar uma barraquinha de cachorro-quente e devorá-lo andando na rua, a gente nem se importando que o molho escorra e meleque as nossas camisas.

Quero que você cresça logo pra te ensinar a tabuada do 7, a conjugação do verbo cavalgar no pretérito mais que perfeito, a história dos Beatles, a localização do planeta Júpiter e a importância de comer alface.

Quero que você cresça logo pra gente ir à praia fazer mais uma etapa do campeonato mundial de jacarés, seguida do famoso concurso de quem come mais picolés de côco e, ao voltar pra casa, realizar a tão esperada finalíssima do torneio de video game, com todas as suas amigas pulando freneticamente e gritando mais alto do que uma turbina de avião.

Quero que você cresça logo pra eu me fingir de malvado para todos aqueles garotos da rua que querem te namorar porque você é uma linda mocinha, assim como se fingiam de malvado os pais das meninas por quem fui apaixonado, mas que depois se revelavam pessoas bacanas e até me convidavam pra ficar pro lanche.

Quero que você cresça logo pra ficar emocionado, num misto de alegria e nostalgia, quando você for embora de casa para morar em um apartamento do tamanho de uma caixa de ovos e achar isso o máximo, super orgulhosa da sua total independência, até o dia em que a pia do banheiro começa a vazar às 3 da manhã e você se lembra de ligar pro velho pai e pedir aquela forcinha na bricolagem de emergência do cano furado.

TEXTO-MEIO

Quero que você cresça logo para um dia você descobrir que não existe felicidade maior do que ter seus próprios filhos e vê-los crescer, mudar e evoluir, e nesse dia é bem provável que eu seja um avô dos mais deslumbrados.

Pensando bem, quero mesmo é que você cresça bem devagar, pra eu poder aproveitar muito desses e de tantos outros tantos momentos ao seu lado, minha filha Louise.


Daniel Cariello
, editor de Brazuca e co-autor da entrevista, é colaborador regular da Biblioteca Diplô /Outras Palavras. Escreve a coluna Chéri à Paris, uma crônica semanal que vê a cidade com olhar brasileiro. Mantém um blog, com o mesmo título. Os textos publicados entre março de 2008 e março de 2009 podem ser acessados aqui.

TEXTO-FIM
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Antonio Martins

Antonio Martins é Editor do Outras Palavras