Procura-se uma nova democracia

Maio: Europa descobre-se sob tirania… das finanças. Nas praças, multidões já sabem o que não querem: “nem políticos, nem banqueiros”

Da Redação

Ao dirigir-se, em carta, ao I Fórum Social Mundial (2001), o escritor português José Saramago alertou para o declínio da democracia no Ocidente. Em sua opinião, o regime estava regredindo à condição de “missa laica”: uma série de rituais sempre repetidos, porém cada vez mais ausentes de sentido. As eleições, as sessões dos Parlamentos, as reuniões de ministérios serviam apenas de “fachada”, por trás da qual se faziam os acertos que afetavam a vida de todos – e enriqueciam poucos.

Dez anos depois, as palavras de Saramago ganharam as praças. Numa sequência de países “democráticos” – Espanha, Grécia, Chile, Israel, Estados Unidos – multidões disseram que o sistema político já não as representava. Os partidos com acesso ao poder haviam sequestrado a democracia. Todos empenhavam-se em impor às sociedades as medidas que interessavam à oligarquia financeira. Daí os slogans: “Nem políticos, nem banqueiros”, na Espanha. “Somos 99%”, nos Estados Unidos.

A forma mais frequente de protesto foram os acampamentos. Neles, experimentavam-se formas colaborativas de compartilhar o espaço e exercer tarefas elementares de “governo”: cuidar da alimentação, segurança, alojamento e limpeza, por exemplo. Em 15 de Outubro (o 15-O), uma jornada global de protestos espalhou-se por mais de 800 cidades.

Os movimentos não alcançaram conquistas imediatas, nem chegaram a transformar em reivindicações concretas seus desejos. Estão engatinhando. O essencial é que seu surgimento abriu, na agenda de um importante setor das sociedades, uma preocupação e uma meta novas. A democracia está se esvaziando: é preciso reinventá-la.

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TEXTO-MEIO

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TEXTO-FIM
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