Quando a História está em busca de Paixão

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O que nos falta não é a consciência de nossa miséria — todos a temos. Falta a crença de que é possível romper a trama dos acontecimentos. Falta encantar o mundo, como defendiam Marx e Rimbaud

Por Nuno Ramos de Almeida | Imagem: Beatriz Almeida

Estamos presos num presente que se repete continuamente, fazendo-o através de uma cascata de acontecimentos que se dizem diferentes. Estes sucedem-se e atropelam-se em ritmo de hipertexto. Em cada final do dia não nos lembramos daquilo que queríamos ter feito no seu início. Tudo muda muito rápido para que tudo se mantenha exactamente na mesma. As nossas vidas tornaram-se atomizadas, os nosso laços líquidos. Transformaram-nos em indivíduos isolados, em corpos privados de comunidade e sentido. Aguentamos a irracionalidade e a injustiça nas nossas existências anestesiados com o barulho das luzes.

“Perdida la esperanza

TEXTO-MEIO

Perdida la ilusión

Los problemas continúan

Sin hallarse solución

Nuestras vidas se consumen

El cerebro se destruye

Nuestros cuerpos caen rendidos

Como una maldición

El pasado ha pasado

Y por él nada hay que hacer

El presente es un fracaso

Y el futuro no se ve”,

cantavam Iosu Expósito e Juanma Suárez, da banda punk Eskorbuto, que morreram demasiado cedo afogados no seu próprio desespero e seringas.

Num dos filmes mais conhecidos do realizador francês Alain Resnais, “O Meu Tio da América”, a ficção e a história é interrompida com experiências de ratinhos brancos com vidas de cobaia. Num lado, um rato encerrado num espaço fechado vai recebendo choques eléctricos, através do chão, e morre rapidamente. Na face B da realidade, dois ratos fechados num espaço equivalente, cada vez que recebem um choque, andam à pancada um com o outro e sobrevivem. A azáfama permite-nos sobreviver ao vazio, à falta de sentido e até, mais facilmente, aos choques elétricos.

Para fugirmos a este tipo de dinâmica e vivência, ilustradas por Resnais, das teses do biólogo Henri Laborit sobre o comportamento humano, necessitamos de rasgar esse fio da história. Presos no presente, precisamos de resgatar outros cursos tornados impossíveis e a memória das gerações que viveram e lutaram para conseguirmos sair desta greve dos acontecimentos. Isso significa resgatar um passado comunitário rumo a um futuro utópico. Reencantar o mundo para o poder transformar e mudar a vida, como defendiam Marx e Rimbaud.

O maior impedimento à criação de uma alternativa ao que temos, não é as pessoas não terem consciência do mundo estar mal. Todos a têm. É a inexistência da crença que é possível romper com a trama dos acontecimentos. Mudar o mundo ficou fora dos limites do pensável.

A política está em crise porque o pensável não serve há muito. Mas desta crise só tem nascido a manutenção irracional e mais violenta do que temos, por inexistência de uma ideia e de um sujeito que incorpore uma narrativa de mudança. Por todo o lado, as coisas vão rompendo. Muitas vezes pela simples agressão aos mais fracos, feita por quem torna migrantes bodes expiatórios e defende muros e fronteiras como panaceia securitária. Outras vezes, o que temos continua a impor-se pela invenção de novas caras, como o novo presidente francês, Emmanuel Macron. Essas novas marcas brancas são uma espécie de continuação das mesmas políticas com outras embalagens. O social-liberalismo de Macron não passa de uma espécie de François Hollande com rosto humano.

Ao contrário disso tudo, no processo amoroso, um encontro fortuito abre a possibilidade de criar um mundo, através da capacidade de ver a partir da diferença a dois. Segundo Badiou, ele não nos leva para “cima” nem para “baixo”, permite-nos construir um mundo de uma forma descentrada da visão que ultrapassa o nosso simples interesse individual. Modifica o tempo e “inventa uma forma diferente de durar na vida”. É um duro desejo de durar, mas é sobretudo a assunção de um desejo de uma duração desconhecida. Numa ruptura revolucionária é possível destruir muros e cadeias a partir de um gesto coletivo partilhado por muitos. Tudo começa num encontro e num gesto e na apropriação de palavras que resumem vontades e as tornam ato. Num ano de muitas efemérides, faz 100 anos que depois de derrotados na Comuna de Paris, os vencidos da História tomaram o Palácio de Inverno.

Quando os apoiantes do governo de Kerensky garantiram que não havia nenhum partido na Rússia com capacidade de tomar o poder e fazer diferente, Lenine tomou a palavra e garantiu que havia: os bolcheviques queriam tomar o poder. Até este momento, apenas havia vagas possibilidades inscritas na História. A Rússia estava numa profunda crise e farta da guerra. O povo queria paz, os camponeses queriam terra e os operários queriam uma vida digna. Mas as condições sociais existentes não determinam, por si só, o que poderia acontecer num determinado momento. Elas apenas fornecem parte das condições em que se desenrola a luta política. Sobre isso é preciso criar um sentido, impor uma ideia hegemónica, produzir sujeitos que possam fazer a mudança.

“As armas da crítica não podem, de facto, substituir a crítica das armas; a força material tem de ser deposta por força material, mas a teoria também se converte em força material uma vez que se apossa dos homens. A teoria é capaz de prender os homens desde que demonstre a sua verdade face ao homem, desde que se torne radical. Ser radical é atacar o problema nas suas raízes”, escreveu Karl Marx “Na Crítica à Filosofia do Direito de Hegel”, concluindo que o proletariado é “uma classe da sociedade burguesa que não é uma classe da sociedade burguesa; de um estado que é a dissolução de todos os estados; de uma esfera que possui um caráter universal pelos seus sofrimentos universais e que não reclama nenhum direito especial para si, porque não se comete contra ela nenhuma violência especial, senão a violência pura e simples; que já não pode apelar a um título histórico, mas simplesmente ao título humano; que não se encontra em nenhuma espécie de contraposição particular, senão numa contraposição universal com as premissas do Estado; de uma esfera, finalmente, que não pode emancipar-se sem se emancipar de todas as demais esferas da sociedade e, simultaneamente, de emancipar todas elas; que é, numa palavra, a perda total do homem e que, por conseguinte, só pode atingir o seu objetivo mediante a recuperação total do homem. Esta dissolução da sociedade como uma classe especial é o proletariado”.

Mas para o proletariado, seja ele qual for hoje, para cumprir essa missão não basta respirar, é necessário saber que existe e querer traçar esse caminho. Uma pedra cumpre a lei da gravidade sem pensar, as pessoas estão na História movidas pelos suas próprias ideias e convicções. Para haver um acontecimento que rompa com a ordem existente e crie um sujeito histórico é preciso existir alguém fiel a esse acontecimento que, numa determinada situação, se torna sujeito de uma rutura. São os acontecimentos que criam as suas próprias condições de existência. Antes deles existirem eles não estavam inscritos na situação. Uma situação abre para um conjunto diversificado de possibilidades. Um revolução refaz o passado, muda o presente e traça um futuro. É como uma paixão: cria as suas próprias condições de existência. A partir de um encontro fortuito, faz-se um gesto que transcende uma situação e cria uma nova realidade. Quando alguém se apaixona e fala com a pessoa que ama e estabelece uma genealogia do que o fez gostar, transforma tudo o que parecia casual num caminho com sentido. A revolução é esse momento de rutura que cria um novo sentido. Aquilo que a inaugura é um gesto. E foi isso que Lenine fez. Assumiu que era possível vencer onde outros não viam senão derrota.

TEXTO-FIM
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Nuno Ramos de Almeida

Nuno Ramos de Almeida é jornalista português, editor-executivo do Jornal I (www.ionline.pt).

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