Corpos negros ensanguentados no chão

Hands silhouettes made with painting  on a wall

“Ninguém perguntou, mas Paulo, Léo e Isaque têm mais de chances de serem mortos do que Eduardo” – um conto sobre racismo e violência

Por Higor Faria

Durante as férias de janeiro, Paulo nasceu numa fazenda de soja no interior de Goiás. A bolsa estourou e sua mãe não teve tempo de correr para o hospital fazer a cesária como o médico havia planejado. Quem fez seu parto foi a sogra do caseiro, uma mandigueira das fortes. “A parteira que trouxe o pretinho herdeiro da soja ao mundo”, como diziam os racistas que cercavam aquele casal. E ainda emendavam num “onde já se viu?!”. Paulo cresceu, mas não muito. Foi pra capital cursar agronomia, pois aprendeu que seria o mais certo para tocar bem os negócios da família. Na faculdade, percebeu que não havia outros negros na sua turma, alguns poucos em outros semestres do seu curso e um pouquinho mais se juntasse todos de toda a universidade. O ambiente era hostil, mas dava para superar. Já havia se acostumado a ser o único negro do lugar.

No semestre que se iniciava, Paulo pegou uma matéria noturna, a primeira de sua vida acadêmica. Até pensou em não ir no primeiro dia de aula para não ter que aguentar aquela baboseira de apresentação. Cochilou e acordou atrasado, vestiu qualquer roupa, entrou no carro e foi. No caminho, percebeu que a camisa tinha espichado depois de lavada e os shorts estavam meio sujos — “Merda!”, pensou “se eu voltar pra casa não vou mais para a faculdade, o jeito é ir assim mesmo. Foda-se!”. Estacionou, desceu e se lembrou do celular que tinha ficado no porta-luvas. Voltou e, ao entrar no carro pela porta do passageiro para pegar o telefone, ouviu um disparo. Virou-se assustado, viu dois policiais mirando a arma para ele que, em seguida, gritaram “Mãos ao alto, marginal”. Paulo paralisou. Não conseguiu levantar os braços. O policial repetiu o que havia berrado e, antes que Paulo tentasse levantar as mãos, recebeu três tiros no peito. Ninguém perguntou o que Paulo fazia ali: corpo negro ensanguentado no chão.

Léo tinha 18 anos e era vendedor de bebidas na porta das baladas, as vezes passava alguns ilícitos também para complementar a renda. As vendas até iam bem, obrigado. Ele cantava durante o esquenta que os clientes faziam na porta da festa. Isso chamava atenção da galera, animava a “playboyzada” e até rendia uns beijinhos com as “minas”. Na verdade, ele queria ser artista reconhecido e famoso, compôs uma música para cantar com Carlinhos Brown — seu ídolo que, como Léo, usa dreads, é preto e sempre tá de sandálias. Todos gostavam do som de Léo. Porém, ele não tinha tempo para se dedicar somente à música. A mãe contraiu trombose nas duas pernas e sua pensão que não era alta ia toda na prestação do lote que compraram num bairro de Salvador. Léo precisava cuidar da mãe e de duas irmãs mais novas. E isso incluía alimentação, água, luz, transporte, educação e todas essas coisas se precisa para sobreviver.

TEXTO-MEIO

Fecharam a balada que mais rendia vendas para Léo. A “playboyzada” lhe disse que outra ia abrir num bairro classe-média não muito longe dali. Parte dos seus clientes estariam lá, rapidamente ele conquistaria outros — não tinha tanto problema. Léo estava confiante. E a noite foi boa. Lugar novo atrai muita gente. Deu pra vender bastante, só as “minas” que não olhavam para ele. “Não posso reclamar”, pensou. Quando estava juntando seu isopor e as latas de cerveja para ir embora, ele avistou uma carteira no chão. Honesto, achou melhor entregar na portaria da balada. Guardou suas coisas na carreta e, poucos antes da entrada, foi barrado por dois brutamontes que estavam na porta da balada. Mal disse para que veio e os seguranças logo avisaram que ali não era lugar de preto. Léo, que não era de aguentar racismos, começou a bater boca. Dada a diferença entre ele e os dois gigantes, a discussão beirava a mais baixa covardia e piorou quando um dos seguranças sacou a arma e atirou em Léo. A polícia demorou a aparecer e inventaram qualquer motivo ligado à legítima defesa. Estava tarde e um dos seguranças conhecia o policial: mal fizeram uma investigação. Ninguém perguntou porque Léo estava ali: corpo negro ensanguentado no chão.

É sexta-feira e, religiosamente, Isaque se veste de branco e mal sabe porque. Na verdade sabe, mas prefere fingir que não para não ser vítima de intolerância, diz que é um costume de família — o que não deixa de ser verdade. Acostumou-se a se vestir assim e descobriu que fica bem de branco. Mesmo sendo difícil mantê-las limpas (lá onde mora não tem asfalto e venta muita poeira), fazia questão das roupas brancas porque “dá um contraste legal”na pele preta. Desceu o morro ouvindo as piadas de sempre, chegou na escola e continuou ouvindo as mesmas piadas. Até o professor se arriscou num trocadilho infame, usando Cuba, mais médicos e macumba. A sorte (dos outros) é que era dia de paz. Ahhh se fosse quarta-feira, dia de dendê… Isaque já tinha dado resposta a todos. Nunca teve muita paciência mesmo.

Ele tinha 13 anos e não sabia bem o que queria ser da vida. Normal não ter ideia de profissão nessa idade. Sabia que queria ser rico e ter poder na sociedade. E estudava muito, porque disseram para ele que, quando não tem perna pra futebol e nem sabe cantar, só assim que “preto cresce na vida”.

Ele não entendia bem como outras pessoas negras que não tem esses dois talentos não aparecem nos lugares de dinheiro e poder. “Será que não conseguem?”, pensou, mas não se deixava abater e logo se motivava “Serei o primeiro então”. Voltando da escola com um grupo de amigos, um coleguinha branco começou a torrar a pouca paciência de Isaque . Sabia que não deveria revidar, mas os colegas o desafiaram e ele não aceitava perder. Nunca! Foi pra cima do seu adversário e lá começaram uma briga desengonçada. Coisa de criança. Apesar de ser menor, Isaque levava a melhor na disputa. Duas senhoras viram e disseram a um guarda que estava na esquina que um negão estava batendo num menino-de-bem (leia-se branco) — aumentativo típico do racismo fofoqueiro. O policial correu e viu que o menino branco parecia muito com seu filho. Corou de raiva, vermelho feito um camarão. Gritou e a molecada correu. Cada um para um lado. O policial perseguiu Isaque e, vendo que não ia alcançar o menino que se movimentava como um raio, atirou e acertou as suas costas. Isaque urrou como um trovão e um vento forte cortou a cidade. Ninguém perguntou porque Isaque brigava: corpo negro ensanguentado no chão.

Eduardo é jovem, branco e está vivo… A história dele dura mais que dois parágrafos e são usadas reticências. Mal sabe ele que tem mais oportunidades do que os jovens negros. Ninguém perguntou, mas Paulo, Léo e Isaque têm mais de chances de serem mortos do que Eduardo.

TEXTO-FIM
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Higor Faria

Higor Faria é preto, publicitário, estuda masculinidade negra e escreve no https://medium.com/@higorfaria

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