Pobres e invisíveis, no coração do Império

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EUA superaram apartheid aberto e elegeram Obama presidente — mas Ferguson expõe drama dos bairros negros, em tempos de desemprego e decadência

Por Eugene Robinson | Tradução: Gabriela Leite

Desta vez, o fogo vem da invisibilidade. Nossa sociedade espera que a polícia mantenha longe dos nossos olhos e mentes os afro-descendentes desempregados e com pouca educação formal. Quando, de repente, sobem ao palco, iluminado pelos flashes e pela centelha dos coquetéis molotov, simulamos surpresa.

A última causa da agitação em Ferguson, no estado de Missouri, meio-oeste dos EUA, foi a morte do garoto de 18 anos de idade, Michael Brown. Segundo uma testemunha, ele foi parado por um policial branco por andar na rua, e não na calçada. O oficial, Darren Wilson, atirou em Brown pelo menos seis vezes. Duas das balas atingiram sua cabeça. Aí temos novamente a narrativa familiar: outro homem negro desarmado, assassinado injustamente. Brown, portanto, junta-se a uma lista longa e triste, que parece não ter fim.

Este enredo é indiscutível. Para sustentar que etnia não é um fator importante nestes encontros fatais, seria preciso citar exemplos de jovens brancos e desarmados sendo mortos pela polícia ou por autoproclamados vigilantes. Nomes e datas, por favor.

Mas a violência em Ferguson evoca uma narrativa mais profunda e fundamental sobre o que afro-americanos têm feito, e o que tem sido feito a eles, nas décadas após as manifestações urbanas dos anos 1960 — o fogo anterior.

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Tentado a concluir que nada mudou nos Estados Unidos? Por favor, repare que o comandante da patrulha de rodovias de Missouri, escolhido para disciplinar a ação da polícia local, é negro. O procurador geral que interrompeu suas férias na ilha de Martha’s Vineyard para ordenar uma investigação no Departamento de Justiça e uma terceira autópsia é negro. E, é claro, o presidente e comandante-em-chefe — que também interrompeu férias para discursar sobre a crise em Ferguson — é negro.

Note também que essa evidência inegável de progresso na questão de raça — ela teria sido inimaginável quando o Harlem explodiu, em 1964, após a polícia ter atirado em um garoto de 15 anos — não faz diferença aparente para os jovem que se agitam pelas ruas de Ferguson.

E por que não? Porque os enormes ganhos obtidos por alguns afro-descendentes não apenas deixaram outros para trás, mas fizeram sua situação mais desesperadora e sem esperanças do que era, cinquenta anos atrás.

Quando a inquietação em Ferguson acabar, prevejo que haverá uma enxurrada de jornalismo ambicioso tentando afirmar o status da parte negra dos Estados Unidos. A maior parte destas análises serão ignoradas porque irão contradizer o que os norte-americanos veem todos os dias com seus próprios olhos.

Milhões de afro-americanos tiraram proveito das oportunidades criadas pelo movimento de direitos humanos para ascender à classe média — e, em alguns casos, mais além, como mostram os exemplos do Presidente Obama e do Procurador-Geral Eric Holder.

Mesmo assim, milhões de outros norte-americanos negros não alcançaram a classe média. Este grupo, atolado na pobreza e desocupação, descobre que os caminhos que outros percorreram estão bloqueados. Eles vivem em bairros com escolas decadentes, que não conseguem prepará-los para a economia de hoje. Empregos seguros de operários, com salários altos, são algo do passado. Tendências raciais no policiamento significam que eles têm muito mais probabilidade de serem detidos e presos por ofensas pequenas e não violentas, tais quais posse de droga, do que os brancos, ao cometerem os mesmos crimes.

Cada vez mais, este afro-descendentes que foram deixados para trás estão invisíveis. Seus bairros ou sofrem especulação imobiliária — o que significa que eles não podem mais morar lá — ou são simplesmente evitados pelo desenvolvimento. O que acontece em bairros negros e pobres tem cada vez menos a ver com a vida diária da classe média norte-americana, branca ou negra.

Ainda em Ferguson, e em alguns outros cantos pelo país, milhões de jovens, homens e mulheres, crescem sabendo que as cartas estão sendo postas contra eles. Por acaso Michael Brown tinha um chip em seu ombro? Segundo seus amigos e família, não, apesar da loja de conveniências sugerir o contrário. Seria compreensível se tivesse? Será que ele teria se perguntado se crianças brancas, vivendo em partes mais afluentes da cidade, são incomodadas frequentemente pela polícia por perambular pela rua?

Brown não tinha registro na polícia. Ele tinha se formado no ensino médio. Estava prestes a entrar em uma faculdade técnica. Dado o local de onde ele vem, é difícil chegar a algo muito melhor — e fácil fazer coisa bem pior.

Agora que as ruas estão cheias de raiva incoerente — e a violência deve ser fortemente condenada — podemos compreender a luta de Brown. Momentaneamente, pelo menos. Depois que a fumaça passar, ficaremos cegos novamente.

 

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Eugene Robinson

Eugene Robinson tem uma carreira de 30 anos no jornal norte-americano The Washington Post. Escreve uma coluna de política e cultura, e procura observar a sociedade estadunidense de maneiras inesperadas e reveladoras.

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