Photofagia: Ora, direis, ouvir metrópoles?

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Monges budistas fazem do heliporto do Edifício Copan, em São Paulo, metáfora de montanha zen e cenário de meditações

Por Leticia Freire, editora de Photofagia

Do alto da babel fervilhante, imersa em signos e invadida por ruídos, São Paulo ganha horizontes que beiram a poesia e o devaneio. Diante da retina, o resultado da interferência humana no espaço geográfico perpassa o concreto. Entre montanhas e vales que cercam a metrópole, o contraditório cinza paulistano ganha sentido de belo e humano.

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São 7 da manhã de uma sexta-feira nublada. Dois monges zen budistas à minha frente estão em silencio, sentados face ao Norte, meditando. Estamos no topo do Edifício Copan, 140 metros acima do centro de São Paulo. Do topo do prédio projetado por Oscar Niemeyer é possível divisar, em 360 graus, boa parte de uma cidade de 11 milhões de habitantes. Exposto a tantas imagens e imerso em tantos sons, meu corpo responde com um longo suspiro. O ritmo da respiração começa a trazer luz à consciência e me instalo no presente.

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Apesar do barulho incessante, desligam-se. A concentração refletida no semblante e postura é admirável. Do mundo exterior ficam ausentes por uma hora, até ouvirem as oito badaladas do sino da igreja Nossa Senhora da Consolação, na vizinha Praça Roosevelt. Na sequência, o som do sino que acompanha o monge-mestre toca de forma suave duas longas vezes. A meditação chegou ao fim. É hora de abrir os olhos.

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A ideia de fazer do heliporto do Copan um retiro surgiu há mais de cinco anos. O prédio foi escolhido por apresentar a semelhança ilusória de uma montanha zen. Interagir com o caos da cidade em seus mais diversos estados climáticos é apenas parte da meditação.

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O objetivo principal do grupo é levar vibrações de harmonia e compaixão ao maior número de pessoas possível. Por estarem em um dos pontos mais altos do centro e observarem a cidade inteira, a energia gerada pela pratica meditativa se expande pelas ruas, penetra no solo e, quiçá, vira partícula química da água que bebemos.

Leticia Freire, pesquisadora, retratista e autora do blog Photofagia inaugura nova coluna em Outras Palavras. Nela, vai expor suas fotografias, textos, viagens, personagens, devaneios e afins.

Formada pelo Cavendish College London, sob orientação de Rod Morris, Leticia começou a fotografar em 2005. Durante os anos de 2006 e 2007, percorreu diversas áreas do Brasil e do mundo, reportando visualmente os elos entre pessoas e cadeias produtivas.

Aportou em Santos em 2008, mudou-se para São Paulo em 2009, e desde então vem exercitando o olhar de forma livre e plural.

As imagens aqui apresentadas compõem parte de seu acervo.

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Leticia Freire

Pesquisadora, retratista e autora do blog Photofagia inaugura nova coluna em Outras Palavras. Nela, vai expor suas fotografias, textos, viagens, personagens, devaneios e afins.