Quando o decisivo é construir espaço

Duzentas pessoas reuniram-se no 15-O carioca. Batucaram, brincaram, falaram de mudar o mundo. Eram poucas, mas estavam inventando algo

Primeiro eles ignoram você
depois eles riem de você
depois eles reprimem você
e então você vence.
” (Gandhi)

Por Bruno Cava, do Rio de Janeiro

Formou-se uma assembleia. Umas duzentas pessoas. No chão, cartazes derramados. As pessoas vinham ao centro e falavam. Qualquer pessoa. Falavam de descontentamento, indignação, impulso de fazer diferente, mudar o mundo, elas brincavam, erravam, dançavam, batucavam, alguns desinibidos, outros sem graça. Ali falaram gente-da-internet, gente-das-artes, gente-da-zona-sul, gente-da-militância, moradores dos morros do Chapéu-Mangueira e Babilônia, ativistas de squats, professores, estudantes, midialivristas, de tudo um pouco, inclassificáveis no conjunto e nas relações desenvolvidas. Havia vários negros, havia pobres que falavam a linguagem assim materialista, que chama as coisas pelo nome, uma outra relação pessoal com os objetos, as mãos, o espaço. As pessoas falavam e as pessoas escutavam, sem muita disciplina. Jamais anarquistas: auto-organizadas.

E assim foi a dinâmica naquela tarde de muito frio e chuva na Cinelândia, último sábado no 15-O carioca. Aclamou-se por acampar na semana seguinte. Foram divididos grupos de trabalho para as questões práticas. Definiu-se o slogan: A casa caiu, levanta o barraco — polissêmico, ressonante à política pública de submissão da cidade e remoção de pobre. O frio piorou, a chuva insuportável. Entre Festival do Rio e tão atraente agenda cultural, quem estava ali realmente queria estar. Esses voltarão. E trarão mais gente.

TEXTO-MEIO

Sim, era vago. Mas tinha de ser. Quem anseia por um programa, não verá tão cedo. Chegar pautado seria repetir a fórmula de partidos e jornalistas. Primeiro, é caso de produzir o espaço em que se criará. A ocupação se trata disso: lançar um espaço social, uma forma, para que os conteúdos sejam criados, compartilhados e difundidos.

No começo, havia um grupo do PSTU. Uniformizado, bandeiras, slogans do udenismo esquerdista anticorrupção. Grotesco. Ofereceu megafone e se pretendeu conscientizar. Mas algumas pessoas foram lá e pediram pra que saíssem. A forma não estava condizente. Aí o movimento em estado fetal já deu o primeiro recado. As formas da representação não são toleradas. Gente-de-partido pode, mas não venha com fidelidade partidária ou palanque eleitoral, para se apropriar com mídia. Tampouco é caso de partidofobia. O movimento não se pauta por isso e não é pluralista para aceitar tudo. Não há relativismo nem chapa-branca. Quase toda a diversidade de conteúdos bem-vinda, mas dentro de certa forma do emergente ciclo de lutas. Isso ficou ainda mais claro nas falas e debates. Se o desejo é reprogramar o sistema, não pode começar adotando seus próprios algoritmos: a forma-partido, as eleições, a fidelidade aos mandatos, a grande imprensa. Todo o ímpeto das acampadas e mobilizações globais está em inventar a democracia real como resposta à democracia formal.

É ingênuo querer mudar o mundo? Não querer mudá-lo é que me parece criminoso. Quem nada faz para nada e se acha inocente é o mais culpado. As formulações são vagas? Sim, mas há uma convergência no desejo de uma forma diferente de produzir e fazer política. Ocupar o espaço e fazê-lo território produtivo. Estabelecer essa zona autônoma, de onde se poderá recombinar e circular os conteúdos. Porque a forma não é a-histórica e não cessa de se relacionar com o conteúdo. A forma afirma-se no conteúdo e, ao mesmo tempo, afirma o conteúdo. Mais do que dizer algo novo, quer-se uma nova forma de dizê-lo, e assim novos conteúdos se tornarão possíveis. Forma como matriz histórica de geração de sentidos, menos que chave universal de interpretação. Uma que seja capaz de dizer não o que não tem sido dito, mas o que não pode ser dito nem visto, dentro da forma atual. É desarranjar as ciladas e cabrestos da esquerda e reestruturar o campo do visível e do dizível. Uma outra mídia e uma outra prática.

Partidos e mandatários criticam que este ou aquele grupo é corrupto, que são traidores dos pobres, hipócritas e interesseiros, mas não podem reconhecer que eles mesmos, enquanto momentos do jogo político representativo, do processo eleitoral e do toma-lá-dá-cá dos parlamentos e meios de comunicação, eles também estão mergulhados nessa corrupção, hipocrisia e interesse privado, e a reproduzem no ato mesmo em que a combatem. A corrupção não é um conteúdo, acidental e contingente, mas a forma mesma em que funciona a política representativa. Quando não simplesmente golpista e hipócrita, a pauta anticorrupção pretende enxugar gelo, quando perde de vista a dimensão global e sistêmica do problema.

A forma através dos mecanismos existentes neutraliza a crítica e a torna interna ao próprio sistema político, anquilosada. Em nenhuma cidade isso fica mais claro do que no Rio de Janeiro, onde o principal partido de esquerda sucumbiu às políticas autoritárias de controle da pobreza. No mundo, a internalização da esquerda se agravou com a intensificação da crise político-econômica de 2008 em diante. Rendeu-se ao dogma que não há saída para a crise pela democracia senão salvar os bancos, fazer o que os sábios de olhos azuis de Davos mandam e pôr a culpa nos pobres, pretos, muçulmanos e imigrantes, e exigir que todos façam concessões, que se resignem a disciplinadamente tornar-se ainda mais austeros e mais pobres. Daí o beco sem saída em que se encontra a esquerda partidária na Europa e na América do Norte. Está rendida ao receituário das elites econômicas e financeiras.

Na América do Sul, por sua vez, a resposta à crise está em aproveitar a oportunidade, como na década de 1930 fez o governo Vargas (a seu modo). Mais desenvolvimento desigual, mais capitalismo de estado-partido, mais controle social e racial, mais agenciamento entre o empresariado nacional e os fluxos financeiros que evadem a crise no hemisfério norte. É o outro lado do beco: o esgotamento do sentido do público, convertido em mera superestrutura do privado. Democracia de fantoches. Para onde, por engessamento, estão rumando governos sul-americanos de Dilma, Chávez e Evo Morales, cada vez menos fiéis às políticas transformadoras da década passada. Alguns políticos de carreira da esquerda parecem frustrados de não ter conseguido ser executivos de bancos e grandes empresas, então se contentam em ser banqueiros e empresários através do estado (BNDES, Petrobrás…). Por isso, o aspecto conservador das críticas às empresas multinacionais estrangeiras, ao capitalismo financeiro e à globalização predatória. Não é porque a Petrobrás é nacional que seja mais justa, basta perguntar aos bolivianos. Nem que o BNDES seja menos concentrador de riqueza, por ser um banco público. Não seria a mobilização mundial do 15-M, — na esteira dos movimentos antineoliberais do final dos 1990 e dos dias de Ação Global, antiguerra do Iraque, — uma resistência propiciada pela globalização? Movimentos como wikileaks, anonymous, fóruns sociais mundiais, wikipedia, o software livre em geral demonstram que a resistência está além das fronteiras e tem de estar. Índios do Xingu têm mais a compartilhar com os quéchuas ou os sioux, do que com a nobreza neo-escravocrata do Leblon. Demais, criticar o capitalismo financeiro em si esquece que não há processo do capital sem crédito, que isso vem desde a sua formação histórica na Alta Idade Média, quando os monges templários inventaram os bancos, no esforço da guerra racista contra os árabes.

Se a representação é a presença da falta, a tarefa passa por preencher esse vazio. Inundá-lo até que transborde de tanto excesso em relação às formas limitadas e amortecidas da democracia vigente. A acampada, ponto nevrálgico das redes no real, condensa o desejo da geração em realmente viver o seu tempo, isto é, um outro mais além do que está. Em produzir seus sentidos e valores, menos do que seguir a carreira formatada da política normal e do mundo por ela estruturado. Quem aposta na acampada não acredita em fidelizar-se a pautas e programas insuficientemente transformadores na prática. Não se contenta em fazer-se presente nos eventos partidários e aguardar a sua vez na fila de espera por cargos e boquinhas. O problema não é que sejam radicais de menos, mas que a sua radicalidade não vai além do slogan e da palavra-de-ordem, amiúde como modo de autoafirmar uma identidade narcísica. Como em pequenos partidos supostamente mais à esquerda, por exemplo, que estão num beco ainda mais desolado que os governos. O problema é que estão maceteados e presos numa forma de produção, a representação e a lógica eleitoral de publicidade e financiamento (público ou privado, não muda quase nada), que não permite realizar, sequer enxergar os conteúdos que defendem e promovem no mundo real. Não é caso de ser anticapitalista de mais ou de menos, de regurgitar mais ou menos o esquerdismo de almanaque, mas apresentar-se numa outra forma de fazer, diferente, não-mistificada pela política de sempre. Diferente sobretudo.

Por isso, só podem ser cínicos ao questionar, com um sorriso sarcástico, ao movimento 15-M ou 15-O que alternativa tem para oferecer ao capitalismo. Retruco a pergunta aos apparatchiks: o que vocês têm a oferecer como alternativa ao 15-O?

TEXTO-FIM
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Bruno Cava é escritor, engenheiro e bacharel em direito. Mestrando em filosofia política do direito, autor de "A Vida dos Direitos" (2008), escreve em vários sites e publica o blogue Quadrado dos loucos.