Porcelanas e Artefatos

131017-Rousseau

A moça aludia às corporações e sua busca neurótica de lucros. As palavras despertavam-me um estado letárgico, quiçá onírico

Por Theotonio de Paiva | Imagem: Henri Rousseau, A Guerra (1894)

As porcelanas, todos nós quando pequenos aprendíamos isso, apesar de frágeis, eram feitas para durar. Não se tocava nelas, também mal envelheciam. Enquanto o tempo passava, eram deixadas cuidadosamente guardadas no móvel que melhor simbolizava a memória da família: a cristaleira.

No entanto, invariavelmente, alguns pequenos dramas domésticos aconteciam nos momentos mais previsíveis. Poderia ser uma criança, ou um adulto mais desastrado, não importava. Provavelmente, num dia de festa, numa grande efusão, alguém, quem sabe uma visita, ao pegar em alguma peça, deixava-a cair. E assim transformava a pequena louça na Teresinha da canção infantil.

Piadas espirituosas, gracejos guardados desde há muito tempo, ressurgiam, num misto de grotesco e encantamento.

– Sinal de sorte! – emprestava o tio a sua voz rouca para celebrar uma felicidade suburbana.

TEXTO-MEIO

E todos procuravam se comportar como se fossem seres muito arcaicos, que se deixaram ficar indefinidamente pela terra. E, em suas expressões e máscaras, pareciam pertencer a uma outra época, quando os homens faziam grandes festas e, nelas, o anfitrião comandava a destruição de todos os seus pertences, num sinal de glória e prestígio.

No entanto, nem todos olhavam para os estilhaços no chão da mesma forma. A dona da casa ficava se lamentando enquanto os olhares dos convidados se perdiam num silêncio entrecortado por palavras que profetizavam melhores dias para os anfitriões. Os ombros caídos da mulher lembravam do presente de casamento dado com dificuldade pelos avós maternos. E sinceramente achava uma besteira aquela encenação miúda de um potlach, numa vila de periferia, que alguns teimavam em reabilitar.

Há muito não temos mais porcelanas, assim como também não temos mais cristaleiras. No entanto, ao desviarmos o olhar da memória e ruminarmos o mundo à nossa volta, iremos encontrar outros interesses, ainda mais transitórios, que vão de miudezas até grandes empreendimentos. Todos, no entanto, igualmente pretensiosos.

Numa tacada, insistem em mostrar que, dessa vez, a mudança alcançada cumprirá o surgimento de um estágio de felicidade supremo. Educadamente não pergunto quando.

Não é difícil “olhar o mundo e ver”, dizia uma antiga canção do Roberto, e displicentemente pousarmos a nossa mirada naquilo que, de fato, mais impressiona: fomos invadidos pela mais absoluta efemeridade. Não resta mais nada, talvez apenas certa nostalgia.

– Ora, convém recordar, espichava os olhos o gordo empreendedor, que tudo muda. Não se fazem jornais com notícias do ano que passou.

– Também não se fazem mais jornais! – diria o amigo do lado. Embora sustentando a vida num equilíbrio tosco, em cima de pernas de pau, seria capaz de perder o jantar prometido, mas se manteria irredutível na eterna busca pelo humor de ocasião.

Nos tempos que correm, encontramos guarda-chuvas, filmes, artefatos de todas as procedências, objetos de arte, lixeiras, sites, transmissores, imagens, negócios, brinquedos, prédios, rostos de atrizes, estádios de futebol, imagens, trens, satélites, livros, empreendimentos financeiros, jogadores, expressões artísticas, celulares, novamente imagens, líderes políticos, obras públicas, artistas, que acusam uma eternidade, prometendo cortar os séculos como a Ilíada. No entanto, pouco tempo depois de suas aparições, seguem ignorados até dobrarem uma primeira esquina.

Lembro de uma aula de economia política que recebi numa pequena loja de assistência técnica. Já lá se vão alguns anos. Fazia um calor escaldante na cidade e eu fora consertar o meu celular que não vinha trabalhando direito. De fato, o aparelho, que me servira muito bem até então, sem apresentar nenhum problema, infelizmente, de uns tempos para cá…

Quando cheguei naquele lugar, e comecei a explicar a razão da minha visita, a funcionária me olhou constrangida. Parecia encontrar um defeito em mim, como descobriria com facilidade no Major Kovaliov, de Gogol. Ou, quem sabe, se demorasse um pouco mais, poderia igualmente suspeitar algo de anormal no jovem Antenor, cuja cabeça viria a ser obra de um cavalheiro, dono de uma loja onde se consertavam relógios e, principalmente, outros maquinismos delicados de precisão.

Estranhamente, procurava me convencer de que eu experimentava uma sensação desagradável, perversa mesmo, ao me manter fiel a uma relíquia de três ou quatro anos. E, após balançar a cabeça com uma certa graça, acusou taxativa:

– Os aparelhos celulares precisam ser substituídos periodicamente.

Retruquei, achei aquilo um absurdo. A geladeira da casa de meu pai durou uma eternidade. Minha avó tinha uma cadeira de balanço que o meu pai herdou dela e pode usá-la com conforto durante anos. Apesar de católico, lembro dele como um espírito avançado de Weber lendo a Bíblia.

Evidentemente que ela não escutou nada disso. Eu também não ousaria tanto, por excesso de timidez. Tampouco adiantaria falar, ela se manteria irredutível.

– O senhor me permite ser mais objetiva? Eu aconselharia a trocar esse seu aparelho com urgência.

Aquela palavra destacada soava como uma balalaica maiakoviskiana: objetiva. O que é ser objetivo num mundo de subjetividades? Algumas bem toscas, é verdade, mas assim mesmo… Num voo mental, conclui que assim também deveriam ser mudadas com freqüência as fraldas dos bebês. Enquanto ela procurava abrir o aparelho, eu pensava nas comidas deixadas nos pratos, nos amores suspirados e logo abastecidos. Ela queria me fazer acreditar que, absolutamente, tudo no planeta estava com o prazo de validade vencido.

Com extrema habilidade, Nancy revelava uma assimilação profunda da lógica separatista do consumo. Em dois tempos, conseguia traçar alguns motivos óbvios, embora deliciosamente vampirescos, para a fabulação gestora das grandes corporações.

– Eles precisam pagar os salários dos funcionários e operários. São investimentos altíssimos em máquinas e equipamentos sofisticados… Além disso, há um exército meticulosamente armado para fazer frente a uma competição violenta.

O desdobramento daquilo me acuava eternamente. Era como se a jovem me lembrasse do espírito único que rege os homens desde os primórdios. Ali, eu percebia a nossa condição de predadores. Vencemos os outros primatas mais próximos, por sermos os mais… violentos. E essa condição se estende por um curto espaço de tempo de alguns milhares de anos.

– Não sei se o senhor sabe, mas a propaganda é um dos mais altos custos desse setor.

Durante um tempo, fiquei impressionado com a sabedoria daquela balconista. Mais ainda tocado com a sua assimilação de um discurso que jamais seria capaz de formular por si. A moça deixava nas entrelinhas que aquelas corporações precisavam acumular ganhos cada vez maiores, naquela neurose sem fim do lucro.

Aos poucos, suas palavras despertavam em mim, um estágio de letargia, melhor dizendo, onírico. Era como se, naquele momento, eu entrasse num grande bailado. Olhei para cima e vi holofotes poderosos iluminando toda a área. Estávamos em um hangar estupidamente monstruoso. Ao longe, ouvia grossos pingos de chuva caindo naquele céu em formato de um grande arco.

Com efeito, estar ali se traduzia numa sensação próxima a uma viagem por dentro de uma gigantesca máquina de ilusões. Estrategicamente colocada num canto escondido do mundo, aquela invenção nos tornava ébrios das sensações mais estimulantes. No comando de um gozo inebriado poderia nos punir por uma compra a menos, uma suspensão de um impulso impensado.

Em sua força, revertia as sensações mais inveteradas de uma pessoa. Assim, tornava possível perceber o seu funcionamento estimulando os nervos e as correntes sanguíneas numa pulsão desenfreada. E tudo levava candidamente a uma espécie de zona libertadora do consumo. Era necessário fazer isso como num mandamento religioso, docemente despótico, que não tinha fim.

Imagens que se sobrepunham testemunhavam um outro real. Imensas projeções cambiavam de intensidades e lugares, dando uma condição ausente de limites. Em uma delas, Nancy surge como um visionário, espécie de mago do tempo. E explicava detalhadamente as causas que eu deveria ter como minhas.

– De que outro modo, as grandes corporações conseguiriam sustentar toda a indústria publicitária com as suas peças diabolicamente sedutoras se não estivessem apoiadas numa renovação constante, imperdoável?

– Mas…

– Como os grandes bancos, por sinal, verdadeiros donos do mercado global de alimentos, cresceriam naquela dimensão suprema, reservando para si um lugar privilegiado no mundo paradisíaco de modestos afortunados, em que o 1% mais rico fica, sozinho, com 15% do que se produz em toda a humanidade, se não estimulassem um verdadeiro endividamento?

– Talvez não seja justo…

– O senhor acha que eles são os responsáveis por consagrar no altar dos sacrifícios aquela modesta figura de um sujeito simpático? Ou não foi a sua imprudência que o levou a colocar no pendura a sua casa, depois alguns bens, e, em seguida, todos os outros, até entregar a própria família, a fim de pagar aquele seu credor de mão invisível?

A chuva se intensificava. Naquele momento, a jovem parecia falar num ritmo ainda mais intenso. Estimulava em si mesma uma casta investida, espécie de bordoada que explodia todos os prognósticos contábeis e se oferecia numa dimensão cada vez mais contemplativa enquanto eu percebia a minha existência escorrer vertiginosamente para um canto do assoalho.

– Eis o elixir da vida! Brindava a atendente que, àquela altura, se transformara integramente.

Era possível compreender o quanto deixava em cada comentário seu uma fina observação do elixir de uma existência empanada pelo consumo.

Com esforço, eu ainda tentava compreender que diabos de sensação me acometia. Estava certo de que aquilo jamais fizera parte dos meus penaches. Poderia ficar tranqüilo de que eu não era um Cyrano enlouquecido. De vez em quando, perguntava algumas coisas banais e tolas para que ela me ensinasse, tentando ainda manter alguma frágil consciência.

Nesse momento, o aguaceiro é desesperador. Aos poucos, eu me deixava abater por uma cada vez mais sofisticada capacidade de observação sobre as coisas que Nancy evocava. As principais motivações marcadamente econômicas que consolidam os grilhões de um público às grandes corporações transnacionais passavam a fazer parte de mim como uma canção primitiva de ninar. Enquanto conversávamos, me lembrava de algumas pequenas situações em que alguém se deixava fazer o papel de pobre vítima.

TEXTO-FIM
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Theotonio de Paiva

Theotonio de Paiva, dramaturgo e diretor de teatro, é doutor em Teoria Literária pela UFRJ.